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O perigo da repetição é um eco insistente

 

“Não procuremos o nosso mal fora de nós:
Ele está mergulhado em nossas entranhas.”
Michel de Montaigne.

“Estamos vivendo um período especialmente marcante.
Descobrimos para nosso espanto, que o progresso se aliou à barbárie.”
Sigmund Freud(Moisés e o monoteísmo)

Instigados pelo tema da autocracia diversos alunos iniciam um curso de curta duração numa escola de ensino médio alemã. O professor responsável pela condução do curso surpreende-se com o número de interessados pelo tema e resolve arriscar um método de aprendizagem inusitado para os padrões vigentes. Após explicar aos alunos no que consiste uma autocracia, o professor indaga se eles consideram possível a repetição de uma ditadura nazista na Alemanha. Indagação rapidamente contestada por todos. Trata-se de uma repetição impossível! O professor propõe, então, o desenvolvimento de uma experiência.

No desenrolar da narrativa observamos, passo a passo, a construção de uma repetição. Há a eleição de um líder – o professor, que impõe regras rigorosas de obediência como condição de participação. Na aula seguinte os alunos o recebem em uníssono bom dia. O professor ordena que eles marchem sincronizados e que usem uniformes, diferenciando-se dos demais alunos da escola. Depois desenvolvem uma logo para fortalecer a identidade, produzem bottons e adesivos, grafitam marcas do grupo – denominado A Onda, nas ruas. Criam uma saudação gestual para cada vez que se encontrarem.

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A partir de então a situação foge do controle e o professor procura dar um fechamento à experiência. No auditório lotado da instituição ele adota algumas medidas de esclarecimento, mostrando que os estudantes estavam contaminados pelo espírito autoritário, incapazes de pensar de maneira autoral e de julgar seus próprios atos. Atordoamento e revolta diante da perda do líder promovem um desaguar com desfecho trágico.

As cenas e provocações do filme A Onda surgiram insistentes em minhas lembranças após as leituras do texto Educação após Auschwitz, de Theodor Adorno. Além da Onda recordei outros textos anteriormente lidos e frutificaram imagens de campos de concentração e extermínio em massa de pessoas. O assombro diante do horror e da insanidade deste episódio histórico ressurge em cada contato documental, mas o que encontra eco mais insistente é a possibilidade sempre latente no texto de Adorno e no filme A onda: de Auschwitz ter repetição.

Existe um “caráter manipulador” nos coletivos que dissolve as identidades individuais. Nesse sentido, a obra Psicologia de Grupo e Análise do Ego, de Sigmund Freud é de crucial importância. Adorno (1997) ilustra este caráter autoritário associando-o aos líderes nazistas, indiferentes aos conteúdos de suas próprias ações, reprodutores mecânicos da lógica do sistema. O estudo de Eichmman realizado por Hannah Arendt é emblemático nesse sentido – o mal é mal banalizado. A descrição de Eichmman é a de um burocrata ordinário, pai de uma família comum, um indivíduo sem qualidades. Poderia ser o vizinho da porta da frente. Para a História seu nome é o de um dos maiores genocidas da humanidade.

Conecto meus pensamentos nos escritos de Primo Levi e os tormentos da memória. Primo Levi esteve na condição de prisioneiro num campo de concentração nazista no complexo de Auschwitz entre os meses de fevereiro de 1944 e janeiro de 1945. Lá fez amizade com Steinlauf, que o exortava a manter os hábitos de higiene e cuidados pessoais. O cenário, por óbvio, não era propício. A água era suja, não existia sabão nem toalhas. Mas o amigo de Primo Levi estava consciente de que era necessário resistir. Diante do tamanho da violência que enfrentavam algum sentido precisava ser dado às suas vidas.

Acerca deste sentido foram inúmeras as vezes que Primo Levi esteve angustiado. Como testemunha da história sentia-se injusto com os que morreram, já que apenas os mortos estariam autorizados a narrar o horror em sua plenitude. Mas os mortos precisam de um lugar, uma terra, um túmulo. Um espaço de não esquecimento, que costumamos chamar de memória.

Uma série de sentimentos acometem os sobreviventes de campos de concentração. Culpa e vergonha por terem sobrevivido à custa de uma série de expedientes que julgam abjetos e indignos de um ser humano. Além de outra vergonha maior, neste caso incomensurável: a vergonha de pertencer à espécie humana.

Testemunhar as práticas de eugenia nazistas e sobreviver à mortificação do eu constituiu-se em projeto de resistência. Os sobreviventes de tal barbárie questionavam se valia a pena narrar tanta miséria, se tinha sentido falar sobre o que o homem chegou a fazer ao homem. O direito de lembrança era também direito de esquecimento. Os relatos de quem perdeu tudo – família, amigos, casa, objetos e dignidade em campos de extermínio são, portanto, narrativas de trauma.

Há tensão no imbricar de memória e esquecimento. Falar, por mais doloroso que seja, pode ajudar a esquecer e, assim, seguir adiante. Após o trauma do campo o testemunho pode agir como uma retomada do eu fragmentado pela violência sofrida. Pela palavra reencontrar os pedaços de si perdidos.

Primo Levi fala dos sonhos que tinha no campo de concentração. Sonhava frequentemente com comida. Em outro sonho ele narrava à família o que vivera, a cama dura, o controle dos piolhos, o soco que recebeu do guarda. No entanto eles pareciam não escutá-lo, pareciam indiferentes. Abandono. Peter PálPelbart interpreta este sonho como uma alegoria do sobrevivente. (SOARES, 2012).

Em 1945 Primo Levi é libertado, pelos russos, do campo de concentração. Volta para casa em Turin, inicia suas memórias sobre Auschwitz, retoma o trabalho como químico. Passa a tecer obras ficcionais. Nelas escrevia também sobre si mesmo na tentativa de se reencontrar. Um caminho de reencontro tecido pela arte, pela criação de vozes literárias que criaram um lugar para os mortos.

Os massacres na guerra na Bósnia levaram a artista Marina Abramovic a clamar por esse lugar emBalkanBaroque. Na Bienal de Veneza de 1997, sentada sobre uma pilha de ossos, a artista sérvia realiza um ritual de purificação, limpando os ossos um a um, retirando a carne e as cartilagens, enquanto canta músicas folclóricas de sua infância. Por esse trabalho Abramovic ganhou o Leão de Ouro na Bienal.

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Imagem: detalhe da performance de Abramovic em BalkanBaroque (1997)

Falando pela voz da História a crueldade é uma marca humana. As mais variadas culturas do passado (e do presente) adotaram (e adotam) sacrifícios, punições severas, torturas, penas de morte e escravidão. Houve (e continua a existir) inúmeras guerras, genocídios e terrorismos. O ser humano tem um lado sombrio, frio, vingativo, sádico e tem também uma tendência a só ver o que quer. Percebendo a vida por fragmentos, este humano não assume responsabilidades sociais. O outro é excluído, não participa de seu seleto mundo.

Impossível não evocar o chamado “projeto político da modernidade”. Ele se constituiu em torno da promessa não cumprida da negação da barbárie e da afirmação da civilização. Nesse sentido, Adorno (1995) já no início do texto evoca Freud alertando para a desesperadora constatação de que a própria civilização produz a barbárie. Já que são irmãs siamesas e como somos fruto do processo civilizatório só nos resta constatar que a barbárie também está em nós.

O psicanalista TheobaldoThomaz (2008) traz um olhar para nossa maldade contemporânea, as imagens da violência que proliferam todos os dias:

Todas as sociedades conheceram-na, mas poucas tiveram essa experiência epidêmica intra-espécie, como a que estamos assistindo hoje. Como a que estamos protagonizando hoje, talvez fosse melhor dizê-lo. Sua visualização sistemática e abusiva possibilitou que fosse também imitada, de forma sem precedentes, o que é um pouco mais grave na escala de valores que eventualmente se possa traçar, uma vez que o comportamento imitativo é traço comum, de proporções alarmantes na alta modernidade, ao mesmo tempo em que absolutamente fundamental para o fazer humano (p. 64/65).

Em diversas situações contemporâneas nota-se que a fronteira entre realidade e fantasia está nitidamente comprometida. Indivíduos infantilizados são levados pela “onda”. É fácil transformar qualquer rede social num tribunal medieval. Falta pouco para o renascer das fogueiras em praça pública. O perigo de repetição de Auschwitz sempre está a nos rondar, principalmente enquanto aguardarmos um líder para resolver os problemas que não conseguimos encarar. O representante da instituição que mandava queimar as pessoas na Idade Média, o papa atual, deu um empurrão: “sejam revolucionários!” O que os jovens compreenderão e qual o manejo farão dessas palavras ainda é uma incógnita. Estamos na caixa de Pandora. Mirando,míopes, um fundo de esperança.

Referências bibliográficas:

ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

SOARES, Geraldo Antônio. Os tormentos da memória: trauma e narrativa nos escritos de Primo Levi. Varia hist. Vol. 28. Belo Horizonte. Jul/dez 2012.

THOMAZ, Theobaldo. A função sinistramente civilizadora da maldade (ou a violência como limite dela mesma). In Breve ensaio sobre a maldade. Rio de Janeiro: Revinter, 2008.

Ana Valeska Maia Magalhães

Ana Valeska Maia Magalhães

Advogada, graduada em Artes Visuais, graduanda em Psicologia, aluna da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza e Mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE. Autora dos livros “Pulsão Irrefreável: arte contemporânea no feminino” e “Tessituras: em contos, crônicas, poesias e imagens”.

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7 comentários

  1. João Eduardo Arraes de Alencar

    Ana,este rico texto nos adverte dos riscos que a humanidade corre. Civilização e barbárie são aspectos do mesmo mundo. A superação deste paradoxo só será possível, entretanto, com inclusão de largas parcelas da população nas estruturas de educação, consumo etc
    Até lá , os riscos são tais como vermos genocidas surgirem lá e cá, em grandes ou pequenas atuações .
    Obras de arte como Guernica e até o Retrato de Adele Bloch, nos lembram e nos ligam aos mais sombrios dias da humanidade.Dias estes tão próximos e, parece, já esquecidos.

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