O SOL HÁ DE BRILHAR MAIS UMA VEZ…por Rafael Silva

O invisível é parte constitutiva do visível. É o conteúdo inexplicável que precisa da dimensão da fé. A grande aposta tomada pela vida que faz do apostador um vitorioso, de partida. Este que cre no invisível e se alimenta da esperança se distancia daquele que já perdeu, porque não apostou. Por isso, levanta-se com a certeza que o sol também o fará. Em nenhum outro momento do ano é tão propício falar de esperança como na Páscoa, que significa literalmente passagem. Há pouco mais de 2 mil anos, estando entre dois dos maiores poderes de sua época (o Estado e a Igreja), um homem sacralizava a própria vida para restabelecer o elo perdido da Páscoa com a humanidade que havia sido calcificado pelo moralismo do seu tempo. As escolhas desse jovem tornaram-no presa fácil nas mãos dos doutores da lei. Não faltou nos corredores dos palácios e templos, soberanos a tecer remendos à realidade até forjar ambiente que justificasse um prisioneiro político. O rito foi dando-se em acusações supostamente “legais”, para no fim legitimar a tortura seguida de morte e ainda lançar perseguição sobre todos que teimavam na aposta da fé.

Mas o ódio não consegue matar a semente. O KHRISTÓS, ou seja, o urgido na realidade estabeleceu uma nova relação histórica com a sociedade. Muito afeiçoada àquilo que Jesus identificou. Mas calma! Não se trata aqui, de duas pessoas, mas de duas formas de ver a vida. Uma coisa é o Jesus na sua dimensão humana, outra é o Cristo em sua totalidade – o Messias enviado para mudar definitivamente a história. Esse urgido quis ser identificado com o rosto do pobre. Como eu disse noutro texto “pela primeira vez foi preciso olhar para baixo para vê-lo” indicando que precisávamos de outra relação divinal. (Ver o artigo “O Deus que se deixa tropeçar” publicado neste site)

Ao seu lado reservou lugar especial para receber o pobre, se fazendo o próprio pobre. Cercou-se de pessoas que pudessem incorporar e encarnar a revolução necessária. Isso porque só o pobre pode compreender tal dinâmica, pois o rico, por razões óbvias não precisa de mudança radical. Por isso, seus principais aliados traziam consigo uma luta enraizada na opressão que cada um suportava – o pescador, depois o pastor, em seguida, a mulher. Os pobres de Nazaré, da Galileia, de Madalena e de tantos outros locais puderam encontrar-se. Onde? No lugar da esperança, estabelecido longe das doutrinas e dos dogmas. Fora das predigas e do alcance das leis. A esperança que contaminara as ruas, as praças e as comunidades. A categoria do pobre que Cristo abraçava não significa a antítese da riqueza, mas o contrário da injustiça. Portanto, a questão material não era o centro, o dinheiro, a posse, nada disso: “o que é de Cesar, dê a Cesar”. Assim, sua força confluía para estabelecer uma nova agenda social cuja principal gramática se dava em torno da justiça.

O grande perigo daquela Páscoa foi gritar por justiça aos pobres, aos oprimidos. Justiça à mulher estigmatizada. Justiça ao pescador violado. Justiça ao criador roubado pelos romanos. Em última instância, um grito contra a opressão daquele modelo societal que já antecipava 17 séculos o pensamento de Pascal “o excesso de verdade é pior do que o erro”. A verdade imperial que calcificava a Páscoa do oprimido.

Recorro a L. Boff ao sentenciar que “a libertação nasce da lasqueira da vida”. Aqui está a chave para a nossa Páscoa. Entender a esperança como instrumento de ligação entre os pequenos. Entre os oprimidos. Isso é revelador quando imaginamos a composição num cenário inóspito, em que quase nada poderia mudar – num ambiente hostil, hierarquizado pelos conchavos dos poderosos, onde prevalecia o reino da riqueza e da soberba.

Não há somente semelhança com as sociedades da época de Jesus e a atual. Existe um enredo vacilante ao reeditar erros históricos perpetrados por atrasos, que parece nos levar de volta ao passado. Calcificamos a esperança novamente. Mandamos soldados aos morros quando deveríamos enviar médicos e professores. A juventude é exterminada com a guerra às drogas que engana e mata. Vivemos um cenário semelhante àquela Páscoa. Ainda hoje, solta-se o malfeitor e prende-se o justo. Julga-o em audiências combinadas eivadas de sentenças panfletárias. Depois de inflamar a população com notícias tendenciosas, com o ar de neutralidade, esperamos que decida entre este ou aquele. Novamente, naturaliza-se o roubo, a rapina, produzida pela sensação de impunidade. Assistimos ao jogo de articulações que levam grandes empresários e governantes a lambuzarem-se da coisa pública. A zombarem do povo sem nenhuma cerimônia. Alguns líderes envergonham a esperança e ajeitam-se ao palácio. A mídia mistura poder e ódio anuviando a realidade ao ponto de tornar o povo inerte frente às tramas palacianas. Vivemos a ditadura do judiciário, resgatada no puritanismo de lavar as mãos. A corrupção parece ser a lei mais forte.

A cruz ganha mais sentido quando vazia. Aí, verdadeiramente somos chamados à liberdade pela esperança renovada a cada Páscoa. Por isso eu me apego à pureza do poeta1 ao profetizar que “O Sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações. Do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente (…)”. Nossa esperança é que a vida vença a morte. Um novo mundo se estabeleça com a passagem verdadeira para outro patamar de humanidade, em que o oprimido construa a nova comunhão ecológica (em todas as dimensões) com o divino. Os injustiçados vençam a morte da desesperança, não se deixem escravizar. Desejo que a semente do mal seja destruída. O invisível, aquele mistério que está do outro lado da passagem, seja afetivamente estabelecido aqui, ainda neste mundo, para que possamos a um só coro desejar e viver uma feliz Páscoa.

Por Rafael dos Santos da Silva

Universidade Federal do Ceará

Professor

1 Nelson Cavaquinho. Autor de Juízo Final, gravada em 1973.

Rafael Silva

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

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