O Judiciário é devorado pelos seus próprios dentes, por Fernando Brito

Que o Brasil tem uma elite dirigente insensível aos sofrimentos de seu povo, bem, isso não chega a ser novidade em nosso meio milênio de historia.

Que, por estas bandas, o importante é “levar vantagem em tudo” o craque Gérson já dizia, também, nos comerciais de cigarro dos anos 70.

Que abundam por aqui os privilégios, as carteiradas, o “sabe com quem está falando”, igualmente, nada de novo é.

Ocorre que como nunca antes na história deste país o Judiciário se envolveu na política, usando a mídia – e sendo prazeirosamente usado por ela – como bússola, vento e vela para navegar, emproado, como paladino da moralidade.

Um discurso tão simples e eficaz para o “Ibope” que qualquer Ratinho, Datena, Wagner Montes ou quejandos pode usar, embora sem o mesmo brilho verbal de um Luís Roberto Barroso.

A todos eles, porém, este sucesso cobra o preço de serem sempre escravos do que se diz ser o “senso-comum”e posicionarem-se de acordo com o que o genial Barão de Itararé chamava de “a opinião que se publica”, convertida em opinião pública pelo destaque e repetição.

E os “donos da opinião pública” encarregaram-se de criar a maré de ódios e moralismos em que os juízes e ministros do STF deslizaram e lambuzaram-se.

Quase todos, raras foram as exceções.

O próprio Gilmar Mendes, que aparece hoje na  Folha reclamando de um “bolivarianismo ao contrário” diz que responsabiliza os donos dos jornais pelo que lhe venha a acontecer, fartou-se de servir-se da mídia quando era para vociferar contra o governo eleito.

O Judiciário jamais escapou do quadro de privilégios e cumplicidades com que se abre este artigo.

Mas agora que o jogo virou contra si, como um menino mimado, quer pegar a bola e dizer: “não brinco mais”.

Parece um pouco tarde para isso. O que fizeram deixando que se parisse um golpe e um quatro de perseguições muito além de qualquer prudência, durante anos, agora os ataca, em poucos dias, com os dentes que fizeram arreganharem-se.

— Fernando Brito é jornalista, editor do Tijolaço.

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