NÃO É POSSÍVEL QUE NÃO ESTEJAMOS VENDO, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Cena 1: A Mídia Opressiva (designação conferida pelo ministro Gilmar Mendes à Rede Globo e ao jornal Folha de São Paulo) já está desde a madrugada diante da residência de Lula (PT) para dar continuidade ao espetáculo de perseguição ao ex-Presidente. De posse de informações privilegiadas, vai documentar e editar tendenciosamente em seus jornais nacionais a injustificada e violenta operação de condução coercitiva para depoimento na delegacia do aeroporto de Congonhas, cuja intenção velada seria a de dar-lhe ordem de prisão e trasladá-lo para Curitiba. Feito que não foi atingido graças a militares da Força Aérea que impediram tal intuito escuso. STF permaneceu omisso. Juízes permaneceram mudos.

Cena 2: Vaza para a Mídia Opressiva um áudio do diálogo entre a Presidenta Dilma Rousseff (PT) e o ex-Presidente Lula, liberado pelo juiz Sérgio Moro, sem prévia autorização do STF, num flagrante e consciente descumprimento de norma constitucional, o qual não recebeu da parte do CNJ nem do STF a sanção proporcional que lhe caberia num caso de gravíssima agressão à Constituição e a instituição da Presidência da República Federativa do Brasil. Segundo diversos comentaristas internacionais, caso Moro houvesse cometido esse crime nos EUA, teria sido preso automaticamente. STF fez-lhe uma tímida advertência. Juízes permaneceram silentes.

Nesta quarta-feira, 11 de abril, o STF iniciou a análise do Habeas Corpus 143333, impetrado pela defesa do ex-ministro Antônio Palocci (PT), recluso em prisão provisória há um ano e sete meses, pelo juízo de Curitiba. Em suas intervenções, o ministro Gilmar Mendes, uma vez mais abriu sua caixa de ressonância para alertar o Brasil da gravidade do momento que estamos vivendo.

Mendes, ao apartear o ministro Lewandowiski, relatou diálogo que manteve com o dr. Roberto Batochio o qual lhe confidenciara ter de deixar a defesa de Antonio Palocci “porque Curitiba escolhe os advogados que podem defender os réus que querem fazer delação, e eu não sou bem visto nesta roda. Curitiba exigiu o meu afastamento”. Ou seja, Batochio, com seriedade, confidenciou ao ministro que Curitiba mantinha uma lista de advogados que podiam fazer a delação e aqueles que não podiam. Não só, eles escolhem as pessoas que vão delatar.

O ministro Gilmar avança em sua denúncia pública ao relembrar reportagem de 13 de maio de 2017, da coluna Painel, de Daniela Lima, onde se registra que o advogado criminalista Rodrigo Castor de Mattos (dr. Castor), irmão do procurador Diogo Castor de Mattos, integrante da força-tarefa da Lava Jato, atua na defesa de réus delatores. Esse caso se soma a uma série de polêmicas sobre a atuação de parentes de procuradores e juízes em ações vinculadas à Lava Jato. E extravasa: “Não é possível que não estejamos vendo o que está acontecendo? A corrupção já entrou na Lava Jato. Ou alguém tem dúvida do episódio que hoje está nos jornais, da atuação de Fernanda Tórtiman e Marcelo Muller? É um caso sério de corrução. Isto tem que ser investigado e tem que ser dito”.

Por último, o ministro Gilmar assevera um fato gravíssimo: no próprio STJ (Superior Tribunal de Justiça) há ministros tremendo de medo diante de uma ação de habeas corpus por conta da perseguição da Mídia Opressiva. Juízes com garantias de vitaliciedade estão com medo. Estão com medo do Jornal Nacional e da Folha de São Paulo. Preferem se livrar não conhecendo do habeas corpus. “Mas sabe o que eles estão engendrando?”, provocou o Ministro: “O ovo da serpente. Está se empoderando um grupo que não tem controle algum, não se submete a controle algum. Nem mesmo suas sentenças podem ser reformadas”.

Para apimentar ainda mais a questão, no dia 13 de abril, o jornalista Rogério Gentile, publicou uma reportagem sobre Augusto Mendonça, condenado pela Lava Jato a dezesseis anos e oito meses de prisão em regime fechado, por distribuir R$60 milhões de propinas, MAS SENTENCIADO PELO JUIZ MORO A 04 (QUATRO) ANOS EM REGIME ABERTO, depois de haver feito delação e pago uma indenização de R$10 milhões. Na época o juiz disse: “A efetiva colaboração de Augusto Mendonça não se discute” (vide Gentile). Pois bem, Mendonça, segundo a reportagem, é o rei da balada, promovendo festas e mais festas, curtindo em liberdade os benefícios proporcionados pela sentença de Moro.

Mas o que seria o ovo da serpente brasileiro?

Em 2003, o PT iniciou com Lula presidente uma política de governo com o objetivo de resgatar o povo brasileiro das misérias herdadas do sistema Casa-Grande e Senzala, por meio de um modelo de modernidade pelo qual se pretendia implantar, com adoção de políticas públicas afirmativas, a ampliação das oportunidades sociais e econômicas para as populações historicamente oprimidas no Brasil. Mas a cultura escravista presente na classe dominante e em setores da classe média gerou uma fortíssima intolerância aliada ao ódio, alimentada e conduzida pela Mídia Opressiva.

Assim, como dizia Marx, “somos atormentados não só pelos vivos, como também pelos mortos”. Como o Nazismo trouxe os antigos mitos nacionalistas da família, terra e pureza do sangue como resposta ao ressentimento dos alemães imersos no caos hiperinflacionário, da mesma forma no Brasil os preconceitos raciais e econômicos, o ódio e a intolerância ainda presentes como herança atávica da Casa Grande e Senzala (o “quarto de empregada”, o “elevador de serviço”, a “escola pública”, o “só podia ser um preto” etc.) são o combustível para o ressentimento alimentado pelos meios de comunicação. Um ressentimento que estimulou o acirramento ideológico: hoje a classe média, conduzida pela Mídia Opressiva, bate palmas para o financista que ganha sem trabalhar, apenas pela aplicação na especulação financeira dos juros estratosféricos, enquanto o Golpe por ela apoiado penaliza o trabalhador gerador de riqueza por meio de uma reforma trabalhista que diminuiu o tempo de descanso laboral, o tempo de férias, o tempo de aposentadoria.

Para onde nos levará esse ovo da serpente? Segundo Gilmar Mendes o que está acontecendo nesse estamento são grandes patifarias. O Poder sem limites, como lembra Montesquieu, leva ao abuso indefinido e a opressão. E é óbvio que isto já está ocorrendo no Brasil. Ou será que não estamos vendo?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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