Operação Carne Fraca: compartilhando dúvidas a partir do primeiro noticiário, por Capablanca

A carne é mesmo fraca. A tentação é mesmo forte. Também são fortes a polícia, a imprensa e o dinheiro. Fracos somos nós por confiarmos na máquina pública de fiscalização e controle. Com essa operação da Polícia Federal contra a Brasil Foods, fiquei com a sensação de que estamos vulneráveis. E sem saída.

A Brasil Foods até muito pouco tempo era uma empresa exemplar. Toda a imprensa destacava a expansão e as conquistas da companhia. Seus dirigentes eram festejados e davam receitas de sucesso em rádio, televisão, jornal e livro. Os produtos da firma eram vendidos e consumidos nos quatro cantos do mundo, passando por controles que eu supunha tão bons quantos os nossos na Europa rica, na Ásia bem sucedida, na América rica, no Oriente Médio endinheirado pelos petrodólares. Bem, eu ouvi no rádio e vi na televisão: os brasileiros podem ficar tranquilos, a nossa ração de salmonela está em níveis adequados; a Polícia Federal está protegendo os estrangeiros, pois os produtos de exportação é que estão saindo com salmonela em excesso.

Ainda bem que os gringos têm a nossa Polícia Federal para protegê-los, coitados. Ainda bem.

As cotações das ações da empresa na Bolsa despencaram mais de quinze por cento num dia só. Mas, parece que o mercado “antecipou” ou “precificou” o problema, porque eu li que nas duas semanas anteriores a queda já alcançava quase vinte e cinco por cento. A Bolsa também se supera, né? O mercado antecipa tudo.

Com a operação da Polícia e a queda da Bolsa, sem falar na prisão de funcionários e dirigentes da companhia, a coisa vai ficar preta. Pode-se dizer que a empresa já começou a pagar sua pena, antes, bem antes, de sua condenação. Antes mesmo de sua acusação formal, parece. São os novos tempos: agora primeiro prende e divulga, depois é que investiga, acusa e julga.

Não conheço a história da Brasil Foods, não tenho ações da companhia, não sou cliente relevante (embora coma muito frango congelado comprado em supermercado), mas não deve ter sido fácil chegar onde ela chegou. Fico a pensar se, por se tratar de uma empresa com história e tradição, com muitas unidades e muitos empregos, geradora de muitos impostos e divisas de exportações, por estar o país e a economia em momento de tanta fragilidade, se não seria mais indicado agir com prudência e discrição, sem perder a firmeza, claro.

Eu queria mesmo era compartilhar minhas dúvidas: será que a gente pode comer com tranquilidade as outras coisas que estão à venda nos supermercados? Será que o mercado e a Bolsa conseguem mesmo antecipar até fatos policiais secretos? Será que isso não deveria ter sido feito de outro jeito? Será que essa empresa tem conexões com aquele partido? Ou o que lhe falta são as conexões com aquele outro partido?

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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