O Lugar de Quem Deriva de Cristo! por Rafel Silva

A justiça é sem dúvidas a insígnia mais elevada que uma sociedade pode alcançar. É o equilíbrio fino entre o poder e o amor. Quem ama não pode ser injusto, aquele que é injusto já abandonou o amor. Porque somente o amor livre, desapegado pode fazer surgir à justa medida. Amós, profeta do antigo testamento, conhecido por sua radicalidade, nos aponta algo nessa direção. Didaticamente, defende que a justiça é o caminho de reconciliação do homem com Deus. A sua mensagem adquire conotação política para denunciar a injustiça social e a opressão da sua época. Dizem alguns exegetas que ninguém pode sair de suas leituras, afirmando que política não é coisa de cristão. Amós foi às últimas consequências da sua tarefa: ao denunciar os poderosos pelas práticas que exploravam social, política e economicamente os pobres.

Na rica tradição africana a representação da justiça é ocupada por Oxóssi. A mitologia grega empresta a filha de Gaia e Urano para ser a guardiã da justiça, seu nome é Themis, e é ela a representação da mulher vendada com uma balança à mão que costumeiramente nos recebe nas portas de fóruns mundo a fora.

Diante de todas essas representações de justiça, gostaria de centrar meu pensamento num Deus humano e historicamente representado. Ocorre que surgiu na Galileia certo nazareno, tipicamente nativo, provavelmente negro, esquelético, mas muito assertivo. Cada palavra que soava de sua boca provocava uma verdadeira desordem nos poderes constituídos. Sua denúncia se espalhou a tal ponto que fez dele um perseguido. O estado tratou de tramar contra ele, criando fatos (que hoje chamamos de fakes) atribuindo-lhe más companhias; impondo-o em situações contrárias à sociedade e aos bons costumes do seu tempo. A todo instante lhe atribuía perguntas: o que fazer com esta mulher pega em adultério? Ou, esse apartamento é seu? Dependendo da resposta, os juízes ávidos estariam prontos para dentro, da lei, estabelecer a pena.

Sabiamente o Galileu foi desviando-se uma por uma das inquisições. Não se furtou a responder ao pagador de impostos; não se omitiu à prostituta, nem tampouco deixou sem resposta a quem pertencia o dinheiro. Sempre com rápidas e assertivas palavras foi desarticulando vis-à-vis todas as tramas que iam se somando nas ruas, nas vilas e nas tabernas do lugar. Seu carisma começou a ganhar espaço e apoio dos menores. Primeiro vieram os pescadores (figura pequena entre os pequenos), depois vieram as mulheres (aquelas que não tinham voz, nem vez política), em seguida, os cobradores de impostos e os mercadores, depois mandou vir as crianças, os presos, os famintos, o estrangeiro e a viúva. Enfim, os injustiçados começavam a se reconhecer, forjando uma nova dinâmica entre as classes sociais daquela época. Uma teia a ser combatida, estigmatizada e condenada, pois representava perigo ao poder.

O movimento de beira de praia ou de áridas montanhas foi aos poucos se organizando e repetindo o caminho feito por Amós. Cada novo membro acrescia aquele “partido político” e sentia-se um profeta. Corresponsável na tarefa de denunciar a opressão. Os fatos foram ganhando contornos perigosos, de tal forma que aquele simples amontoado de gente falando de coisas abstratas, como justiça, passou a representar perigo ao poder. Mas por que? Porque a abstração da justiça precisa se contrapor à materialidade do direito, ou seja, ao poder.

O nazareno passou a ser perseguido e ousou entrar na cidade feito rei, saudado pelo povo, para que o povo o reconhecesse, sem, contudo, jamais aceitar sequer um jantar com aquela elite. Fez-se povo e foi julgado. Condenado em primeira instância (julgamento religioso diante dos sacerdotes), teve sua sentença confirmada pela segunda instância (Tribunal Romano). Destituído de suas vestes, com a dignidade atacada, trocou a força das armas pelo silêncio da revolução. Não morreu numa cama vítima de hepatite, nem de cirrose. A sua causa morte atesta tortura até o limite do rompimento do seu baço. Seus ossos ainda suportavam o peso do seu corpo quando seus algozes tripudiavam com escárnios a sua luta. Ainda trôpego, pelos flagelos do seu calvário, entreolhava seus discípulos a quem dizia: continuem. Em nenhum momento abriu mão dos seus princípios e sua recusa ao poder convenceu mais que a força de um exército.

Passados séculos, hoje me pergunto: qual é o rosto do injustiçado? A sentença pronta é lógica do julgamento burguês. O julgo moral e leviano ainda açoda todos os dias centenas de pessoas. Os EUA, por exemplo, mantêm abertamente uma cadeia (Guantánamo) para presos políticos sem condenação. Eles podem passar o resto de suas vidas ali sem um julgamento justo, mas dentro da legalidade. No Brasil, a lei se adequa à intepretação do iluminado e a verdade vai sendo construída ao sabor do acusador. Assim como foi no império romano, a segunda instância se limita a reforçar os atropelos do juiz singular. Hoje, as grandes mídias quase repetem o mantra: a quem eu solto? Jesus ou Barrabás? Sou levado a confessar que ainda tenho medo da resposta…

O direito se afasta da justiça todas as vezes que uma pessoa não tem garantias a um julgamento justo. E justo, não é apenas o cumprimento de normas jurídicas. Justo, é a justa medida delimitada entre o poder e o amor. Entretanto, no Brasil a ausência de justiça nos julgamentos é a regra. A ordem é invertida quando magistrados de alta corte vendem habeas corpus a traficantes. Quando assinam alvarás de inocência mesmo tendo provas materiais, periciais e testemunhais em excesso. Soltam bandidos mediante a classe a que pertencem e escolhem aqueles que devem ser punidos, ainda que sobre estes não se consiga uma única prova. O direito se afasta da justiça quando num mesmo julgamento, sob as mesmas acusações, e as mesmas condições, um réu tem sua pena aumentada, e os outros têm sua pena reduzida, apenas em função da sua representação social (leia-se perigo social). Parece a sentença romana reproduzindo-se na história, quando por ato de oficio o imperador diante de dois réus sob a mesma acusação (desordem social) imputa pena de morte a um, enquanto liberta o outro, sem antes lavar as mãos, claro!

O calvário vai repetir seu cortejo natural. Milhares vão atrás do injustiçado. Uns vão assistir por escárnio, outros por compaixão. Outros tantos porque é o assunto do momento. Eu? Eu vou seguir o rosto do injustiçado. Independente da cor do seu partido, ou da sua pele, da quantidade dos dedos que traz nas mãos. Não interessa se tem barba, se mora na favela, ou lhe atribuem um tríplex. Vou me assemelhar a ele todas as vezes em que a justiça não for a justa medida. Vou me fazer presente na sua dor porque derivo de uma tradição em que a justiça é a meta. Derivo de uma história marcada pela ousadia da denúncia. Derivo de antepassados que trocaram a suntuosidade do poder e suas negociatas para, caindo de pé, manter viva a esperança no reino da justiça e do amor.

Rafael Silva

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

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