O VAMPIRO DA PARAÍSO DO TUIUTI, por Eduardo Fontenele

Pessoalmente, não me interesso por Carnaval. Mas reconheço que a festa tem uma importância para a grande maioria da população. Assim como o mestre Nelson Rodrigues, considero que “Toda unanimidade é burra”. Mas se tanta gente prestigia e se interessa pela festa, deve ter algum valor, e não deve apenas ser uma desculpa para passar quatro dias livres das obrigações e das pressões que nos afligem diariamente.

A festa, suponho eu, serve para liberar nossos instintos primitivos, expurgar o animal que temos em nós, como uma forma de desculpar o que a civilização reprimiu em nós e continua a reprimir pelo resto do ano. Como uma catarse. Na franquia de filmes de terror Uma Noite de Crime, criada pelo diretor e roteirista James DeMonaco, há uma data do calendário em que todos podem cometer as maiores atrocidades sem culpa nem punição. Nós temos uma data do ano onde podemos ser nós mesmos e expor todas as nossas baixezas sem comprometer nossa reputação e nossa imagem perante a sociedade.

A edição deste ano da festa pagã mais importante do calendário nacional teve um elemento que atraiu minha atenção, que foi o achincalhamento do excelentíssimo senhor presidente da República Michel Temer em nível nacional pela escola de samba do Rio de Janeiro, Paraíso do Tuiuti.

O Vampiro-Presidente Neoliberalista, da escola de samba, foi a sátira mais divertida, inteligente e criativa que surgiu nos últimos anos na mídia brasileira. O personagem faz referência ao Drácula em inúmeros filmes de terror da produtora inglesa Hammer Film Productions. O personagem foi imortalizado nas décadas de 50 a 70 pelo ator britânico Christopher Lee, falecido em 2015, que serviu de base para a crítica da escola de samba.

O vampiro da escola de samba foi vivido pelo professor de história Leonardo Morais, de 40 anos, que, cansado das falcatruas da política brasileira, revelou estar de partida para a Itália para fazer cursos e passar algum tempo por lá. Sobre o personagem, Morais deu essa declaração ao G1: “A gente está tentando o tempo inteiro desvincular de partido político. O próprio vampiro é um vampiro que tem uma faixa presidencial, mas ele representa um sistema”.

O personagem possui uma faixa presidencial para não deixar margem a dúvidas sobre de quem se trata e notas de dólares presas às costas da fantasia. Ele foi o destaque do último carro alegórico a se apresentar na madrugada da segunda-feira, dia 12. O carro do vampiro foi batizado de “Neo tumbeiro”. Tumbeiros eram os navios de pequeno porte que faziam o transporte de escravos da África até o Brasil na época da colonização. Muitos escravos morriam durante o trajeto devido aos maus tratos, por isso os barcos recebiam este nome relativo a tumba.

A Paraíso do Tuiuti entrou no sambódromo com o enredo: “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”. Enredo criado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos. A Tuiuti teve em sua composição críticas ao racismo, que mantém a população negra em condição de inferioridade, de extrema pobreza e ignorância; também à direita elitizada e pseudointelectual, que apoiou o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff; e à Reforma Trabalhista feita pelo governo Temer, que retirou direitos dos trabalhadores brasileiros e favoreceu os empresários.

A alegoria retratou a direita golpista brasileira como “manifestantes fantoche”. Foram alvo de deboche da escola de samba os que, manipulados pela grande mídia, foram às ruas em 2016 usando camisas verde-amarelas, se dizendo patriotas e a favor do Brasil. Patriotas que, em alguns casos, nem ao menos sabiam contra o que estavam protestando, dizendo bobagens quando eram entrevistados pelos meios de comunicação.

O vampiro foi destaque em grandes jornais estrangeiros, tamanha foi a repercussão do personagem, até o americano The New York Times noticiou a apresentação da escola de São Cristóvão. Apesar de toda essa súbita atenção despertada por seu enredo, a escola terminou em segundo lugar entre os jurados do desfile. O que já é uma grande vitória, depois do ano passado, onde um acidente deixou 20 feridos e uma pessoa morta quando um dos carros alegóricos da Tuiuti perdeu o controle na concentração.

Para concluir, uma última informação, durante o desfile das escolas campeãs do Carnaval do Rio, a Tuiuti sofreu censura governamental, foi impedida de exibir a faixa presidencial do personagem mais célebre da agremiação. Revivendo a postura do governo brasileiro na época de outro golpe, o de 64.

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele formou-se em jornalismo pela Devry Fanor em 2016, publicou o livro de contos Abstrações em 2017 e é administrador dos blogs Drops de Filmes e Pensando desde 1978.

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