O Evangelho Segundo São Mateus: E a homogeneidade do presente irrompida pelo passado

Olhar para o cinema de Pier Paolo Pasolini é termos a possibilidade de experimentarmos uma retratação muito singular da história do cinema. Essa percepção é a que temos quando somos afetados em um sentido de todos os afetos que o cinema pode evocar, por obras como o irrepreensível “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964).

Baseado nos textos do Antigo Testamento, o filme acompanha a trajetória de Jesus de Nazaré (Henrique Irazoqui), desde o seu nascimento e infância, passando por sua jornada de pregações e consequente julgamento, morte e ressurreição. Mas sua obra não se resume a um mero registro historiográfico ou uma adaptação livre sem muito peso.

Estamos diante de um cinema total. Onde o fazer artístico assume um tom bem simples na sua forma, mas seu sentido excede o lugar da simploriedade. É claro que mesmo quando falamos dessa simplicidade no tocante à Pasolini, ela vem relativamente porque em nada tema ver com qualquer falta de domínio técnico do diretor. O mestre italiano foi e é um dos nomes mais fortes do cinema moderno. E as suas escolhas no fazer fílmico são uma prova disso.

Ao fazer referência a Lumière como um dos últimos pintores impressionistas, Jean-Luc Godard defendia a ideia da figura daquele mestre francês ser um artista cuja primazia da obra estava no caráter extraordinário no ordinário. Em Pasolini, essa “extraordinariedade” emerge também da simplicidade e forte aura contida nas imagens que ele conseguia gerar. Os frames do prólogo contidos em “O Evangelho” são um exemplo disso.

Para a imagem de Maria (Margherita Caruzo) que vemos no filme, há um tom muito naturalista que não necessariamente busca uma similarização ou representação das estátuas historicamente apresentadas na cultura católica. Há sim, um tom de pureza e subliminariedade que a própria atriz ajuda a endossar. Mas há também uma janela interpretativa muito forte que nos leva a conexões como a fantasmagoria, por exemplo. Esse prisma tão vasto que o diretor consegue evocar em seus trabalhos é, sem dúvida, um de seus traços mais fortes.

Mas é igualmente interessante notarmos o quanto a montagem ajuda a imprimir um tom distinto ao longa. O corte seco entre as cenas, as elipses entre as ações da narrativa e o alongamento de alguns planos, como vemos na sequência do julgamento de Jesus por meio de uma câmera subjetiva do personagem de Pedro (Settimio Di Porto), também ajudam a estruturar este trabalho tão singular do diretor italiano.

Seu tom, portanto, é de uma obra que segue um fluxo de maior intensidade ou dinâmica em dados momentos, como nas viagens de Jesus em suas pregações. E ai, a ação das distâncias percorridas detonam uma montagem mais dinâmica, repleta de cortes entre suas sucessivas imagens.

E como todo filme de referência, o longa consegue claramente se destacar da dita “obra gospel” ou apologicamente religiosa. Sim, o filme baseia-se nos escritos do Antigo Testamento, mas não estamos diante de um Cecil DeMille (Os Dez mandamentos – 1956)  ou demais trabalhos que tem o cristianismo como tema.

Isso porque Pasolini consegue assegurar sua assinatura enquanto realizador. Isso tanto em termos de estética e forma, como falamos anteriormente, quanto de sentido. E aí, nos referimos do modo como ele consegue, através do seu cinema e mesmo realizando filmes históricos, produzir efeitos no presente.

Ou seja, “O Evangelho Segundo São Mateus” é quase um exercício prático do autor que vê o passado revestido de uma força revolucionária que pode questionar a homogeneidade do presente. Em 1964, Pasolini se apropria da rigidez histórica para falar também do mundo tal qual o víamos à época.

E no cruzamento entre eras, realizou um dos seus trabalhos mais simbólicos, sincretista, no tocante ao entrelaçamento de ideologias, visões históricas da estética do cinema (quando observamos tanto o Neorrealismo Italiano quanto a Nouvelle Vague francesa) presentes na sua obra.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Il vangelo secondo Matteo

Tempo de Duração: 137 minutos

Ano de Lançamento (Itália): 1964

Gênero: Drama, Histórico

Direção: Pier Paolo Pasolini

 

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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