O problema de Deus, por Alexandre Aragão de Albuquerque

O Natal está chegando e com ele o pensamento se volta para a ideia que temos de Deus no tempo presente.

Segundo diversos pensadores, o problema rigorosamente filosófico é ético e trata do sofrimento humano. Por que a humanos indefesos são impostos os mais diferentes tipos de opressão natural, política, econômica e social?

Destas inquietações derivam outras tantas. Por exemplo, no campo teológico, se Deus é onisciente, por que não previu e por que permite esses tipos de situação impostos a inocentes? Ou por outro lado, o fenômeno do sofrimento inocente implicaria uma não tão onisciência em Deus?

A compreensão da deidade parece ser fundamental para aqueles crentes do nosso tempo globalizado. Que ideia de Deus é necessária para gerar vínculos sociais fraternos e emancipatórios da espécie humana? Uma humanidade diversificada que corre em busca de seus justos direitos e realizações; uma humanidade aturdida pela concentração econômica em detrimento dos bolsões de miséria e de fome que se alastram mundo afora, relegada ao segundo plano, submetida ao poder financeiro.

Hoje, para muitos dos crentes, Deus é uma relação íntima e pessoal, individualista, não tendo nada a ver com o outro que sofre ao meu lado, que comigo faz a viagem da existência humana. É meu Deus-fiel ao meu sucesso e aos meus propósitos; um Deus que retribui cem vezes mais aos meus dízimos, às minhas doações materiais e aos meus sacrifícios pessoais. É um Deus de relações de troca, do dai e vos será dado.

Mas qual o valor de troca teria no mercado desta divindade a inocência de empobrecidos, escravizados, expatriados, portadores de deficiências naturais? O que pode dar em troca um inocente a não ser a sua inocência e o seu sofrimento?

Neste Natal, num Brasil afetado pela intolerância advinda também de muitos crentes e líderes ditos religiosos, esta pode ser uma oportuna reflexão: pensar o sofrimento humano é, em outras palavras, pensar o problema de Deus. Que Deus é esse em que muitos acreditam firmemente? Quais as suas motivações? Seria capaz esse Deus individualista de acolher o sofrimento inocente do tempo presente? Como?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *