O Príncipe eletrônico, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Diferentemente dos gregos que analisavam a política a partir de um telos, Maquiavel inaugura uma abordagem tentando analisar os meios para se alcançar tais finalidades, ou seja, o poder, discutindo o modo como os principados podem ser conquistados, governados e preservados. Não só constitui um novo objeto de estudo da política, como também cria um método próprio de pesquisa e reflexão a partir da observação prática, uma vez que, para ele, existe uma distância muito grande entre o modo como se vive e o modo como se deveria viver imaginariamente, entre o que se diz e o que se faz.

Para o autor, o poder não é algo revelado, mas algo a se conquistar e a preservar. Ao elucidar os bastidores do Estado de sua época, seu objetivo é o de advertir os homens sobre a responsabilidade que têm diante da condução da vida da coletividade. Ao colocar em luz a prática adotada pelo Príncipe, chama atenção para a força que o poder político possui e da necessidade de os homens conhecerem-no bem para ordená-lo.

O pensador brasileiro Otávio Ianni produziu em 1999 um excelente estudo, intitulado O Príncipe Eletrônico, no qual atualiza a leitura de Maquiavel, procurando elucidar como na época da globalização neoliberal modificam-se de alguma forma radical as condições sob as quais se desenvolvem a teoria e a prática políticas com a chegada da mídia digital que, simultaneamente, subordina, recria, absorve ou simplesmente ultrapassa as outras.

No processo de globalização desenvolvem-se tecnologias eletrônicas, informáticas e cibernéticas que agilizam, intensificam e generalizam as articulações, as integrações, as tensões, os antagonismos, as fragmentações e as mudanças socioculturais e políticas. Esse é o novo palco da política – imenso e complexo – onde as instituições clássicas estão sendo desafiadas a remodelar-se, ou mesmo a serem substituídas, já que outras novas instituições e técnicas da política estão sendo criadas, praticadas e teorizadas, afirma o autor.

Se o Príncipe maquiaveliano é um alguém concreto que busca o poder hegemônico (categoria que Gramsci irá teorizar no século XX), contrariamente o Príncipe eletrônico é uma entidade nebulosa e ativa, presente e invisível, predominante e ubíqua, permeando continuamente todos os níveis da sociedade nos âmbitos local, nacional e mundial. Não é homogêneo nem monolítico. Entretanto, este Príncipe eletrônico expressa principalmente a visão de mundo prevalecente nos blocos de poder predominantes, habitualmente muito bem articulados. A mídia dos blocos de poder apresenta-se como uma potência radicalmente nova, em crescimento exponencial, cujo objetivo é a manipulação continua das consciências.

Neste âmbito destaca-se a televisão que é um veículo de informação e propaganda intenso, presente no cotidiano de indivíduos e coletividades. Não só registra, como interpreta, seleciona, esquece, enfatiza e sataniza o que poderia ser a realidade e o imaginário. Transformando a realidade às vezes em algo fantástico (não é à toa que um programa de domingo se intitula assim), seja em algo escatológico, mas quase sempre virtualizando a realidade em tal escala que o real aparece como forma espúria do virtual. Por isso a cada dia, por exemplo, o telejornalismo nacional se qualifica em técnica e forma, com o objetivo de eliminar a atitude crítica por parte da receptividade pública. Como consequência, o Príncipe eletrônico dos blocos de poder realiza “o milagre” de transformar Mercadoria em Ideologia, Mercado em Democracia, Consumo em Cidadania, operando decisivamente na formação de corações e mentes, em escala global. É a tirania eletrônica do Príncipe, da reificação da vida humana.

O que estamos vivendo no Brasil nos últimos anos, desde 2014, nada mais é do que a aplicação exponencial ipsis litteris deste interessante estudo de Ianni. Coube à mídia hegemônica nacional de forma articulada a tarefa da desconstrução de reputações de personalidades políticas, juntamente com a condenação dos ganhos sociais auferidos a partir do momento em que o Partido dos Trabalhadores (PT) chegou ao executivo federal por meio do voto popular livre e direto. Ao criar este clima de demonização, a mídia possibilitou às classes política, jurídica e econômica conservadoras brasileiras perpetrarem um golpe de estado dissimulado, destituindo a presidente Dilma Rousseff por meio de um processo espúrio no qual não se provou crime algum sobre ela. Destituída a presidente, o grupo que tomou o poder colocou agora em marcha a destruição de todos os ganhos sociais conquistados nesses anos, para solidificar a retomada da ideologia neoliberal no Brasil e no continente sul-americano.

Maquiavel já previa que a hegemonia não se conquista apenas pela coerção, mas conjuntamente com a construção de consensos e consentimentos. Coube ao Príncípe eletrônico midiático a sagaz elaboração deste cenário destruidor de reputações, embevecendo e enraivecendo corações e mentes de seus telespectadores globais com a falácia de que a criação da corrução no Brasil era obra e graça exclusiva do PT. A solução falaciosa indicada pela mídia para acabar com a corrução seria fundamental liquidar com o PT. Mas o que se vê, que é o mais importante para Maquiavel, não é o que a televisão diz. O que se vê é que a corrução está entranhada na estrutura de poder brasileiro na qual historicamente PMDB, PSDB, DEM e outros são os partidos que estão por trás da sua orquestração e dela se beneficiam.

A pergunta que emerge: até quando a sociedade brasileira, com suas instituições democráticas, aguentará estar submetida a este tipo de poder autoritário eletrônico? Pois, sem uma mudança profunda que democratize de fato os meios de comunicação no Brasil, jamais conseguiremos construir uma democracia plena, madura e estável. Isto é tarefa de um povo inteiro que tenha autoestima e busque construir o seu próprio caminho como nação. Conseguiremos?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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