O INCÊNDIO NO EDIFÍCIO WILTON PAES DE ALMEIDA E A IMPOPULARIDADE DE TEMER, por Eduardo Fontenele

O incêndio e posterior desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, revelou o grau de impopularidade do presidente Michel Temer (MDB) junto à população. A catástrofe ocorrida na madrugada de 01/05, que deixou 4 pessoas desaparecidas, todas elas na linha de extrema pobreza, que ocuparam o prédio devido à absoluta falta de condições de ter uma moradia digna.

O edifício era um ícone da arquitetura modernista, projetado pelo arquiteto francês Roger Zmekhol, foi inaugurado em 1968, e entregue para a União devido às dívidas do antigo proprietário, uma empresa de vidros. Tornou-se sede da Polícia Federal e do INSS, até ser desocupado de suas funções comerciais em 2001. Ele estava abandonado há 17 anos, tinha 24 andares e abrigava cerca de 146 famílias, ou 372 pessoas.

O dramático incidente na verdade era uma tragédia anunciada, já que, em 2015, o Corpo de Bombeiros havia relatado várias irregularidades que poderiam provocar ou dificultar o combate a incêndios na construção. Foi encaminhado um laudo ao Ministério Público atestando as irregularidades. “A gente verificou que haviam rotas de fuga obstruídas, com lixo e material altamente inflamável, problemas com botijões de gás. Poderiam ser problemas que causassem incêndios e as chamas se espalhassem de maneira muito rápida […] Nosso papel foi encaminhado ao Ministério Público para que se promovesse as ações necessárias”, como afirmou Marcos Palumbo, porta-voz do Corpo de Bombeiros. No edifício havia ainda ausência de extintores, sistema de hidrantes inoperante, ausência de mangueiras, ausência de luzes de emergência, ausência de sistema de alarmes, instalações elétricas irregulares, fios sem isolamento adequado e expostos, elevadores inoperantes e fechados por tapumes.

Um morador do local, identificado por Ricardo, de cerca de 30 anos, morreu quando estava para ser salvo pelos bombeiros. Ele morreu com o desabamento. Ele saiu do prédio quando o fogo começou, mas voltou para ajudar os outros moradores que estavam nos andares mais altos. Um bombeiro que ia salvá-lo lamentou não ter tido mais 30 ou 40 segundos para executar o salvamento.

A prefeitura de São Paulo afirmou que apenas neste ano fez seis reuniões com os moradores do prédio alertando sobre os perigos de habitá-lo, pois não possuía as menores condições de segurança. O núcleo de intermediação com áreas invadidas tentou avisar sobre a possível tragédia.

O ex-prefeito e pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo, João Dória (PSDB), acusou os moradores do edifício de pertencerem ao crime organizado e de venderem drogas. Ele disse que várias tentativas foram feitas para desocupar o prédio e abrigar as famílias em outros imóveis, mas foram todas rechaçadas com violência pelos supostos membros de facções que habitariam o local.

Temer foi visitar os escombros e foi hostilizado pela população, que o recebeu com gritos de “golpista” e outros xingamentos. Bem diferente de Lula (PT), que, no dia de sua prisão foi carregado e saudado pela população como o ícone popular que é.

Temer deu uma declaração para a imprensa no local do desabamento, ele prometeu dar total assistência às famílias que ficaram desabrigadas e aos que sobreviveram ao desastre, mas teve que interromper sua fala devido à agitação que ocorreu no local. Ele interrompeu o discurso e se retirou rapidamente antes que o clima esquentasse e o mal estar provocado por sua presença se agravasse. Seu carro ainda recebeu golpes das mãos e chutes dos manifestantes, assim como objetos foram arremessados contra o veículo. Tudo isso devido aos, apenas, cinco minutos que o presidente ficou no local.

O presidente mais impopular da história da República não goza de metade do prestígio do ex-presidente Lula que encerrou seu governo com 87% de aprovação popular. O Governo Temer teve em março deste ano, segundo o portal R7, o índice de 4,3% de aprovação e 73,3% de reprovação.

A impopularidade de Temer é superior à da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) às vésperas do impeachment, que era 13% de aprovação e 63% de reprovação. Também é pior que a de outro presidente afastado, este sim por corrupção, Fernando Collor de Mello (PTC), que tinha apenas 9% de aprovação. Temer perde até para o ex-presidente mais mal avaliado da história, que foi José Sarney (MDB), que em seu governo chegou a 5% de aprovação em 1989.

Em uma pesquisa de 2016, a maioria da população, 76% dos entrevistados, defenderam a renúncia de Temer. Em outro cenário, sem renúncia, 81% das pessoas ouvidas afirmaram serem favoráveis à abertura de um processo de impeachment contra o atual presidente. Em outra pesquisa realizada pelo site Poder360, onde 79% queriam a cabeça do governante, ou seja, renúncia ou cassação. Segundo o mesmo levantamento, apenas 2% dos entrevistados consideram o governo positivo. Em uma pesquisa da consultoria Ipsos 75% dos entrevistados definiram o governo como ruim ou péssimo. Só 4% classificaram o governo como ótimo ou bom.

Duas tragédias de alcance nacional ocorreram no Brasil recentemente, o desabamento de um edifício, que deixa claro como a nossa população anda carente das necessidades mais básicas, que deveriam ser fornecidas pelos nossos governantes, e também pôs às claras a situação precária com que se mantém no poder um governante que se agarra a este poder apesar de ter plena consciência de que não é querido pela população.

Chega a ser patético o apego ao poder pelo poder, sem nenhuma simpatia do povo, sem nenhuma sustentação moral. Sem nenhuma dignidade, nem vergonha na cara. Se as tivesse, pediria a renúncia imediatamente.

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele formou-se em jornalismo pela Devry Fanor em 2016, publicou o livro de contos Abstrações em 2017 e é administrador dos blogs Drops de Filmes e Pensando desde 1978.

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