O Lagosta: E o trágico-brilhantismo de Yorgos Lanthimos, por Daniel Araújo

De onde vem a potencialidade do cinema contemporâneo? Seria dos próprios filmes, tomados em suas particularidades? Seria do trabalho de autoria dos realizadores que os assinam? Ou uma mescla desses e outros pontos que poderíamos aqui mencionar? Certamente um pouco de tudo isso. E essa é uma consideração que podemos aplicar a trabalhos como excepcional O Lagosta (2015).

Escrito e dirigido pelo diretor grego Yorgos Lanthimos, o longa conta a estória de uma sociedade que vive em um futuro distópico onde pessoas solteiras são, de acordo com às leis, levadas para um lugar chamado Hotel e lá devem conseguir arranjar um parceiro dentro de um período de 45 dias. Aqueles que não conseguem são transformados em um animal de sua preferência e levados para viver nas florestas.

Absurdo, o filme dialoga de maneira extremamente refinada com um tipo de humor dramático muito bem-vindo. Isso porque o cinema de Lanthimos pode ser interpretado em uma linha de filmes onde a estética e o sentido agem de forma quase indissociável. Ou seja, a linguagem cinematográfica, incluindo o modo como a fotografia opera para contar a estória, casa-se muito bem ao tom irônico com que o diretor apresenta a sociedade do futuro.

Partindo do princípio, O Lagosta é um filme pessimista. Ele desenha um modelo de dinâmica social futurística bastante autêntica, uma vez que a construção do universo onde a narrativa se desenvolve se torna familiar para nós ao longo da projeção. Essa aposta que fazemos é conduzida por meio da personagem de David (Colin Farrell). Recém chegado no Hotel, é a partir dele que entramos na estória, entendendo os códigos daquele local e mais adiante dessa distópica sociedade.

Todas essas nuances, entretanto, são apresentadas de maneira muito dinâmica por Lanthimos. E certamente, esse dinamismo no descortinamento de índices que revelam o filme para nós é um dos maiores méritos da obra. Uma vez que, apesar dos seus 119 minutos, a percepção que temos é que o longa em nenhum momento se estende para além daquilo o que a narrativa deveria ser formada.

No filme, só há aquilo o que é necessário ao desenvolvimento da trama. E isso se evidencia pela satisfatória sensação que sentimos de que se desviarmos a atenção do longa por alguns segundos, algo importante para o entendimento do se contexto seria perdido. Essa é a ideia da montagem aplicada com total êxito. Porque ao material fílmico, só aquilo o que lhe é essencial deve ser preservado, captado.

Absurdo, o filme também dialoga com um tipo de humor erótico-dramático muito bem-vindo.

Em seu primeiro ato, o longa nos apresenta os personagens e o ambiente onde estes interagem. Tudo é mostrado muito economicamente, mas dentro de uma precisão irretocável. Falamos da economia no uso dos planos e dos diálogos. Estes são diretos e em nenhum momento expositivos. Entretanto, é interessante notar como Lanthimos parece brincar com a própria linguagem a qual opera quando a narradora da estória vai pontuando, em alguns momentos do filme, exatamente o que vemos na cena.

E o que na gramática cinematográfica é tida como um erro crasso. Aqui, o diretor parece fazer uso do recurso quase que num exercício de sabotagem do seu próprio fazer. Ele arrisca por ter o domínio narrativo e gramatical do fazer fílmico. Isso é inegável quando olhamos para a estrutura de O Lagosta estar dividida em dois blocos que se ligam pela jornada empreendida por David. Ele é o homem recém-abandonado, que tem de conseguir uma parceira, mas que logo, em função da própria mudança de eixo da narrativa, acaba tomando decisões com base nos conceitos que descobre da vida para além do Hotel.

Em sua estrutura de sentido, há um tom pessimista e sombrio já percebido em outros trabalhos do realizador, como em Dentes Caninos (2009), por exemplo. Ou seja, o filme pode ser tomado como uma brilhante representação do fascismo, aplicada na dinâmica pós-moderna. Em O Lagosta, estamos no futuro.

Mas não são os carros voadores ou as roupas estilizadas que definem isso. E sim um modus operandi autoritário com que as pessoas e as instituições interagem na dinâmica da sociedade. O que podemos entender, por sua vez, como uma construção microfísica do fascismo neste século, a partir de um recorte muito bem definido dentro de uma sociedade distópica e radical.

O filme é uma brilhante representação do fascismo, aplicada na dinâmica pós-moderna a partir de uma sociedade distópica.

Mas assim como na extensão da sua obra, Lathimos traz em o Lagosta um índice de outros realizadores seminais do cinema contemporâneo, como Theodoros Angelopoulos (1935-2012). E a exemplo desse outro memorável diretor grego, Yorgos Lathimos apresenta uma construção de personagens que operam em um universo que emula algum escopo naturalista, mas que logo se revela anti-naturalista.

Seja pelo estranhamento e apatia que eles evocam, ou pelo traço do absurdo em que as situações em que esses tipo s se inserem. Esse é, portanto, um desenho muito particular da cinematografia europeia na contemporaneidade.

Outro ponto forte do filme é ele se abrir em variadas chaves temáticas. Sendo um trabalho sobre o caráter estigmatizador de uma sociedade abatida pelo espectro de instituições que vigiam e punem, numa perspectiva foucaltiana. Ou sobre o isolamento do homem pós-moderno ante a sua imensa dificuldade em lidar consigo mesmo, individualmente ou numa vertente coletiva.

O Lagosta é também sobre o isolamento do homem pós-moderno e sua dificuldade em lidar consigo mesmo, individualmente ou no coletivo.

Em seu ato final, o filme não se empenha em nos oferecer uma perspectiva redentora. Ele até o é, mas carrega em si um sutil tom de tragédia. Como se o autor nos dissesse que se a vida não é perfeita, a obra cinematográfica também não deveria ser.

E não por pessimismo, mas sim por encontrarmos em uma conclusão redentora com variações tonais trágicas, um modo de não interpretarmos o cinema como um exercício do clichê, mas sim de um estar progressivamente reflexivo. E é isso que Lanthimos faz em O Lagosta. Assim como na assinatura da sua brilhante cinematografia.

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Lobster

Tempo de Duração: 119 minutos

Ano de Lançamento (Grécia, Holanda, Reino Unido): 2015

Gênero: Comédia, Drama, Romance

Direção: Yorgos Lanthimos

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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