“Nada Será Como Antes”: o Clube da Esquina e 45 anos de uma obra essencial à MPB

Escrevo este texto movido por uma longa carga de cansaço e alívio.

Cansaço (e asco) pela atual situação política do nosso país – o que não é mais novidade, apesar de todo dia sermos ridiculamente bombardeados com um novo escândalo vindo de Brasília (ou melhor, de qualquer capital ou cidadezinha do interior por onde os braços da corrupção se arrastam). Cansaço também por um ano de 2017 repleto de trabalho estressante e que me exigiu retirar forças de onde nem sabia que existiam.

Alívio, então, por sentir que junto a este novo 2018 vem aquele fôlego para uma nova caminhada. Com gosto, também, de jornada percorrida. De sol e chuva na nossa estrada. E é de estrada que este texto será permeado a partir daqui, pois falaremos hoje sobre o disco de um artista pelo qual tenho enorme apreço e carinho.

Se falamos de estrada e de jornada dentro da arte e da música, é de se supor que seremos imersos numa aventura, num conto épico tal qual um disco temático que tantas bandas fazem tão bem. Por jornada, supomos também caminho, travessia, cansaço. Neste longo caminho, porém, algo de belo deve existir. Paisagens a se admirar, e delas uma urgência em se transformar todo esse cansaço em poesia, em força, em esperança. Porque, no final da estrada, há de existir um Pomo de Ouro, um Graal, ou um tesouro além do arco-íris. Assim, o bom viajante busca transformar dor em doçura olhando além do óbvio, criticando o que está errado. E quando um artista consegue fazer isso de forma tão bela, têm-se aí uma obra grandiosa. Pois são essas qualidades que encontramos em Clube da Esquina, do grande e amado Milton Nascimento.

 

Não lembro ao certo quando comecei a me interessar pela melancolia doce em sua grande voz. Tal como um banzo, uma canção africana, seu canto é também embalado no doce mineiro em seu jeito quietinho de viver com candura e tenro olhar pelo mundo, pelas pessoas, coisas e momentos. Pois “Bituca” foi sempre assim: cercado de gentes, canções e instantes que se demonstravam belos a cada encontro, a cada parceria e composição. E são todos estes (e muito mais) sentimentos que ouvimos no clássico álbum que dá título a este artigo.

 

Mas essa jornada não passa por batalhas épicas ou paisagens sonoras futurísticas. Acontece aqui mesmo, em nosso Brasil, no país sitiado de 1970 e pouco com suas tantas feridas abertas, mas também com infinitos caminhos e belezas. São mais de 45 anos de uma obra de suma importância à nossa MPB. E foi em parceria com outros grandes mineiros como Lô Borges (seu principal parceiro no disco em questão), Ronaldo Bastos, Wagner Tiso, Flávio Venturini, Márcio Borges e Fernando Brant que Milton entregou uma obra cuja força poética e sonora elevou-a merecidamente ao panteão de nossa música. Juntos, ainda fundaram o movimento musical que ia moldar suas vidas e à toda a história da MPB: o Clube da Esquina.

Os músicos do Clube da Esquina no lendário encontro com o (também mineiro) presidente Juscelino Kubitschek.

Lançado em março de 1972 , o disco homônimo  nascia num tempo onde a Ditadura cantava em uníssono as mesmas notas dos fuzis e dos berros de tortura nas câmaras dos militares, com as veias da América Latina arregaçadas por um período sanguinolento, incerto, turvo e dual. Porém, propunha – e conseguia majestosamente – narrar e transformar a brevidade do tempo, as dúvidas e a tortura social em contos paralelos de afável poesia, em prazeroso caminhar e ainda em voz de combate, de resistência e bravura.

A icônica capa do disco.

As letras são um banho de poesia e subversão, nem sempre nesta mesma ordem. Tudo o Que Você Podia Ser abre a obra narrando o fim da esperança (“Você queria ser o grande herói das estradas […] Só pensa agora em voltar / Não fala mais na bota e do anel de Zapata”), a desistência da caminhada, a mudança de pensamento lamentando coisas que podiam ter sido feitas.  Ao fim de Cais, o som que se propaga a estibordo com as últimas notas do piano lembram a despedida de um navio indo distante rumo ao leste: “Para quem quer me seguir eu quero mais / Tenho o caminho do que sempre quis / E um saveiro pronto pra partir”. 

Saídas e Bandeiras Nº 1 nos envolve num curto e delicioso mergulho (a música tem 45 segundos!) mencionando a exploração do nosso território abandonado à rotina de algo que praticamente “não dá mais pé”. A aventura chama ao desbravar das planícies e montanhas, o mudar de espaço e de meta: “Sair desta cidade ter a vida onde ela é / Subir novas montanhas diamantes procurar / No fim da estrada e da poeira / Um rio com seus frutos me alimentar”. Em sequência, a onírica Nuvem Cigana te pega pela mão e promete que“se você vier eu danço com você no pó, poeira, na ventania.” Logo após, somos abraçados de forma irresistível pelos deliciosos aromas do café da “morena quem temperou o cheiro do cravo na cor de canela” na gingante Cravo e Canela. 

A obra continua com passagens brilhantes como “se eu cantar não chore não. é só poesia. eu só preciso ter você por mais um dia”. No coração americano, fica “um sabor de vidro e corte” – prenúncio para uma espera na fila imensa, com seus sinos ao final badalando e anunciando a chegada de algo (um novo tempo ou um trem partindo?). Porque “na minha cidade a gente aprende a viver só”  / “qualquer dia é sempre mais um dia de lembrar a cordilheira de sonhos que a noite apagou”. Mesmo assim, é possível sempre pensar e ver que “o homem é mais sólido que a maré”. 

Poderia transcorrer muito mais sobre os tantos bonitos aspectos desta maravilhosa obra. Mas é melhor ouvir e sentir por si mesmo as tantas travessias – ora tensas, ora tenras – do atemporal Clube da Esquina. Tirar de cada canção um significado é tarefa mais do que feliz e da qual sempre vale a pena parar um pouco para ouvir, no meio de nossas tão atribuladas jornadas diárias. É quase como se o tímido sorriso deste querido e grandioso ouro de Minas chamado Milton Nascimento nos acalentasse a alma em tempos de tanta espera na fila imensa da vida, na enorme e congestionada estrada da esperança.

Excelente audição a você. Garanto que, após se deixar levar por essa estrada, Nada Será Como Antes! 

Salve Bituca!

REFERÊNCIAS:

https://tuliovillaca.wordpress.com/tag/milton-nascimento/

http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/67/sou-do-mundo-sou-minas-gerais

http://piaui.folha.uol.com.br/questoes-musicais/san-vicente-e-a-america-latina-de-milton-e-brant/

 

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento, apaixonado incurável por música, literatura, grandes cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: sergiodmcosta@gmail.com

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