OS BONS FRUTOS COLHEMOS DE BOAS ÁRVORES OU PELOS FILHOS HOMENAGEIO AS MÃES, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Tua branca rede já não se arma / para a sesta. Todavia guardo, / com o ranger longínquo dos armadores, / a placidez do teu sono, / a entreter o meu sonho. / […] / No silêncio noturno, não se ouvem mais / os passos cautelosos, com que fechavas / a janela que dá para a rua, / no entanto percebo, / na lã escura da noite, / o abrigo do teu xale.” [Linhares Filho, em A minha mãe, habitante da morte – ITINERÁRIO: trinta anos de poesia, 1968-1998; São Paulo: Scortecci, 1999; pág. 68].

Eu, filho de dona Enedina, a respeitável professorinha que me ensinou a dar os primeiros e cambaleantes passos, tanto na vida que muito protagonismo de mim tem exigido, quanto na arte de aprender sempre, de ler e interpretar criticamente o mundo que me tem acolhido como homo sapiens, bem como o espaço que me obrigo a preencher com o exercício efetivo e responsável dos mais variados papéis que a cidadania a mim confia, de navegar com precisão sobre as águas do meu oceano existencial, às vezes de perturbativa calmaria – sem avanços, sem recuos, sem transbordamentos –, muitas outras de instigantes procelas, muitas das quais quase “tsunâmicas”, e de amar incondicionalmente as palavras, tanto as que me acalentam, me satisfazem, me saciam os desejos de leitura, quanto as que se submetem afavelmente aos meus exigentes estilos de escritura, entre mim e elas se mantendo e cotidianamente se revigorando, incólume e resistente ao tempo, uma simbiótica relação de compatibilidade de gênios – amantes que somos –, em que só ganhos há para ambos:

“Se uma mãe eu tive – e tive sim! – a embalar-me nos meus sonhos,

A agasalhar-me no peito e permitir que lhe auscultasse o coração,

A ensinar-me os primeiros passos e proteger-me de sustos medonhos…

A trágica e precoce perda dilacerou-me a alma, impôs-me à prostração.”;

e o Marcos Alverne – parceiro das prodigiosas e miríficas conversas e dos formativos colóquios, nos idos tempos em que fomos alunos salesianos, um outro Cleyton Monte na minha irrequieta pré-adolescência, em ambos se revelando a mesma genialidade, a mesma argúcia, a mesma perspicácia –, e o Sérgio, mais moleque, mais obreiro, mais diligente, mais insubmisso, e, às vezes, o Arquimedes, ainda sem tutano suficiente para enfrentar certas renhidas batalhas, apesar da afoiteza pueril, todos eles filhos de dona Fransquinha, incontestável exemplo de realização materna, na quantidade e na qualidade, construída cotidianamente com dedicação, despojamento e abnegação, ou seja, com amor, de quem era perceptível o resplandecer da felicidade que emanava dos filhos (muitos!) e por quem, ora declaro, embora tardiamente, nutri, ainda sob os sombrios resquícios de carência materna ante a orfandade precoce e destrutiva, velada afeição filial;

e o Zé Milton, parceiro de todas as atividades lúdicas – do futebol, em todas as suas versões praticadas então, à rasteira ou castelo, cujo bem em disputa eram castanhas de caju, as de melhor apresentação física –, de muitas atividades sociais – as tertúlias, as concorridíssimas festas do Balneário Itamaracá Clube, com suas piscinas naturais, ao som de guitarras, contrabaixos e baterias (a que se juntavam, aqui acolá, instrumentos de sopro, principalmente o saxofone) –, e das conversas, dos segredos, dos pensares, dos flertes, das paqueras e azarações, e, nas férias, o Chicão e, algumas vezes, o Antônio Carlos, todos eles netos de dona Ana, adorável criatura humana, meio bonachona, e exímia costureira, esposa do seu Artur e mãe de Chicó, o pai deles;

e o Claudionor, o galanteador e conquistador – que até impingia em nós, os comuns, um quê de inveja –, cujo donjuanismo se alimentava e se nutria do incondicional desvelo materno, e o Claudemir, ainda sem idade para alguns tipos de aventura, embora se propusesse a voos mais arriscados, os filhos de dona Eunides, cuja generosidade mantinha abertas as portas da casa e do coração para o acolhimento – sempre festeiro, bagunceiro e barulhento – dos amigos dos seus maiores benquereres.

Eu, filho também de dona Núbia, que corajosamente aceitou o desafio de recuperar projetos de vida à deriva, não apenas conseguindo o atingimento da meta, mas incorporando-os aos seus próprios projetos, às suas saudáveis projeções da própria vida, a quem agradecida e respeitosamente chamávamos de “madrinha”:

“Uma outra mãe eu tive – e tive sim! – a recompor a minha vida insólita,

A reestruturar meus projetos, a encaminhar-me por seguras trilhas,

A reordenar meus quereres e fazer ressurgir o que de bom eu tinha…”;

e o Sabará (Antônio Vieira), ponta direita insinuante, parceiro das pescarias de anzol, com isca de minhoca, nos poços formados no curto percurso do riacho que cortava o verde vale do seu Juarez, barbeiro de profissão, ou nas reentrâncias do rio Aracoiaba, em especial nas terras do Zé Paulino, o Boque, por causa do bananeiral, rica fonte de alimento para moleques em plena ação; e das caçadas de baladeira (estilingue) que iam das matas das encostas dos morros até as áreas menos acidentadas do Coió ou Mucunã; e, mais ainda, das tardes de paquera, sob a sombra do benjamin (fícus benjamina) à frente da casa dos Cândidos – o seu Raimundo, vendedor de sonhos, suspiros, bolinhos e doces, e suas duas irmãs solteironas –, quando, entre tragadas de cigarro de má qualidade, flertávamos, a uma boa distância, com aquelas que jamais passaram de namoradas dos sonhos – Elizabeth, cabelos encaracolados e postura de mulher, apesar da pouca idade, para ele; Elizete, cabelos lisos, longos e alourados, os olhos verdes e o sorriso encantador, para mim. Não desenhávamos no tronco da árvore, a estilete que lhe ferisse a casca e lhe derramasse a seiva leitosa e pegajosa, corações cortados ao meio por flechas disparadas do arco persuasivo do Cupido, mas escrevíamos à caneta esferográfica de tinta azul os nomes das “amadas” em palitos de fósforo. Amor e arte. Sabará era filho de dona Zefinha, mãe também de Aluísio, ponta esquerda ágil e veloz, o mais perfeito desempenho em cordas – violão ou cavaquinho – que tive o prazer de conhecer e de cujos acordes me embevecer, mormente se se fazia acompanhar da voz incomparável da jovem Erbênia (“De quem eu gosto, nem as paredes confesso” ou “Ai, Mouraria, dos rouxinóis nos beirais, dos vestidos cor-de-rosa, dos pregões tradicionais”), uma das filhas mais velhas de dona Miroca, a mãe de Américo, colega de ginásio, e de Clóvis e Tantã (Ubiratã), que pouco participavam das nossas aventuras cotidianas porque, para ajudar os pais, vendiam doce japonês e pirulitos, de fabricação caseira;

e o Louro, o Aldemir, com quem conversávamos sobre amenidades, atualidades e futebol, o jeito sempre tranquilo de ser, o olhar desconfiado e o sorriso breve e comedido, que pouco se incomodava com o que quer que fosse, filho de dona Nazaré, mulher do seu Holanda que, sempre de pijama e bem acomodado em rede armada no canto oposto ao da porta de acesso à ampla sala de estar, paciente e generosamente nos recebia, ao final das tardes, para os seriados da TV Ceará – Billy the Kid, Durango Kid ou A deusa de Joba, por exemplo –, ela prendas do lar e mãe zelosa e vigilante de uma vasta prole, acho que seis belas e morenas mulheres e quatro homens;

e o Tico, moleque franzino, bom de bola, de muitas ocupações – dessas que os garotos de hoje são legalmente proibidos de assumir –, filho de dona Elisa, mulher do seu Mário, magarefe, semblante que denotava sofrimento pelas cotidianas agruras da vida (não poucas!) e firme disposição para enfrentá-las, embora deixasse transparecer uma enganosa frágil compleição física;

e o Cizô, parceiro de peladas, goleiro destemido, disposto – não levava desaforo pra casa – filho da dona Maria do Atum, trabalhador braçal da equipe de conservação da via férrea.

Eu, a quem o Destino impôs, num interlúdio da infância, a desventura de um náufrago desprovido de perspectivas, de horizontes, embriagado pelos desacertos dos descaminhos desconsertadamente palmilhados, sob o risco constante e impiedoso de pôr a perder tudo o que houvera até ali erigido sobre indestrutíveis pilastras – ensinamento e encaminhamento – e vigorosos alicerces maternos, dos destroços me reconstruiu o sobejar da prodigalidade do amor materno:

“Duas formas distintas de amor maternal, ambas intensas e benditas!

Ambas divinas! Com generosidade, elas operaram em mim maravilhas:

A que me gerou e criou: MAMÃE! Outra que me recriou: MADRINHA!”;

e o Delano, amizade especial, de respeito mútuo – e reverência também –, marcada pela timidez que nele operava bem mais, que lhe impunha um estilo reservado e que lhe causava retraimentos e afastamentos dos grupinhos de brincadeiras, de jogos lúdicos e de pequenas aventuras, com história de vida que muito se identificava com a minha, notadamente no quesito “orfandade precoce”, irmão de Janete, uma outra Eliane, minha irmã, na graciosidade, no encantamento, no despojamento, na disponibilidade de pôr em ordem as coisas do lar e da família, eles, os filhos mais velhos de dona Cosminha;

e o Assis Lopes, também colega de ginásio, conservador e conversador, defensor infatigável do samba, às vezes até cantava algumas pérolas do cancioneiro popular sob os maviosos acordes do violão de um artista nato, crítico ferrenho das letras e versões e modos de vestir, de dançar, de expressar-se do pessoal da Jovem Guarda, filho de dona Margarida, católica fervorosa e mãe exemplar;

e o Vicentinho, vascaíno de quatro costados, virtuoso e pragmático, artífice de múltiplas competências – pedreiro, acordeonista, treinador de futebol, apenas para citar três –, deixava-me ler as suas Revistas do Esporte, adquiridas com dificuldade porque editadas no Rio de Janeiro, um dos filhos mais velhos de dona Lourdes, amiga, ouvinte atenta e conselheira-mor de minha mãe, mais um respeitável exemplo de realização materna e de zelo e dedicação no processo de formação e encaminhamento das suas crias, entre elas Ednilza, minha eterna enfermeira, e José, que veio a se casar com Albaniza, uma das filhas de dona Nazaré;

e o Caxangá, o Antônio Filho, com quem gostava de disputar jogos de botão, no piso de cimento da entrada de sua casa, cuja frente, guarnecida por frondoso pé de castanhola, dava para a pracinha do bairro, e com quem formei, por algum tempo, a ala esquerda do Putiú Atlético Clube – ele, ponta esquerda habilidoso e de chute fenomenal; eu, lateral esquerdo de muito fôlego e habilidade limitada –, filho de dona Lúcia, mãe de Marileide, a minha eterna parceira, avó de Marylia Luciana e Juliana, e bisavó de Anna Júlya e Marília, João Emanuel e André Júlyo.

Para os filhos, a MÃE deve ser divina, sagrada, abençoada, graciosa, adorável, respeitável, venerável. E muito mais.

Post scriptum: “Quando a mulher está para dar à luz, sofre porque veio a sua hora. Mas, depois que deu à luz a criança, já não se lembra da aflição, por causa da alegria que sente de haver nascido um homem no mundo.” [João 16, 21].

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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