O Sacrifício do Cervo Sagrado: E a intrigante máxima do inexplicável

O estranhamento é uma das principais marcas do atual cinema contemporâneo. Esse traço, entretanto, nada tem a ver com o fato de as obras dos realizadores em questão serem esquisitas ou incompreensíveis, em seu sentido lato. O “estranhar”, nesse caso, advém muito mais da condição e modos como esse cinema se coloca para o espectador e o mundo subsequentemente. Partindo dessas premissas é que o diretor grego Yorgos Lanthimos criou o curiosíssimo “O Sacrifício do Cervo Sagrado”* (2017).

No filme, acompanhamos os dias do conceituado cardiologista Steven Murphy (Colin Farrell)e sua relação com o adolescente Martin (Barry Keoghan).  Aos poucos, o jovem se aproxima da família de Steven, formada pelos filhos Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic), e esse encontro desencadeia uma série de estranhos acontecimentos que transitam pela gradual perda da saúde física e mental dos Murphy.

Dito isso, é importante salientar que, na quarta parceria em longas metragens entre Lanthimos e o roteirista Efthymis Filippou, os realizadores trabalharam novamente em consonância para a construção de um sólido enredo acerca da natureza do exercício fílmico. Apesar desta parecer uma perspectiva unilateral, ela na verdade, revela toda uma gama de camadas que poderosamente o cinema contemporâneo consegue tabular.

Inicialmente, podemos olhar para “O Sacrifício…” pela lente do estranhamento. Essa percepção, entretanto, nos parece vir exatamente em função das tais camadas que citamos anteriormente. Ou seja, a impressão que nos fica é a de que Lanthimos deseja em maior grau é não limitar nossa interação com a obra. E sim, expandi-la. Ele nos dá uma estória de atmosfera anti naturalista que é elaborada e desenvolvida em um escopo naturalista.

E então, retornamos ao essencial conceito do estranhamento que tão bem se nota ao longo da obra de Lanthimos, mas não somente na dele, como também na do cinema contemporâneo, em sua maior parte. Esse gatilho, ou dispositivo, é acima de tudo, uma decisão consciente que o realizador toma à revelia do que a audiência venha a pensar. É parte do processo, e o autor a assume com vigor e sem hesitação. Por isso que em nossa percepção enquanto espectadores, todos os personagens principais da trama nos sejam tão opacos, impenetráveis, quase inalcançáveis. Esse é o desafio.

Em “O Sacrifício do Cervo Sagrado” temos uma estória de atmosfera anti naturalista que é elaborada e desenvolvida em um escopo naturalista.

Esse é o incômodo da cinematografia contemporânea. E desse modo é que ela se afirma em um atual universo tão diverso e complexo. Onde as obras possuem cada vez mais nuances e tons distintos, mesmo entre gêneros. O inexplicável, por essa razão, surge no filme como mais uma dobra interpretativa. Afinal, o realizador precisa mesmo tudo explicar? E nós, enquanto parcela espectatorial, precisamos ao filme sempre desvendar? Essas são questões que precisamos refletir, abertamente.

Na figura do criador, Lanthimos decide não explicar. Mas sim, estimular nosso olhar por meio da apreciação. Ele não acredita no “realismo” do cinema. Porque se tudo nele é uma construção, a representação pode assumir outros tons. Daí essa letargia que toma conta dessas personagens, catalisadas principalmente na construção da figura de Martin. Ele é a representação do mal. Mas não apenas isso. Ele também é a dubiedade naquilo o que a inocência da juventude pode vir a significar.

Essa é a bidimensionalidade desses caracteres. E igualmente é a fonte que assegura a sobriedade do filme. Na sua posição de não tentar modular nossa interpretação por meio de um só prisma. O seu trato com a obra é muito exata e segue essa premissa dual em termos de forma e sentido. O design de produção é todo desenvolvido e pensado na concepção de ambientes limpíssimos, quase assépticos.

O que opera em complementaridade com a elaborada construção dos planos e enquadramentos do filme. E para cada frame, há uma forte composição imagética, primorosamente estilizada numa sincronia irrepreensível entre o trabalho da direção de arte (vestuário e objetos de cena) e da fotografia, que revela a obra por meio das imagens. É sempre uma concepção de duas mãos.

Há o sublime revelado por meio da técnica, onde vemos os atores numa deriva pelas ruas seguidos por uma câmera lenta poderosíssima. E há uma inserção de elementos que revelam e nos dizem um pouco mais sobre a natureza dessas personagens. Que culmina na sequência onde a filha de Steve, Kim, canta “Burn” da cantora pop Ellie Goulding. É a única faixa musical que aparece no filme, que é todo composto por uma trilha sonora original.

E por que isso? Porque essa é uma canção que faz parte do imaginário de Kim, e apesar de ser uma canção que certamente não entraria como trilha consciente em um filme de Lathimos, ganha espaço em “O Sacrifício…”, por nos ajudar a compreender um pouco mais da natureza da personagem. Esses são os códigos secretos que o cinema contemporâneo nos exige em termos de compreensão.

Aqui, estamos diante do filme como uma descida aos terrenos do inexplicável. Dos caminhos que nos levam às reflexões sobre o niilismo em forma e sentido fílmicos. É o mal estar que retoma um diálogo metalinguístico entre tudo o que a obra como um realizador como Michael Haneke nos diz.

Aqui, estamos diante do filme como uma descida aos terrenos do inexplicável. Dos caminhos que nos levam às reflexões sobre o niilismo em forma e sentido fílmicos.

O momento alfa de “O Sacrifício do Cervo Sagrado” e seu consequente clímax, é uma prova clara disso. É a escolha e todas as consequências que ela traz consigo. E isso é algo que tem um poder incomensurável, que alimenta as obras e as discussões acerca de tudo o que o cinema contemporâneo representa hoje.

Por isso, antes de vaiá-lo ou refutá-lo por aquilo o que ele não conseguimos ver, precisamos sim, contemplá-lo em um esforço de criar sentido por meio de tudo o que ele não nos mostra. Por meio de toda riqueza que geralmente está nas entrelinhas daquilo o que não é dito, mas está ali pulsando potencialmente em tudo o que o filme é. E que espera que nós, no alto da nossa posição espectatorial, consiga apreender.

 

*O filme tem previsão de estreia em fevereiro de 2018, no Brasil.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Killing of a Sacred Deer

Tempo de Duração: 121 minutos

Ano de Lançamento (Reino Unido): 2017

Gênero:  Drama, Terror, Thriller

Direção: Yorgos Lanthimos

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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