Não foi só a queda de um ministro

A crise econômica e a crise moral foram estrategicamente trabalhadas por políticos conservadores e por setores do capital nacional, como indústria e construção civil, e internacional, ligado ao setor petroleiro no sentido de desgastar e paralisar o poder de iniciativa do governo. Durante as eleições de 2014, apostaram em dois movimentos simultâneos: conquistando e elegendo parlamentares por meio de partidos que compõem a base parlamentar de apoio do governo e apostando nas candidaturas de Marina Silva e Aécio Neves, que apresentaram o mesmo programa político e a mesma avaliação sobre a crise econômica.
A estratégia da oposição ao governo foi muito astuciosa e tinha como objetivo avançar como único resultado. No caso da eleição de Marina ou Aécio, não teriam dificuldades para compor uma bancada de aliados fortes e afinada com o projeto de austeridade referendado pelas urnas. No caso da reeleição de Dilma, como aconteceu, avançariam menos, mas com seus aliados eleitos dentro da base de apoio do governo pronto para deflagrar um processo de desgaste do governo.
A campanha desenvolveu-se num clima de disputa acirrada e levou a sociedade a uma clivagem política. O governo conseguiu aglutinar em torno de si apoio de segmentos sociais organizados e individuais; muitos eleitores, mesmo com ressalvas, apoiaram Dilma com medo da volta das políticas de austeridade recomendadas pelo receituário neoliberal que condenou, no passado, milhões de pessoas à condição de miséria. O que se esperava era que Dilma, legitimamente eleita, apresentasse suas medidas de enfrentamento à crise coerentes com o projeto apresentado durante a sua campanha, e se fosse confrontada pelos pseudo-aliados e oposição, que passasse a dialogar diretamente com a sociedade. Entretanto, o que fez Dilma e o PT?
Depois das eleições, sem nenhuma explicação, a presidenta e o PT passaram a fazer política de acordo em gabinete com os pseudo-aliados e sem nenhuma interlocução com a sociedade, acabou cedendo, no essencial, às pressões do mercado, anunciando uma equipe econômica composta por técnicos que se orientam por concepções neoliberais, e divulgou medidas de austeridade, as quais, durante a campanha, jurou que não as implantaria, dizendo: “nem que a vaca tussa”.
Com o avançar das investigações da Operação Lava Jato ameaçando o mandato de vários dos pseudo-aliados, oposição e setores milionários da construção civil e do próprio PT, criou-se uma confluência de interesses entre corruptos e os interesses do capital internacional petroleiro pela queda do governo. Os corruptos querem sair ilesos desse processo e o capital internacional quer ter o controle da Petrobras. A estratégia em curso é a orquestração de uma guerra de baixa intensidade, cuja primeira opção não é o impeachment, mas desgastar, limitar os movimentos do governo até o ponto em que a crise econômica apareça como fruto da inoperância e da incompetência do governo, trata-se, assim, de criar um clima em que se possa passar para a população, pelos meios de comunicação, que o país se encontra numa situação de paralisia. O esperado dessa estratégia são os seguintes resultados: renúncia da Presidenta; ou que o governo siga arquejado até o final do mandato e que seu candidato e partido tenham uma derrota humilhante; e o menos desejável, a cassação, porque pode causar mobilização social em defesa do governo caracterizando a ação do Congresso como golpe.
É nesse cenário de guerra, de baixa intensidade, em que a oposição e os pseudo-aliados apostam no desgaste público do governo, que a declaração do Ministro Cid Gomes foi utilizada. Um Congresso que não tomou nenhuma medida efetiva para afastar a presidência da Câmara e do Senado depois que foram citados na Operação Lava Jato, ficar melindrado e furioso com uma fala genérica que afirma ter, na casa, entre 300 a 400 deputados achacadores, não tem cabimento racional, pois tal atitude revela uma ação política explícita contra o governo. Só mesmo uma população adormecida, cega e manipulada em seus afetos conservadores por uma mídia de massa não reage a tais absurdos. A bancada do PT, mesmo sendo a maioria, está silenciada. Essa paralisia do PT, em parte, explica-se porque a parte podre do partido, envolvida nos esquemas de corrupção, tem o controle da máquina partidária, não gozam de credibilidade; e a parte não envolvida em corrupção, não tem poder de definir os rumos do partido.
Ao permitir que um Ministro compareça ao Congresso, dentro desse cenário de guerra de baixa intensidade, sem ter a garantia da parte de seus aliados de que o mesmo cumpriria apenas uma formalidade para restabelecer as condições mínimas de diálogo e a funcionalidade entre as ações do Legislativo e do Executivo, a presidenta deu sinal de fraqueza e ingenuidade. Se essas condições foram antes acertadas, então ela foi traída e golpeada pelos pseudo-aliados. Assim, a queda do Ministro não foi só a queda do Ministro, foi um avanço de uma estratégia que pode ser comparada a perda de uma torre num jogo de xadrez.
Depois de treze anos no poder, o momento para o PT não é só de avaliação dos erros e de autocrítica, o desafio maior é o de voltar a ter iniciativa política, se comportar como um dirigente político, tomando medidas corretas, para sair do corredor em que foi encurralado pela oposição. E o caminho para pular do corredor, que leva à guilhotina, é a articulação do institucional, refazendo a base de apoio com as mobilizações de rua, em torno de um programa de desenvolvimento coerente com o que foi apresentado na campanha, e da ampliação transparente das ações do governo. A hora de ficar esperando algo de positivo dos pseudo-aliados já passou, chegou o momento de fazer a população compreender, através de fatos claros, que o parlamento se transformou numa cloaca e precisa de um clister que só pode ser aplicado por meio de mobilizações populares.

Uribam Xavier

Uribam Xavier

Graduado em Filosofa Política e Doutor em Sociologia, professor da área de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais. Autor do Livro “O Capital e a Política”, editora Livro Novo, São Paulo, 2012.

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