O SADISMO BRASILEIRO, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Em tempo de exceção, no qual se roubou a caminhada democrática de um povo, impõe-se a releitura de seus intérpretes mais excelsos – seus demiurgos – com o escopo de se buscar entender razões que levaram o grupo elitista nacional a querer impor ao restante dos cidadãos seus caprichos e privilégios, perpetrando um Golpe político por meio da dominação simbólica, econômica e institucional, rasgando o pacto social de uma nação celebrado em sua Carta Magna.

Entre nós brasileiros, de tantos intérpretes de nossa caminhada civilizacional, destaca-se o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre com sua obra magistral Casa-Grande e Senzala.

Sobre o livro, o poeta Carlos Drummond de Andrade grafou: “a casa grande; a senzala; inda os remorsos mais vivos, tudo ressurge e me fala, grande Gilberto, em teus livros”. E o não menor João Cabral de Melo Neto reforça: “ninguém escreveu em português no brasileiro de sua língua: esse à vontade que é o da rede, dos alpendres, da alma mestiça, medindo sua prosa de sesta, ou prosa de que se espreguiça”. São muitos, grandes e pequeninos, rasos e profundos, os objetos descobertos pelo sociólogo nessa sua arqueologia da história da sociedade patriarcal brasileira. Uma mina! Uma raridade!

Nessa minha viagem por tão vasto material, retornei ao terminal 113, no qual o mestre nos fala do sadismo dos donos da Casa Grande e de seus herdeiros. Documenta a existência de “uma espécie de sadismo do branco nas relações sexuais como nas sociais do europeu com as mulheres de raças submetidas ao seu domínio. O furor femeeiro do português se terá exercido sobre vítimas nem sempre confraternizantes no gozo”.

Freyre vai mais além nessa sua descoberta ao relatar que os meninos brancos, através da submissão do “moleque”, “o escravinho companheiro nas brincadeiras e expressivamente chamado de leva-pancadas”, violentavam essas crianças escravizadas para iniciarem-se em suas satisfações sexuais infanto-juvenis.

Como consequência o sociólogo pernambucano destaca que nesse período sobre os filhos das famílias escravocratas brasileiras agiam influências sociais, “pela sua condição de senhores de escravos e animais dóceis”, induzindo-os à BESTIALIDADE e ao SADISMO. Alimentando nos adolescentes e jovens “o gosto de mandar dar surra, de mandar arrancar os dentes dos negros, de mandar brigarem em sua presença capoeiras”. E quando homens feitos desenvolviam o gosto pelo mando sádico no exercício de diversas funções de posição elevada, como no caso dos bacharéis ou em funções políticas e da administração pública, ou simplesmente o puro gosto pelo mando de todo brasileiro nascido em casa-grande de engenho.

No dia 12 de junho de 2014, uma quinta-feira, num estádio lotado com 66 mil pessoas, o Brasil era palco da abertura da 20ª. Copa do Mundo de Futebol, com transmissão pela televisão para todo o planeta. E do Camarote Vip do estádio, no qual estavam personalidades midiáticas globais, convidadas e sem pagar nada pelo ingresso, como Luciano Huck e outras, iniciou-se publicamente o sadismo midiático orquestrado dos atuais senhores e senhoras da Casa-Grande a conduzir um grito opressivo contra a mulher brasileira, presidenta do Brasil: “Ei, Dilma, vai tomar no cu!”. Uma presidenta filiada ao Partido dos Trabalhadores, cujo programa político partidário o legitimou por meio de eleições diretas a quatro mandatos consecutivos à frente do governo federal, desenvolvendo políticas distributivas de renda, possibilitando pela primeira vez na história do Brasil um amplo e vasto processo de inclusão dos e das descendentes dos escravos no mercado de trabalho, nas universidades, na direção de empresas, na produção de alimentos, na elevação do salário mínimo, no desenvolvimento de políticas públicas afirmativas.

Esse coro bestial, como diria Gilberto Freyre, exposto para o mundo inteiro, foi o ápice do horror brasileiro que fez alavancar um movimento de ódio midiático, típico de regimes escravocratas e fascistas, desaguando no Golpe de 2016, conduzido pelos mais diversos atores da cena pública e institucional brasileira.

Revisitar Freyre me perece ser muito importante, porque somente podemos curar o mal se tivermos a consciência profunda de sua existência e de sua origem. O Golpe não acontece por acaso. Ele está dentro de nós, brasileiros e brasileiras. Cabe a nós, portanto, extirpá-lo de nosso interior, de nossa alma, imediatamente, porque somente assim teremos condições de recitar verdadeiramente a poesia freyreana: “eu vejo as cores, eu sinto os passos de outro Brasil que vem aí, mais tropical, mais fraternal, mais brasileiro”.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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