Os tesouros de Fortaleza, por Rosana Medeiros

Fortaleza é uma cidade enorme e tem essa beleza litorânea próxima à Linha do Equador.

Só que aqui nossa brisa traz a lembrança seca do interior do Ceará, e é no nosso mar que essa lembrança se mistura com o vento úmido e faz de Fortaleza essa cidade quente e gostosa que a gente tanto fala com o nosso sotaque carregado no s… GOSSSTÓSA.

Mas Fortaleza não é só a Praia de Iracema e a sua beleza azul marinha meio decadente, meio conservada, ostentando a arquitetura de Fausto Nilo, que é quase uma canção, em meio à especulação imobiliária tapando o mar e querendo alcançar o céu. Fortaleza tem segredos escondidos em todos os bairros e até na Zona Metropolitana.

Andar por Fortaleza e abrir os olhos pra ver a aldeia além da Aldeota permite encontrar as raízes de um povo que recebe todo mundo, mesmo, desde que Iracema feriu e curou Martin.

A cidade é desigual, mas os melhores lugares também são os mais democráticos, onde todo mundo se encontra e se mistura. Para comprovar a minha tese, basta dar uma olhada nas pessoas que cruzam a rua do Estoril em dia de Festinha, os bares do Dragão do Mar e também lembrar da “ruazinha do Fafi”.

Aqui se encontra de tudo, do bar “Cu do Padre”, que convive pacificamente com um Seminário, ao “Suvaco de Cobra”, que é bem curtinho e criativo, como tantos outros bares e negócios do Montese; o “Raimundo dos Queijos” e o Passeio Público no Centro; o Kant Bar, na Bezerra, entre tantos outros.

Mas o tesouro de Fortaleza é a gente que mora aqui ou que vem e escolhe fazer a cidade de morada.

Assistindo a uma palestra da Monja Coen, fiquei pasma em saber que aqui mora um mestre de ioga que ensina gratuitamente meditação a crianças de escolas públicas (que eu não consegui encontrar na internet).

Por aqui também fiquei sabendo de uma mãe de santo loura e empresária que mostra a luz da Umbanda para todos os que procuram seu terreiro.

Cada bairro levanta seu estandarte e suas particularidades.

Dos bairros que são as veias do comércio aos que cuidam e abrigam e nutrem os estudantes universitários de educação e boêmia.

Do Bairro de Fátima, católico por natureza e vizinhança, que se enche de fiéis e faz a Pontes Vieira e 13 de Maio e as ruas paralelas e perpendiculares vias de expiação de pecados a cada dia 13.

As nossa cidade se divide em linhas retas de vias apertadas. O nosso trânsito até melhorou um pouco ao longo dos últimos anos. Mas quem conhece a cidade ainda prefere evitar as vias às 18h. Principalmente as do Benfica e da Parangaba.

Nos bairros mais distantes, os arranha-céus em construção tentam se construir em meio à atual crise do país e as pessoas procuram emprego e ocupação.

O nosso humor tão conhecido insiste em aparecer, não só nas casas feitas pra turistas, mas nos artistas que tentam vender a sua arte arrancando sorrisos das senhorinhas e senhores trabalhadores que se juntam nas filas dos terminais de ônibus.

A arte do cearense é viver e batalhar pela vida. Exportamos essa arte para o Brasil e para o mundo, há quem garanta que um IEEEEEEI encontra eco nas ruas das maiores e menores cidades do mundo.

Mas a nossa identidade de cidade ainda carece de muitas fontes e de muitas histórias que precisam ser contadas.

Fortaleza precisa se conhecer e se reconhecer nesse espelho de mar.

Precisa se reconhecer nas nossas heranças indígenas, que resistem no rosto da maioria nossa população, nas redes espalhadas nas varandas, e continua viva contando uma história que,  às vezes, eu tenho a impressão que quase ninguém ouve.

Das nossas lembranças europeias, dos fortes francês e holandês usurpados pelos portugueses. Da presença portuguesa, que é ostentada pelas famílias “tradicionais do Brasil”, perceba a ironia. E de tantas outras fortes presenças e também da mistura que essas presenças trouxeram.

A nossa cidade é um corpo que precisa de mais articulações.

A gente precisa preservar nossas jangadas e o nosso mangue (da sanha dos estacionamentos e das construtores), também precisa alargar as nossas ruas e torná-las mais transitáveis para que os habitantes possam se encontrar e encontrar o equilíbrio.

Sobretudo preservar a vida nessa selva de edifícios e casas baixas tão bem separadas no horizonte de quem passa no viaduto da Alberto Craveiro, onde cada bairro guarda uma comunidade pobre, que exporta talento e muita vontade de existir.

Rosana Medeiros

Rosana Medeiros

Publicitária, estudante de marketing político e feminista, que acredita nas pessoas e na educação como ferramenta de transformação.

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