O Novo Imperialismo

“Há de fato uma longa história de governos com problemas internos que buscam livrar-se de suas dificuldades seja por meio de aventuras externas, seja pela fabricação de ameaças externas com vistas a consolidar solidariedades internas. Essa ideia merece séria consideração no caso, pois a condição interna dos Estados Unidos durante 2002 estava em muitos aspectos mais perigosa do que o fora durante anos. A recessão iniciada no começo de 2001 ( e que se acentuou devido ao choque de 11 de setembro) não cedia. O desemprego crescia e era palpável a sensação de insegurança econômica. Os escândalos corporativos se sucediam em cascata e impérios empresariais aparentemente sólidos se dissolviam literalmente da noite para o dia. Erros contábeis (bem como a corrupção pura e simples), bem como brechas na regulamentação estavam desmoralizando Wall Street, e as ações e outros ativos estavam despencando. Os fundos de pensão perderam entre um quarto e um terço de seu valor (quando não evaporaram de vez, como ocorreu com os fundos dos empregados da Enron), e as perspectivas de aposentadoria da classe média sofreram um rude golpe. A assistência médica estava em profunda crise, os superávits dos governos federal, estaduais e locais estavam se evaporando com rapidez e os déficits começaram a aumentar sem cessar. O saldo comercial das operações com a maior nação devedora de todos os tempos. A desigualdade social vinha aumentando havia muito, mas o fetiche da corte de impostos pelo governo parecia voltado claramente para acentuá-la. As proteções ambientais estavam sendo ignoradas, havendo uma profunda relutância em voltar a impor um arcabouço regulatório aos mercados mesmo diante de provas claras do fracasso destes. Para completar, o presidente fora eleito por uma votação de cinco a quatro da Suprema Corte em vez de pelo povo. Às vésperas do 11 de setembro, sua legitimidade era questionada por ao menos metade da população. A única coisa capaz de evitar a aniquilação política dos republicanos era a intensa solidariedade – que beirava o retorno do nacionalismo – criada ao redor dos eventos dessa data e o terror da antraz (que curiosamente ainda não foi resolvido e se viu amplamente esquecido, exceto como uma amostra do tipo de coisa que Saddam estaria bem disposto a infligir). Enquanto o Afeganistão se submeteu rapidamente ao poder norte-americano e (para os americanos) sem derramamento de sangue, Osama não foi encontrado “vivo ou morto” e a guerra ao terrorismo não estava rendendo muito em termos de resultados espetaculares. Que melhor momento, pois, para mudar o foco para o Iraque, na qualidade de um dos principais pilares de um “eixo do mal” que os membros “falcônicos” do governo Bush desejavam atacar militarmente desde o final inconclusivo da Guerra do Golfo? O fato de a tática diversionista ter funcionado, pelo menos a curto praz, é hoje parte da história. O público norte-americano aceitou quase majoritariamente a ideia de que haveria algum tipo de ligação entre a Al Qaeda e o regime de Saddam e de que este último era de qualquer modo um inimigo suficientemente perigoso e maléfico para justificar uma ação militar que o removesse. E, entrementes, os republicanos puderam consolidar o poder político por meio das eleições para o Congresso, e o presidente pôde dissipar a nuvem de ilegitimidade que pairara sobre a sua eleição.” (HARVEY, 2012, p. 20-21).

Rubens Moraes Mendonca

Rubens Moraes Mendonca

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará. Bolsista da Pró-Reitoria De Políticas Estudantis da UECE vinculado ao laboratório Democracia e Globalização.

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