O ÓDIO NÃO PODE REVERBERAR, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Dia 14 de abril completaram 30 dias do assassinato político da vereadora Marielle Franco. A sociedade brasileira continua mobilizada a exigir a apuração e penalização devidas deste crime hediondo. Digna de nota a iniciativa de cento e sessenta juízes federais ao publicarem um manifesto no qual externam sua total sintonia com o reclamo popular, exigindo a devida condenação dos responsáveis, colocando em relevo as qualidades da pessoa, da cidadã, da militante política Marielle e advertindo para o quanto nós estamos perdendo enquanto nação com o episódio do seu covarde homicídio.

Também neste sábado se passaram oito dias do confinamento, em cela individual sem contato com outros presos, do Presidente Lula. Apesar da aparência de “regalia” por estar isolado num quarto, foi-lhe imposta um tipo de prisão solitária, como lembra o jornalista Elio Gaspari em sua coluna na Folha de São Paulo, semelhante à condição do marechal Philippe Pétain, em 1945, por haver presidido uma ditadura pró-nazista. Absurdo!

Nunca é demais lembrar que Lula é um ex-presidente da República Federativa do Brasil, levado ao poder por duas vezes pelo voto soberano popular. Além disso, foi condenado num processo cheio de contradições, cuja ausência de prova razoável é evidente, conforme atestam diversos juristas, nacionais e internacionais, e está sofrendo um tipo de perseguição orquestrada pela Mídia Opressiva (designação dada pelo ministro Gilmar Mendes à Rede Globo) por meio de uma tática cotidiana de incitar o ódio da classe média contra a sua pessoa e ao seu partido político (PT).

O ódio, como atesta Edgar Morin, é a vontade de praticar o mal. É a expressão doentia do desejo de liquidar com alguém, eliminando-o, não se satisfazendo apenas com uma eliminação pura e simples, mas por meio de uma perseguição obstinada ao odiado para gozar do seu sofrimento o máximo possível até o seu fim. Como lembram textos nazistas, para eles nada dos princípios democráticos de um Estado de Direito deveria estar acima dos seus interesses enquanto “reich”, até mesmo a inviolabilidade da pessoa humana. Para isso era importante desenvolver o ódio ao outro como o sentimento mais nobre e mais sublime.

Elio Gaspari relembra que em 1969, época do AI-5, do endurecimento da ditadura iniciada em 1964, o ex-chefe da Casa Civil do governo João Goulart, o professor Darcy Ribeiro, ficou preso no Batalhão de Comando do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio de Janeiro. Permaneceu detido num quarto espaçoso e iluminado, fazendo suas refeições e assistindo à televisão com os oficiais do batalhão, convivendo com outros presos. Havia um claro respeito à pessoa física e àquilo que Darcy Ribeiro representava no contexto nacional. Donde se conclui que o tratamento dispensado a Lula deixando-o em total isolamento é desumano.

Como refletiu o ministro Gilmar Mendes recentemente em sessão do STF, a gênese do ovo da serpente reside justamente na exacerbação daqueles que se autoproclamam iluminados, com o poder de inferir a outrem absurdos sofrimentos segundo suas convicções, deixando de ser um processo de autoritarismo pessoal para materializar-se em um autoritarismo social e de Estado por meio de reforços de ações midiáticas e institucionais continuadas.

Nunca é demais lembrar que a concepção nazista exigia forte direção e dedicação dos indivíduos à nação entendida como Estado, cuja expressão máxima é a submissão acrítica a autoridade estatal que passa a representar um Sumo-Bem. Esta submissão social reforça o poder autoritário do Estado, apoiando-o em suas ações violadoras dos direitos individuais e garantias constitucionais. Um processo de repressão crescente leva a desenvolver em membros da sociedade o gosto por soluções finais, como as que ocorreram em Auschwitz. A base moral-psicológica do ovo da serpente é a INTOLERÂNCIA com o diferente e seus direitos fundamentais, com a novidade da qual são portadores todos os seres humanos, com a diversidade existencial dos sujeitos pessoais e coletivos.

Oxalá os cento e sessenta juízes continuem com novas ações para barrar o avanço do ovo da serpente no Brasil. Que um número bem maior de novos juízes democratas e republicanos venha a dar robustez substancial a esse grupo nos próximos dias, semanas e meses. É preciso isolar o fascismo com uma forte ação democrática e constitucional, reduzindo, entre outras coisas, o poder nefasto da Mídia Opressiva (afinal são concessões públicas) que destila ódio e chantagens todos os dias pela televisão, segundo seus interesses corporativos. Afinal, como atesta a nota de 13 de abril passado, “o ódio não pode reverberar”.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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