O BRADO RETUMBANTE DE UM POVO HEROICO – Parte I – por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

QUE BRASIL VOCÊ QUER PARA O FUTURO?

Alguém (áudio e vídeo): O país que queremos para o futuro deve ser livre de qualquer tipo de corrupção, pois só assim se tornará possível construirmos um legado justo para as nossas crianças e adolescentes.

Eu: O meu país do futuro não cabe numa tela de celular, tampouco em quinze segundos de áudio. Não cabe sequer num processo eleitoral, mesmo porque, caso mudemos os atores, os sistemas/esquemas viciados permanecerão. Alguém duvida? Eu não!

JTI1: Mes amis, mes enfants! Juro que não acredito no que vejo.

JTI2: E o que você está vendo, jovem?

JTI3: Hã? Onde? O quê?

JTI1: Ali. Acabou de atravessar a rua. Está vindo em nossa direção.

JTI2: Meu Deus! Pois não é ele, o Velhinho…

JTI4: É sim. Ele mesmo. Em carne e osso. Mais osso do que carne.

JTI1: Nascido no pé da serra de Baturité, não perde a ginga de carioca. Mengo!!!

JTI5: E a altivez de paulistano. Coríntia!!!

VB: Na paz de Deus, amigos meus! E que o dia seja bom para todos nós! Convém que eu os lembre, jovens de invejável experiência, de que o sambista já cantava assim: “Falem de mal, mas falem de mim”.

JTI3: Crianças, olhem ele aí! A mesma verve, o mesmo viço. Depois de um longo sumiço.

JTI2: Quem é vivo aparece, sem ufania e sem alarde… mais cedo ou mais tarde.

JTI1: E aí, bom homem, por onde andou que não se arranjou?

VB: Se eu puder lhes dizer, vocês não haverão de crer. Vivenciei uma incrível aventura! Moinhos de vento que me levaram… moinhos de vento que me trouxeram. Cá estou, gentis criaturas!

JTI5: Mate-nos a curiosidade, viajante de longas caminhadas, em dias ensolarados e em noites enluaradas…

JTI4: Missões aventureiras… e só a solidão como companheira…

JTI1: É bom que se diga: ninguém aqui tem pressa pra nada. Tempo é o que não nos falta, camarada.

VB: Já que vocês insistem, vou lhes contar… só que resumidamente. Não me perguntem nada… pouco ou quase nada posso explicar, infelizmente. Por favor, não me interrompam… não espichem a conversa ainda mais. Tudo bem, espíritos joviais?

JTIs: Sim. – Todos responderam em uníssono.

Alguém sugeriu que, tomadas de empréstimo umas cadeiras do barzinho aberto há alguns minutos, onde costumavam sorver algumas geladinhas nos finais de tarde das sextas e sábados, todos se acomodassem em área mais interna da praça, quase sem movimento, sob a sombra de generosos arbustos, ali onde antes havia grama e flores bem cuidadas. Sentados em círculo, arregalaram bem os olhos e aguçaram ao extremo o pavilhão auricular. Nada disseram, mas o Velhinho de Baturité certamente leu nos olhares – prenhes de ansiedade e, mais ainda, de curiosidade – da sua peculiar audiência: “Pronto. Somos todos ouvidos.”

VB: Amigos, eu fui abduzido. Vocês têm alguma ideia do que seja isso? Não, não pensem em rapto, muito menos em sequestro. Na verdade, estava eu dormindo o sono dos justos, gozando as delícias e prazeres próprios da solidão que amaina os desejos venturosos, voluptuosos, e sonhando o sonho heroico de haver, com esforço hercúleo e denodo e resiliência, desvendado a solução para crucial problema que afetava a humanidade há muitos anos, quando, de repente, invadiu-me a sensação de que o meu espírito se desprendia do meu corpo e se elevava em direção ao teto, como que sugado por algum tipo de energia especial. Entrei num vácuo imenso. Esvoacei fora de controle e sem atino. Planei em êxtase. E nada mais senti. Até que me surpreendi, calmo e tranquilo, andando por um aprazível bosque, entre uma floresta milenar, de gigantes e frondosas árvores, e um lago de águas cristalinas e remansosas, a circundá-lo um conjunto de altas serras de um límpido azul celestial. Quietude. Calmaria. Caminhei pela estradinha que se abria à minha frente, ao som agradável do gorjeio mavioso de muitos pássaros, a encantar-me o voejar de uma miríade de borboletas de variegados matizes, sobre um vasto campo de muitas flores, cores e olores diversos. Percebi que algo me atraía, mas não conseguia vislumbrar o quê. Andei mais um pouco, cheguei a uma clareira e divisei, ao centro, uma modesta casa de linhas arquitetônicas bem delineadas, de paredes de madeira e coberta de palha, com toda a área frontal compondo um belo jardim. Nela nos acomodamos – eu e alguns parceiros de aventura – sob a orientação de que ali passaríamos por um processo de adaptação. Logo descobrimos que, na parte de trás, alongava-se até o sopé da montanha, margeando o lago de águas serenas, um vasto pomar de frutas variadas e saborosíssimas. A um discreto casal de idade mediana, com a ajuda de distinta e experiente senhora, um pouco mais velha, cabia cuidar – e o faziam com zelo e dedicação – de tudo, incluindo o bem-estar dos hóspedes.

“Passados alguns dias, numa bela manhã de sol ameno, o desjejum nos foi servido numa sala até então mantida fechada. Tivemos, então, uma grande surpresa: acompanharam-nos na primeira refeição, vestidos em roupas de linho branquíssimo, envolvidos numa aura de sacrossanta serenidade, sentados a uma mesa em plano mais alto, em completo silêncio, três figuras da história brasileira de cerca de meio século – Ulisses Guimarães, o Senhor Diretas, cujo corpo descansou no fundo do mar; Tancredo Neves, o presidente eleito que morreu antes da posse; e Castelo Branco, primeiro presidente do regime militar, o cearense morto em inaudito acidente aéreo.

“Ato contínuo, com aspecto sério e voz grave, eles nos deram as boas-vindas, nos desejaram proveitosa e profícua permanência e nos advertiram quanto à responsabilidade que nos seria confiada. Logo, uma voz magnificente, admirável, preencheu todos os espaços do ambiente e ressoou nas paredes de madeira, levando-nos a nela concentrar as nossas atenções: ‘Irmãos, o Senhor do Universo, que costumais dizer ser brasileiro, ao vos trazer até aqui, além de vos ungir entre tantos, demonstra a preocupação com o que ora ocorre com o que já foi considerado o povo mais católico da Terra. A tradição vos assegura que a solução para situações extremamente críticas passa necessariamente por sacrifícios. E é precisamente isso que Ele pede a todos os brasileiros de boa vontade. E isso implica que haja disponibilidade para mudar o que está errado, serenidade para manter o que está certo e discernimento para separar o joio do trigo. A vós, por Ele escolhidos como representantes dos que se incluem nessa categoria, cabe, aqui e agora, o desafio de propor as ações que julgardes eficientes e eficazes para a consecução do objetivo maior – que o Brasil, enfim, pertença aos brasileiros. Não haverá interferências, nem intervenções. Agi vós livremente e conforme determinem as vossas consciências, lembrando sempre que toda uma Nação poderá ser salva pela atuação de cada um de vós. Desejo-vos um excelente trabalho. E que a paz presida as vossas ações.’ Fez-se, então, um silêncio absoluto.

“Quando percebemos que estávamos enclausurados, como se ocupássemos o interior da Capela Sistina em pleno conclave para escolha de um novo papa, Ulisses, Tancredo e Castelo já não mais estavam conosco; não os vimos sair. E os trabalhos se iniciaram. Por longos quarenta dias, dedicamo-nos exclusivamente à elaboração da proposta requerida pelo Senhor do Universo, a qual denominamos de Projeto Brasil Que Todos Queremos, cuja entrega para apreciação divina nos rendeu o início de um período de quarentena naquelas acolhedoras e revivescentes paragens, após o que todos retornamos aos nossos respectivos corpos.

“Irmãos, pouco do que propusemos pode ser revelado. Em linhas gerais, eu lhes digo que havia entre nós a consciência de que nos haviam delegado a competência para o desempenho de uma árdua e complexa tarefa; que, em contrapartida, a autoridade delegante dispunha de todas as condições para tornar factíveis as nossas proposituras, caso assim Ele as considerasse; que as nossas ações deveriam ser direcionadas, todas elas, para o adequado tratamento de um enfermo cujo diagnóstico revelava fase aguda de mal invasivo, altamente destrutivo, com sangramento ininterrupto de recursos e esgarçamento do tecido social; que a terapia ora administrada por quem assume o crucial papel de cuidador circunstancial já nem sequer cuida de ministrar as transfusões pontuais, embora, obviamente, em nada contribuíssem para o estancamento da marginal sangria; que dois gravíssimos males, duas exponenciais mazelas concorrem para essa situação crítica, caótica e profunda, de consequências desastrosas: a corrupção e a violência, mantendo-se entre elas uma relação simbiótica muito estreita, uma agindo na parte de cima do combalido estrato social, a outra atuando na parte de baixo, ambas, insaciáveis, virulentas a seu modo, locupletando-se de forma marginal, criminosa.

JTI1: Aplausos! Aplausos! Você acha, amigo, que nós vamos acreditar nessa sua ladainha, nessa conversa pra boi dormir, nessa história de Carochinha, é?!

JTI5: O que é isso, jovem? Ele ainda não concluiu…

JTI4: Bem, amigos, sabem o que eu acho disso tudo? Discurso cativante, arrimado em narrativa onírica, com pinceladas de fantástico e arranjos de romantismo, mas desprovido de praticidade e que, por isso, a nada leva, a nada mesmo!

JTI2: Calma, gente! Não creio que o Ser Supremo tenha… como é que se chama o negócio?… isso… tenha abduzido o nosso Velhinho para nada. Há algo importante no processo. Então, sugiro que o deixemos prosseguir. Vamos ouvi-lo, jovens. Vá em frente, VB!

VB: Obrigado. Amigos, por favor, entendam. Não há a mais mínima condição de eu detalhar todo o projeto. Isso é humanamente impossível. Posso assegurar-lhes que se trata de uma proposta corajosa, que impõe sacrifícios a todos, que prevê a destruição das atuais estruturas administrativas, econômicas e políticas, que propõe a fundação de um Estado Novo, mais transparente, mais enxuto, menos perdulário, menos exposto a ações marginais, mais humano, mais justo, mais brasileiro.

(Continua)

“Soyez rèalistes, demandez l’impossible.”

Sejam realistas, exijam o impossível.

[Pichação em muro da Sourbonne, na ocupação estudantil de 1968].

Nota do autor:

A sigla JTI, seguida de um número – 1 a 5 – e identificadora de cada um dos enunciadores da conversa, significa “Jovem da Terceira Idade”. Quanto ao VB, claro está tratar-se do Velhinho de Baturité.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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