O fanatismo cego, surdo e mudo não faz bem aos negócios, por Capablanca

Sabem aquela sequência de três imagens de macaquinhos? Na primeira o macaquinho põe as duas mãos nos olhos, na segunda o macaquinho põe as duas mãos nos ouvidos e na terceira ele põe as duas mãos na boca. Ou seja: ele não vê, não ouve e não fala. Essa imagem é o que me ocorre para entender a atitude de empresários, economistas e da equipe econômica do governo Michel Temer.

Eles não enxergam nada do que está acontecendo há mais de dois anos. Ignoram deliberadamente a fragilidade da recuperação da economia (de fato não há nenhuma recuperação, e isso é o óbvio ululante). Desprezam a situação cruel de treze milhões de desempregados, não ouvem o gemido de uma parte da sociedade que é colocada contra a parede, à beira do desespero, sem saída, sem saber a quem recorrer, qual animais. O pequeno e o médio empresário nunca tiveram voz, mas agora aqueles que se dizem seus líderes estão calados ou repetem o discurso pouco consistente de que a “recuperação segue lenta e firme, agora sustentável” — puro papo furado, não encontra respaldo na realidade do mundo dos negócios, qualquer empresário sabe disso.

Acrescento uma quarta imagem aos macaquinhos. Nela, as mãos estão amarradas. É como se os macaquinhos não pudessem fazer nada, além de não ver, não ouvir e não falar. Mas, o fato é que as mãos da equipe econômica, dos empresários e dos economistas não estão de fato amarradas. E de fato eles podem ver, ouvir e falar. Apenas escolheram não ver, não ouvir, não falar e não fazer nada.

Apenas espalham e repetem que a culpa é dos governos passados e que a “recuperação econômica segue lenta e firme, agora sustentável”. É um roteiro macabro de destruição.

Isso eles repetem todo dia, toda hora, em todos os lugares e em todos os meios de comunicação, como se fosse um dogma, uma oração, um evangelho. Nunca empresários, governo e economistas foram tão radicais. Pensam, falam e agem como fanáticos. Henrique Meirelles é o seu líder, seu guia. Basta isso para ver quão frouxo está o parafuso do juízo. Por justiça, diga-se: Meirelles está bem encaixado nas quatro imagens – calado, surdo, cego e quieto, é um gênio.

Querem um exemplo desse fanatismo sem consistência? O problema do déficit fiscal do país, que em 2015 foi vendido à população como dramático, inaceitável e insustentável, agora foi absorvido com a maior naturalidade. Ninguém o resolve, ninguém o enfrenta, sequer. Em 2014/2015 uma jovem economista ganhou prestígio e virou celebridade ao dizer que o Brasil tinha entrada no campo da “dominância fiscal”: o déficit condiciona o desempenho negativo e teria que ser resolvido.

Agora, temos o seguinte: o défict de 2014 multiplicou-se por mais ou menos cinco e até 2021 não há solução à vista, o próprio governo admite.

De governos e de economistas, tudo se pode esperar. Mas, de empresários, é estranho essa passividade: eles sabem que o dinheiro não aguenta desaforo e que o relógio do tempo não para.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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