O vazio das ruas, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Os anos 1960 no Brasil esbanjaram enorme riqueza no campo da produção cultural e artística. Entre as muitas políticas e ações de Estado e da Sociedade Civil, evidenciaram-se os festivais de canção promovidos pelos canais de televisão que iniciavam sua caminhada, destacando-se entre estes os da Record.

Em 1966 a canção vencedora foi Disparada, composta pelo paraibano Geraldo Vandré e Théo de Barros, dividindo o primeiro lugar com A Banda, de Chico Buarque de Hollanda. Em Disparada, Vandré utiliza a linguagem poética para estabelecer uma comparação entre a exploração dos pobres com a exploração do gado, denunciando a opressão pela qual as populações rurais brasileiras eram submetidas diuturnamente. Um dos versos magistrais da canção diz assim: Aprendi a dizer não.

Dizer não, um aprendizado.

Étienne de la Boétie, filósofo francês, 1530 – 1563, afirmava que a servidão voluntária expressava o desejo de servir os superiores para ser servido pelos inferiores. É uma teia de relações de força que percorrem verticalmente as sociedades sob a forma de mando e obediência. Como Vandré, La Boétie saca do seu pensamento a seguinte percepção para romper com essa cadeia: não é preciso tirar coisa alguma do dominador, basta não lhe dar o que ele pede; basta dizer-lhe não.

Dizer não, um ato de liberdade.

A filósofa brasileira Marilena Chauí também apresenta uma reflexão muito importante sobre o tema. No seguimento de Espinosa, para ela, a liberdade não é uma escolha entre vários possíveis, mas a fortaleza de ânimo para não ser determinado por forças externas e potência interior para determinar-se a si mesmo.

Dizer não, um ato de autonomia.

As forças midiáticas brasileiras estiveram conduzindo desde 2013 a estratégia de manipulação da opinião pública para a consolidação do Golpe em 2016, contra soberania popular, conduzindo para as ruas e avenidas das cidades brasileiras milhares de pessoas que, apesar de não terem tido acesso direto aos documentos e aos fatos, muitos deles editados pela mídia, manifestavam-se com ardor pela retirada da presidente eleita, sem nem mesmo saber as razões reais e se as razões apresentadas pela mídia seriam legítimas, legais e necessárias para um possível impeachment. Foi a mídia hegemônica nacional, televisiva, radiofônica e escrita, de forma orquestrada, a força externa a conduzir e a manipular a percepção dessas massas.

No dia 02 de agosto de 2017, dia da votação sobre as graves denúncias apresentadas pelo Ministério Público contra Temer, pudemos constatar um fato inusitado que nos provoca o pensamento. Como a mídia hegemônica global nacional não está interessada em eleições diretas e ao mesmo tempo tem se empenhado pela destruição da Política e de Partidos Políticos, em momento algum, desde o Golpe 2016, ela tem desenvolvido formas de reavivar e incentivar a volta das massas às ruas. As razões apresentadas para a queda do presidente Temer são muito maiores e comprometedoras do que as ditas da presidente golpeada. Mas a mídia silenciou sobre as ruas.

Um impasse da democracia brasileira precisa ser superado imediatamente: a urgente democratização dos meios de comunicação social. Se não formos capazes de exercer nossa liberdade de cidadãos e cidadãs soberanas para dizer não ao oligopólio midiático nacional, e repartirmos o bolo de poder concentrado nas mãos de algumas pouquíssimas famílias, para enfim podermos ter acesso à realidade de forma mais plural e verossímil, continuaremos como o gado cantarolado por Vandré: “porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata”.

É uma questão estrutural que ferra nossa democracia.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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