O Ritual dos Sádicos: E a dialética do terror no cinema, por Daniel Araújo

O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte? É o fim da vida. A seguinte fala é uma inscrição de um dos mais icônicos personagens da cinematografia brasileira: Zé do Caixão. Mas, falar dessa figura é antes de tudo rememorar o trabalho do autor. É lembrar o quanto José Mojica Marins se faz um dos mais importantes realizadores na história do cinema brasileiro. E dentre seus trabalhos destacam-se obras como o representativo “O Ritual dos Sádicos” (1970).

Na trama, um psiquiatra realiza experimento com LSD em quatro voluntários, para saber qual a influência da figura de Zé do Caixão sobre eles. Nesse contexto, cada paciente apresenta, portanto, diferentes reações, envolvendo sentimentos de sadismo e diferentes perversões sexuais. O estranhamento é uma vertente de que o longa se apropria e explora enquanto terreno para sua construção narrativa.

Esse traço é uma espécie de elo que liga toda a obra de Mojica desde seus primeiros trabalhos, ainda quando do lançamento de “À Meia-noite Levarei sua Alma” (1964) e “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver” (1967). “O Ritual” se encaixa, por isso, como uma terceira parte da obra do diretor e o encadeamento lógico desses três longas revelam em si a propriedade como ele domina seus trabalhos.

E em termos de cinema, dominar a criação é saber não apenas como evocar o melhor de cada trabalho feito, mas também mesclar as referências de cada filme na arquitetura daquilo o que a obra seguinte se constitui. E aqui, Mojica executa isso com uma precisão extrema, em um exercício de sentido e forma brilhantes. Sentido fílmico, com a alusão filosófica acerca do sentido de nossa vidas e existência.

Em O Ritual dos Sádicos, Mojica faz uma mescla referencial de trabalhos anteriores em um exercício de sentido e forma brilhantes.

Atrás de cada uma dessas estórias e personagens bizarros, entre bestas, sádicos, necromânticos e demônios, havia uma dialética filosófica altamente sofisticada e pertinente que nos incitava um pensamento sobre a nossa condição humana. E, apesar de todo o invólucro do trabalho do diretor residir numa estética mais genérica do filme, em sua forma, seus longas abarcavam camadas muito mais profundas, em termos de representação.

Afinal, o que um longa como “O Ritual” nos instiga é exatamente refletirmos sobre as dimensões do existencialismo em nossa experiência na Terra. Por isso que as questões que Zé do Caixão profere sobre “o que seria a vida?” são tão representativas quando discutimos a natureza e motivações desse personagem. Uma vez que Zé não é apenas uma figura bizarra inserida numa atmosfera de terror e do cinema de gênero.

Nesse caso, o fazer cinematográfico de Mojica pretende uma reflexão que não se direciona em dizer algo sobre o real propriamente dito. Mas sobre aquilo o que está para além da realidade, dos mundos dos pesadelos, das taras e dos misticismos. E o discurso que os filmes do diretor mantêm está na ordem do icônico (e do imaginário). Sua intenção não era atingir diretamente o coração do real, mas tão somente, estimular nosso imaginário para a reflexão que nos transponha desse lugar.

O fazer cinematográfico de Mojica reflete sobre aquilo o que está para além da realidade, dos mundos dos pesadelos, das taras e dos misticismos.

O campo da dialética, logo, é uma das principais assinaturas do realizador. Que em o “Ritual”, opera por meio de dispositivos iminentemente cinematográficos. Um deles é a metalinguagem. Ou seja, da sua capacidade de se referenciar por meio daquilo o que o cinema é em si. E aí vemos como Mojica utiliza muito precisamente referência a trabalhos dos diretores dos primeiros tempos, como Drácula (1931) e realizadores teóricos como o formalista russo Lev Kuleshov (1899-1970).

Falamos, portanto, de um cinema que não é a exploração do bizarro e do estranho. Falamos de algo maior. De um cinema que é técnico (pelo uso tão criativo da montagem e da fotografia) e também dotado de sentido (por entender o cinema como um processo de partilha feito em equipe e pela equipe). Aqui, cabe pontuarmos esse traço que Mojica encarna muito em função de ser um entre tantos realizadores que surgiram na São Paulo dos anos 1970 e criaram uma gramática cinematográfica nacional, como o foi o Movimento da Boca do Lixo.

É falar de um grupo de grandes mestres do fazer fílmico nacional que, unidos pelas dificuldades e vontade de produzir, criaram grandes obras, como Rogério Sganzerla. (Sem Essa Aranha – 1970), Júlio Bressane (Matou a Família e foi ao Cinema-1969) e Carlos Reichenbach (Lilian M: Relatório Confidencial-1975). Juntos, esses e tantos outros diretores chegaram a produzir 160 filmes em um ano. Era a diversidade e o estar criativo que a potência do cinema brasileiro possuiu. Mas, que ainda hoje mantém, em menor escala, obviamente.

O Ritual dos Sádicos, portanto, é um recorte muito singular de Mojica como um homem de cinema. Não como uma figura bizarra das tardes do Cine Trash. Ele é maior, mas muito maior que isso. É um mestre do gênero que soube dar vida ao cinema de terror em um Brasil atado pela Ditadura Militar. É um nome que precisa ser reverenciado e revisitado com mais profundidade e atenção. Porque, como ele mesmo dizia enquanto Zé do Caixão: não interessa quem somos. Mas sim “o que” somos.

FICHA TÉCNICA

Título Original: O Ritual dos Sádicos (O Despertar da Besta)

Tempo de Duração: 93 minutos

Ano de Lançamento (Brasil): 1970

Gênero: Terror, Drama

Direção: José Mojica Marins

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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