Meu Deus, uma pessoa!

“Diga lá, meu coração
Conte as histórias das pessoas
Nas estradas, dessa vida (…)”.

Gonzaguinha. Diga lá, coração.

“Quando doentes, as pessoas podem ser cuidadas;
ao assumir a posição de contadoras de histórias,
estas mesmas pessoas passam a cuidar de outros.”

Arthur W. Frank

Na vida de qualquer pessoa pode ocorrer uma mudança brusca. O inesperado  amolece o  chão porque somos acostumados a criar um mapa de mundo tecendo sonhos, projetando futuros, planejando caminhos e cumprindo um rigoroso passo a passo. A lógica é simples: se fizermos tudo certo, tudo dará certo. Mas no território aberto pelo inesperado o mundo parece mudar abruptamente de linguagem. Jogados num lugar estrangeiro, temos que aprender novos hábitos, outra língua e novos significados de gestos, sons, cheiros, olhares. Além disso, toda mudança incisiva tributa uma parcela de desamparo. Perdemos o chão que pensávamos permanentemente firme e aos poucos entendemos que é preciso começar a construir algo no buraco que foi aberto à nossa revelia.

Recentemente li “Cartas de Beirute: reflexões de uma mãe e feminista sobre autismo, identidade e os desafios da inclusão”, escrito por Ana Nunes e fiquei muito tocada pelo livro, de um jeito que só acontece quando temos a oportunidade de ler alguém que se desnuda.  Num mundo construído pelas palavras do patriarcado é indescritível o sabor de ler narrativas construídas por mulheres fortes. No caso de Ana Nunes esse dado particularmente se revela na escrita de suas cartas, que exibem o distanciamento entre o que são discursos de inclusão e o que efetivamente acontece “na carne” com quem lida com casos de deficiência na família. Dói. Rasga por dentro. Desnorteia. A autora diz que é “a morte do futuro imaginado” (p.15).  Nessa nova configuração imposta só nos resta aprender a elaborar o luto. Passada essa fase, já que o antigo futuro foi descartado, um novo deve ser criado. E é nesse momento de ultrapassagem do que foi que a gente entende que pode ter muito a ensinar aos outros, como a Ana nos ensina nesse livro. Porque há muito para fazer. Porque o preconceito ainda reside em nossos olhares que cobram tributo de quem não deve pagar. Porque ainda continuamos a naturalizar o olhar da medusa.

cartas-de-beirute

Mas o que exatamente esta fala significa? Trazer uma voz para um lugar onde antes era o espaço do não dito? Dentre tantas possibilidades que dariam mais significado e generosidade à nossa humanidade seleciono apenas uma, que é fundamental para começar qualquer pensamento sobre inclusão: somos seres mergulhados na cultura e nos habituamos a ver o mundo por um modelo normativo minuciosamente cultivado por discursos de poder. Introjetamos que “o certo é ser assim”. Isso vale para o olhar que lançamos aos gêneros, à religião, à beleza, ao vestuário, “à deficiência” e tantas outras percepções que a cultura propaga para “como devem ser as pessoas”.

Entretanto, estar na cultura não significa estar na cultura do imobilismo. Por isso a Ana Nunes e tantas outras pessoas que sentem esse viver profundo falam. Para incluir quem está fora. Para tocar as pessoas sobre nossa fragilidade, incerteza e capacidade de poesia.  Para conscientizar e, para  dizer às pessoas que “têm um filho com deficiência que eles não estão sozinhos”. Para mudar a cultura que exclui quem é minoria e que sofre ainda mais com as restrições sociais. Afinal, “lugar de pessoa com deficiência é em todo lugar” (p. 26).

A leitura de Cartas de Beirute me levou para muitos mundos. Lembrei do grupo de mulheres “sem lugar” na escrita da iraniana Azar Nafisi. O livro “Lendo Lolita em Teerã” narra a experiência de enfrentar uma série de cerceamentos, inclusive a proibição de ler no regime imposto pela revolução islâmica.  Clandestinamente, oito mulheres reuniram-se semanalmente para ler obras proibidas pela revolução e compartilhar angústias e sonhos. A obra foi baseada numa experiência real da autora, que era professora universitária em Teerã.

Outra história lembrada foi a de Leymah Gbowee, autora de “Guerreiras da Paz”. Contemplada com o Nobel da Paz em 2011, ela narra o enfrentamento das mazelas de uma guerra civil brutal na Libéria ao longo de catorze anos. A Libéria é um país que foi fundado por escravos libertos saídos da América. Leymah Gbowee conta que já na fundação dessa nova história coletiva iniciaram as contradições, pois “os escravos libertos vieram e fizeram à população indígena o que lhes tinha sido feito”. Movimentos como esse desconstroem uma falsa impressão de linearidade das narrativas históricas. Um acompanhamento mais aguçado indica que a História é construída em intensos retornos, entrecruzamentos, reviravoltas e retrocessos. Nesse sentido, se há a criação de caminhos novos, há também o perigo dos ineditismos que podem servir como capas protetoras para muitas repetições.

Durante as fases mais sombrias, quando os escombros físicos e psíquicos da guerra minavam as possibilidades de esperança de alguma reconstrução, ela conduziu um movimento de cuidado de meninas e mulheres que foram abusadas e estupradas. Liderou um grupo de mulheres que todos os dias protestavam, vestidas de branco,  numa rodovia pela qual o ditador do país passava diariamente. Lá escutavam toda espécie de xingamentos: “prostitutas, bando de nulidades, mulheres frustradas”. Num determinado ponto, Gbowee afirma que só foi capaz de ajudar outras mulheres quando enfim conseguiu falar sobre suas próprias dores.

Há algo fantástico na força que movimenta a ação de uma pessoa e que afeta tantas outras. O sofrimento humano precisa ser compartilhado, as vozes silenciadas pela opressão necessitam de um caminho para fluir. O fio desta história fez conexão com alguns trabalhos da artista Rosana Paulino, principalmente nas obras da série “Bastidores”. O tema recorrente das obras da artista é o lugar da mulher negra na sociedade brasileira. Filha de bordadeira, Rosana tomou gosto pelas costuras e panos, simbolizando a violência do que foi vivido na História até nossos dias pelas bocas costuradas.

imagem-1

imagem-2

O impacto das bocas costuradas traz o incômodo de uma história ainda viva e que não pode ser silenciada por um falso discurso de inclusão. A história de todas as minorias é a nossa história. Num momento do livro Ana Nunes fala dos encantos de Beirute. Este lugar “diferente” é um lugar cheio de afeto e amorosidade. Enfim, precisamos falar mais sobre a deficiência, sobre autismo, sobre ampliar nossa capacidade de fazer laços. Então, chega um determinado momento do livro que a autora exclama: “Meu Deus, uma pessoa!”. Foi exatamente o que eu disse, Ana, quando terminei de ler tuas Cartas de Beirute.

Ana Valeska Maia Magalhães

Ana Valeska Maia Magalhães

Advogada, graduada em Artes Visuais, graduanda em Psicologia, aluna da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza e Mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE. Autora dos livros “Pulsão Irrefreável: arte contemporânea no feminino” e “Tessituras: em contos, crônicas, poesias e imagens”.

Mais do autor

1 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *