NINHO NA JANELA, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Um jovem casal de rolinha-caldo-de-feijão, aformoseado em seu natural paramento marrom e apaixonado em seu canto pouco melodioso, monótono e sequenciado – uú-uú-uú –, demonstrando ainda não ter expertise no assunto, teimou em construir seu ninho num lugar que, no concernente à estratégia, em nada revelou a natural competência que deveria ter sido herdada dos ancestrais, nem a observância aos graves ensinamentos e orientações exemplares dos pais. Esses jovens! Pobres jovens!

Ora, nenhuma ave-pai ou ave-mãe jamais recomendaria – por seus olhos, por seus sonhos, por seu sangue, tudo enfim – sua esvoaçante prole a abandonar o tradicional costume do ninho em forma de pequena tigela de ramos e gravetos, entre cipós ou galhos bem fechados pelas ramadas do entorno, e, em vez disso, a optar pelo uso nada convencional de uma estreita faixa de exatos sete centímetros sobre o peitoril em mármore da janela do meu quarto, entre a grade de ferro e a base do caixilho da esquadria de alumínio, por onde correm as emolduradas janelas de vidro, sem proteção contra sol e chuva e sob o risco de eventuais ataques de predadores. Pobres pais! Querem que os filhos neles acreditem. Pobres pais!

Ali, a poucos centímetros da minha ilha de criação, sem qualquer arrumação que garantisse o padrão atribuído a aves da espécie, ou seja, sem qualquer arte, sem qualquer esmero, surgiu um amontoado de gravetos e palhas secas – muitas delas espalhadas a esmo e sem qualquer função –, sobre o qual se deu o aninhamento.

Logo, dois minúsculos e brancos ovos deram um arranjo interessante, um realce especial àquela caótica imagem. Algo parecido com uma pequena tigela foi aos poucos surgindo ao olhar indiscreto e intrometido de um curioso inveterado.

A tranquila e dedicada mãe, orgulhosa da sua função materna, só abandonava o ninho após convocar o parceiro com o monótono uú-uú-uú. E, na troca de posto, eu – o abelhudo – fazia rápida leitura avaliativa da evolução do processo.

Passados uns dez dias, os ovinhos eclodiram e dois projetos de vida, de uma fealdade indescritível, cegos e sem penas, passaram a ser a razão única da existência do jovem casal de rolinha-caldo-de-feijão. A avezinha-mãe se desdobrava, numa felicidade incontida, para oferecer o carinho, a proteção e o calor de que tanto precisavam os seus frágeis e tão dependentes rebentos.

A cada dia, na troca de posto, perceptível se mostrava a rápida evolução dos filhotes. Os pais já se revezavam mais frequentemente e o cuidado maior era com a alimentação de suas crias. Assisti, absorto em pensamentos sobre a engenhosidade da Natureza, a repetidas cenas da regurgitação de alimentos, naturalmente coletados pelos progenitores e recolhidos por um par de exigentes e insaciáveis bicos, nervosos numa renitente fome de seus donos.

Na manhã ensolarada de um domingo, em plena quadra invernosa, envolvi-me circunstancialmente na luta em defesa deste ninho, ou melhor, de seus indefesos ocupantes.

O forte bater de asas contra a grade de ferro espantou a jovem ave-mãe que, assustada e sem poder de reação, fugiu ao ataque do predador. Suas crias já haviam alcançado um estágio de desenvolvimento bem avançado, bem próximo de alçarem o primeiro voo. Um enorme gavião, frustrado em sua primeira investida, pousou no beiral do telhado do oratório erguido no meio do jardim de minha eterna parceira, a quem recorri pedindo auxílio; debruçada sobre o peitoril da janela, ela se tornou a sentinela capaz de dissuadir a grande ave de uma nova tentativa e, assim, oferecer algum tipo de proteção às avezinhas.

Enquanto isso, procurei ser o mais rápido possível no trajeto entre o meu quarto de dormir e o jardim. Comigo ia apenas o desejo de defender os filhotes, embora sem uma única ideia de como fazê-lo. Ao cruzar a área reservada aos estudos dos meus netos, vislumbrei um normógrafo de tamanho médio abandonado em uma das escrivaninhas. Peguei-o sem saber bem por quê nem pra quê. Aproximei-me da grade de ferro e presenciei duas situações bem distintas: a tranquilidade das inocentes avezinhas, tão juntas no bojo do tão mal construído ninho, em contraponto com o olhar amedrontador do enorme gavião, imperturbável e frio como todo bom caçador.

A ideia. Recolhi no porta-malas do carro, a poucos passos de mim, um rolo de barbante e, com o amolado fio do facão – um dos apetrechos que sempre me acompanham –, separei quatro pedaços de mesmo tamanho. Amarrei o normógrafo na grade, como se fora um tapume, um anteparo, isolando a área do ninho. Disse, então, para a minha parceira:

– Agora protegidos estão… vamos torcer apenas para que os pais aceitem essa intervenção… não rejeitem seus filhotes por isso.

E o enorme gavião bateu asas e sumiu. Provavelmente, sem o desejado alimento para as suas famintas crias. É a vida. E que cada um, ao seu modo, lute por mantê-la.

Alguns dias depois, no comecinho da manhã, a Natureza presenteou-me com um espetáculo que causou em mim fascínio e deslumbramento: o primeiro voo de um adolescente casal de rolinha-caldo de-feijão.

Balançando num frágil galho de um arbusto de folhas verdes e florezinhas brancas em buquês, o jovem casal de rolinha-caldo-de-feijão, agora já com alguma experiência na gratificante arte de procriar, macho e fêmea separados por estratégica distância, aguardava, em silêncio e absoluta calma, o poético momento em que seus filhotes, pela primeira vez, experimentariam o prazer de voar, enfrentariam a lei da gravidade e demonstrariam a capacidade de ser independentes. E lá se foram eles… um após outro.

Agora tão bem acolhidos pelos pais, logo, logo, voariam com destino a outras paragens, à procura de outras vivências. Vida que segue.

Mantive-me quieto, deixei-me extasiar, senti-me embevecido e, encantado com o que via, pus-me a cultuar a Natureza, a reverenciar a Vida, a enaltecer o Amor.

Ao longe, um novo canto ecoou: uú-uú-uú…

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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