A NATUREZA DO MONGE E DO ESCORPIÃO – reflexões para nossos caminhos eleitorais, por Rafael Silva

Certo dia um monge foi picado pelo escorpião, após socorrê-lo de um afogamento. O monge foi indagado pela sua insistência em salvar o inseto. E respondeu: “é da natureza dele ferroar, a minha é ajudá-lo”. É com esta metáfora que os convido a refletir sobre o contexto político, que ensaia aproximações de grupos da esquerda, historicamente separados.

Quando fomos às ruas ainda nas jornadas de junho de 2013, já sabíamos que aquele movimento não era momentâneo. Os arroubos da lei antiterrorismo, paradoxalmente assinada por alguém que sofreu nas mãos do próprio terrorismo, era apenas uma indicação daquilo que estava por vir. Nos anos seguintes, a situação político/eleitoral se agravou, e cada vez mais setores do poder judiciário teimaram em julgar sem as vendas nos olhos. O golpe não veio dos quartéis, mas das togas. Isso deixou todos catatônicos. Alguns juízes desrespeitaram suas funções ao escolher lado, assumiram a mais inóspita disputa fazendo o pêndulo de suas balanças tenderem a um dos lados. Nesse cenário, não há porque falar de vencedores. Todos nós perdemos!

Esse movimento atingiu em cheio setores das camadas sociais. A elite do atraso construiu as tramas de um golpe multi-setorial instalado para estancar a sangria, avançando na consolidação do desmonte social. Ocorre que, com a trama que levou à condenação de Lula em segunda instância e as sucessivas negações de habeas corpus preventivos ao ex-presidente, abriu-se um cenário muito arriscado, que pode desembocar na perigosa eleição de “outsider” midiaticamente programado. O conjunto da esquerda brasileira está provando do seu próprio veneno; que foi depositar num único indivíduo toda sua esperança política. É desastroso observar que apenas uma pessoa é capaz de unificar cores e bandeiras para a disputa eleitoral.

O grande problema é exatamente este – estabelecer uma única referência. Sabendo da nossa limitação, o poder capturou nossas chances, primeiro por conchavos, depois pela lei. De tal sorte que hoje, sem a presença de Lula nos palanques, há um risco iminente de elegermos perigosos profissionais políticos do que nada mais podem ser além de traficantes do poder. Não que o Lula não tenha sido, foi! Todos foram, mas, dada a base do seu partido, foi possível disputar algumas migalhas para o conjunto das maiorias sociais. Foi possível ver alguns pequenos avanços e pequenas vitórias que estão profundamente ameaçadas. Não avançamos para o socialismo de Estado, talvez para uma socialdemocracia melhorada. Contudo, tivemos conquistas definitivamente importantes. Perdemos muito também, e por isso precisamos manter o ambiente de possível disputa entre a base social e o poder governamental.

Pensando nisso, há um antigo samba que diz: o sol não pode viver perto da lua. Aqui entra o desafio de unir aqueles que outro dia adotaram caminhos diferentes. Nesse imbróglio encontram-se PT e PSOL. O mais moço feito ovelha desgarrada quis construir seu legítimo caminho. Já o outro, feito pai infantil, sempre torceu pelo insucesso do filho. As razões são variadas, e cada uma bem legitimada. Mas, como disse Frei Betto, “é momento de abandonar o discurso e organizar o povo”.

Deixo claro meu descontentamento com os atropelos que tomaram conta do processo de escolha do presidenciável do PSOL. Primeiro, o partido desrespeitosamente fingiu não haver pré-candidaturas, mesmo quando havia quatro das melhores opções. Todos com vida orgânica bem desenhada e com muito tempo de militância. Ainda assim, a diretoria do partido de forma cartorial resolveu esperar o desenrolar do cenário envolvendo Lula, determinante para definir a candidatura de Boulos.

Ocorre que estando o poder judiciário, com seu faro de dobermann, está prestes a pegar a principal referência da esquerda brasileira. Associado a isso, o tempo do Tribunal Eleitoral para registro de candidatura, Boulos aceitou ser o presidenciável do PSOL, sob as barbas de Lula. Diante desse cenário, guardadas todas as ressalvas que tenho pelo atropelo do processo, acredito que a esquerda precisa levar a fala do Frei Betto a cabo — “é hora de organizar…”.

Está claro qual foi a opção do PT nesses últimos anos. Tenho ciência que foi o partido que fez a última reforma da previdência prejudicando o servidor público. Conheço suas estratégias no efetivo exercício do poder, cuja retórica não irei me dar ao luxo de repetir, posto que julguei quando optei construir outro projeto político. Não somos inocentes e sabemos bem quem foi o partido que rompeu e dividiu a esquerda em nome da famigerada governabilidade. Sabemos e temos responsabilidade.

Pois bem, outro dia alguém me perguntou: “(…) e se o PT se aliar novamente à elite para manter-se no poder?” Respondi que, mesmo diante de tudo isso, ainda assim eu acredito que é hora de unirmos forças e construir um projeto maior. Há coisas maiores que nos ligam. Por exemplo, a necessidade de organizar a luta contra toda sorte de aberrações que estão por vir da nossa elite do atraso. Eu, não quero me parecer deselegante, mas penso humildemente na mesma resposta do monge quando indagado porque ajudara o escorpião que o picou: “é da natureza dele fazer isso. A minha natureza é ajudá-lo.”.

 

Rafael Silva

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *