O DEUS QUE SE DEIXAR TROPEÇAR, por Rafael Silva

Ao buscar o sagrado, a humanidade sempre precisou olhar para o alto. A ideia de divindade somente é aceita se vier de cima. No antigo testamento os profetas comunicavam com Deus subindo a montanha. Nas cavernas africanas e mais tarde na América foram encontradas pinturas de povos celebrando a sua fé, cuja principal expressão estava no olhar para cima. Na Ásia, muitas religiões sobem a montanha para realizar seus rituais. Quase todas utilizam instrumentos caracterizados por expandir o som para o alto e, assim, chegar ao sagrado. O mesmo efeito têm os incensos, utilizados por quase todos os credos. Na tradição ocidental, principalmente a fé católica, a ideia do cheiro é tão forte quanto a mística da imolação.

Olhar para o alto e procurar Deus sempre foi regra, mas houve uma única vez que esse gesto mudou. E demorou até que os reis e os magos compreendessem a função da estrela que os guiava. Ela apenas indicava o caminho! Ao entrar na cidade, a estrela desapareceu para não servir de guia aos matadores do menino, mas voltou a brilhar tão logo os magos saíram da cidade, ou seja, brilhou na periferia. Justamente para indicar que a salvação não viria do centro, nem de cima, mas viria de baixo. Assim, fazendo-se tropeçar, Deus pela primeira vez quis ser visto não do alto, nem na montanha, nem tampouco nas nuvens, mas no chão. No lugar que era dedicado aos animais. Ao invés dos tecidos finos e da cama confortável, se deu no lugar do odor, dos mugidos e, possivelmente, no chão duro e frio de uma madrugada especial. Numa noite em que Deus se “fez de baixo” e pela primeira vez que a humanidade precisou olhar para o chão para se religar. Percebê-lo no simples estábulo, no lugar dos animais, dos descartáveis. O lugar dos matáveis.

Quantas histórias retrataram esse momento? Quantas encenações, apresentações e outras formas foram utilizadas para repassar a ideia do Deus pobre? Da mesma forma que aquela sociedade, a nossa sofre do mesmo mal. Carrega consigo um gosto incrível pelo sagrado, mas ainda alimenta um Deus no alto. Busca como quem tivesse perdido o Deus da montanha, da nuvem, de cima – Se Deus nascesse hoje e repetisse o mesmo enredo, quem iria acreditar? – Quem iria visitá-lo? – Quem iria adorá-lo?

Na sua sabedoria, Deus cansou de ser adorado no alto, ele quer ser visto de cima. Em outras palavras, ele se faz o Deus dos pequenos, pois quer se mostrar por inteiro, como aspecto último do sinal da redenção. Quer restabelecer a aliança e devolver a esperança aos “de baixo”. A hipótese da salvação só pode se concretizar com todos, não há salvação de um único povo! Ou todos são salvos ou Deus falha no seu projeto. Como a segunda parte da frase não é possível, então Deus vem para os excluídos, os miseráveis, os matáveis. Faz-se pobre de bens para irradiar a riqueza do amor. Despindo-se do melhor para ficar com o essencial, com a essência, com aquilo que importa.

Estabelece outra lógica de relação com seu povo, aquela baseada na justa medida. Olha para nu, para preso, para o estrangeiro, para a viúva; olha para o pequeno. Faz-se nazareno, equivalente hoje a um palestino, escandaliza com isso. Deixa-se tocar pelo cobrador de impostos, pela prostituta e tira da morte; o pobre, Lázaro. Deixa-se ver ao lado das figuras mais impuras da época. Joga as redes, sinal de unidade e dá sentido à profissão mais enconchada do seu tempo – o pescador. Deus fez do fraco o mais forte, seus primeiros discípulos poderiam ser reis, sacerdotes e latifundiários, mas ele quis aquele que o traísse, aquele que o negasse e aquele que dele duvidasse.

Se pudesse traduzir Cristo em uma frase, utilizaria a expressão “nulla salus extra pauperem” ou seja, não há salvação foro do pobre. E não há mesmo! Para aceitar o projeto de salvação é preciso fazer o caminho do pobre. Se tornar pobre, talvez nem tanto no sentido material, mas de forma perfeita no sentido do espírito. Na mais profunda expressão da “Justa Medida” de não acumular, não carregar além do necessário. O rosto do oprimido continua exatamente o mesmo: é a mulher destituída de sua dignidade, a prostituta despida do afeto, a criança furtada do seu futuro; é o estrangeiro que continua a ser morto em nome de um “deus” distante.

Como quem ama, Deus se apresenta de forma tão simples, tão igual, que quase tropeçamos. Preocupamo-nos com presentes, lembranças, recorremos ao moinho satânico do mercado para comprar boas comidas, boas bebidas e ao final, e só no final, lembrarmos que o natal é outra coisa. A gente tropeça no real sentido do natal. A gente tropeça em algo que não nos chama atenção. Ninguém tropeça num monumento em que está no alto. Tropeça-se no pequeno, naquilo que nos faz mudar de rota somente após ser sentido. Por um instante, o tropeço pode parecer ruim, mas no momento seguinte nos recobra a atenção e nos obriga a caminhar de forma mais vigilante.

A estrela voltou a brilhar, não esqueça onde você está. Ainda hoje esse Deus se fará tão próximo e tão igual que desejo profundamente que você tropece nele.

Rafael Silva

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

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