Os Vingadores: E a consolidação do gênero de super-herói no século XXI

Na cena pós-créditos de Homem de Ferro (2008), Nick Fury (Samuel L. Jackson) vem falar para Tony Stark (Robert Downey Jr.) sobre o fato de ele não ser o único herói da Terra. O segmento pode ser considerado um dos mais importantes na linha do tempo das obras cinematográficas que adaptam histórias de super-heróis das Histórias em Quadrinhos (HQs). Porque foi a partir deste ponto que o projeto de adaptar as aventuras dos “Heróis Mais Poderosos da Terra” para as telas se consolidou, abrindo caminho para o projeto de “Os Vingadores” (2012).

Dirigido por Joss Whedon e escrito pelo mesmo em parceria com Zack Penn, o longa narra a aventura do time de heróis formado por Capitão América (Chris Evans), Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Hulk (Mark Ruffalo), Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) unindo forças como equipe para deter os planos do manipulador Loki (Tom Hiddleston) de escravizar a humanidade com seu exército de alienígenas.

O filme soa grande e imponente em um sentido que é muito próprio às estórias advindas das HQs. O exagero nas proporções com que as narrativas são desenvolvidas nesses projetos dá um revigorante aval para que, enquanto obra fílmica, o longa-metragem flua e se apresente em sua forma mais natural. Isso foi o que o ocorreu no filme em questão.

Em Vingadores, temos um realizador extremamente envolvido no seu trabalho, e isso faz uma diferença crucial para o resultado final que vemos na tela. O controle e unidade que Whedon aplicou na feitura do longa são o seu maior destaque. Estamos falando de uma aventura onde Nova York é invadida por exército alienígena, e apenas um grupo de pessoas superdotadas é capaz de impedir uma catástrofe de dimensões globais. Nesse tom exagerado, o equívoco é uma linha tênue a ser dividida apenas pela probabilidade do acerto.

Mas, a Marvel Studios, liderada pela figura do seu CEO, Kevin Feige, acerta. E faz do filme a maior bilheteria da sua história até hoje, com cerca 1,5 Bilhão de dólares ao redor do mundo. É claro que, falando do cinema blockbuster, as cifras são sempre uma tônica muito difícil de desconsiderar. É mercado, em que se pese, é claro, também a paixão que os realizadores envolvidos nesses projetos dispensam a cada um deles. E nomes como os de Whedon, Joe e Anthony Russo, entre tantos outros que realizaram na Marvel, são exemplos disso.

E aí, retornando a Vingadores, é interessantíssimo ver, para além de tudo o que já se tenha falado e discutido sobre o longa, como as referências foram preservadas e destiladas com vistas a ser tudo o que deu forma e sentido ao filme como um todo. A preservação de personagens icônicos das HQs como Loki, por exemplo, vilão da primeira edição dos Vingadores (1963), reflete o quanto o tom referencial foi um norte para a execução do filme em suas dimensões técnicas e afetivas, considerando ai crítica e público.

Estamos diante de um cinema de aventura, claro. E o tom que o filme leva consigo traz nuances de toda uma jocosidade oriunda, novamente, dos quadrinhos. Esses tons, entretanto, são muito bem dosados, e entre uma variação tonal e outra que Whedon e sua equipe construíram junto do elenco, o longa se dotou de um caráter positivo que reúne a leveza das situações vivenciadas por esses personagens extraordinários e o uso irrepreensível da técnica cinematográfica quando consideramos aspectos da sua linguagem como desenvolvimento de roteiro e efeitos visuais,  e trilha sonora, por exemplo.

Em termos de roteirização, Vingadores é um feliz modelo de como uma estória adaptada dos quadrinhos pode ser desenvolvida para o cinema. Com um núcleo relativamente grande de personagens a ser trabalhado, é  na dinâmica e interação entre esses nomes que o filme mais ganha força. Nenhum herói acabou negligenciado por questões diversas como pouco tempo de tela, ou mais pontuais, como o desenvolvimento das suas posições dentro do escopo da narrativa.

Há a esperada reunião dos heróis e seus recrutamentos ante a ameaça que Loki representa, além da difícil interação entre esses nomes e o desafio de cada um lidar com os seus egos. Seguido de um rompimento da equipe após um primeiro esforço frustrado para conter os planos do vilão, até o entendimento por parte dos personagens de que eles, de fato, só conseguirão solucionar o problema caso lutem juntos, como equipe. Eles então se posicionam como um time e unidos, salvam Nova York e a Terra. Eles se tornam Os Vingadores.

É claro que falar de um filme desses é se embrenhar num emaranhado de sentimentos que rompem percepções e envolvimentos muitos distintos, a variar entre idades (considerando adultos, jovens e crianças). Mas o alimento do imaginário a partir de uma obra bem executada é um prazer que o audiovisual pode ainda nos garantir. Não em um sentido de termos de defender ou não tal trabalho. A obra de arte não está no mundo para ser defendida, mas apreciada, vista com olhar crítico ou lúdico, se assim o espectador, no caso dos nossos filmes, assim imaginar.

As arestas que formam Vingadores é a da aventura que comunga a ludicidade com o êxito de um projeto que verá em 2018 o seu ápice a partir daquilo o que Vingadores: Guerra Infinita (2018) possivelmente representará.

Esse é o prazer de vermos como a Marvel tem, ao longo dos últimos 10 anos, construído obras que alimentam nosso imaginário de distintas formas a partir das semelhanças e diferenças que formam seus filmes. E as arestas que formam Vingadores são as da aventura que comunga a ludicidade com o êxito de um projeto que veria em 2018 o seu ápice a partir daquilo o que ‘Vingadores: Guerra Infinita (2018)’ representará para toda uma geração em suas mais distintas idades.

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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