Mesa de bar – agosto, (dil)mês para temer? por Luciano Moreira

– Amigos meus, que bom revê-los felizes e saudáveis!

– Professor, a gente pensava que você não fosse aparecer…

– Sim, pra quem sempre chega antes de todos nós… pra quem sempre abre os serviços da confraria… atrasar-se assim preocupa, amigo.

– Desculpem-me! Tive de enfrentar um pequeno contratempo de natureza familiar… nada demais. Sintam-se abraçados, todos vocês. Prossigamos, prossigamos. Afinal, pra frente é que as malas batem…

– E o agosto, hein! Quem diria…

– Dizem ser ele um mês sempre complicado, com sexta 13 ou não. O mês das cobras, para a sabedoria matuta. Um dilmês para temer. Perdão pelo neologismo e pelo trocadilho.

– Embora este tenha sido riquíssimo. Vai entrar solenemente na história pátria. Alguém duvida?!

– Mais um agosto histórico, não é professor…

– Pois é, doutor. Vai juntar-se, nos compêndios futuros, ao do suicídio de Vargas, ao da morte em acidente automobilístico de Juscelino, ao do acidente aéreo que vitimou Campos… E, quem sabe, inspirar um outro Rubem Fonseca a transformá-lo em outra “quase crônica-política ou quase-romance”, que virará minissérie global. Não é assim que as coisas funcionam?

– Amigos, convenhamos, este agosto começou muito bem. Ainda me emociono ao lembrar-me do desempenho dos brasileiros na Olimpíada do Rio. Todos eles. Dos organizadores aos voluntários. Dos atletas de renome aos colaboradores anônimos. A solenidade de abertura dos jogos mereceu o pódio dos eventos memoráveis, com méritos. O mundo se rendeu à capacidade de quem tem alma festeira, à criatividade de quem sabe encantar a todos com arte, com brilho, com maestria, com elegância, com alegria.

– E com inteligência crítica. Um espetáculo, na mais plena acepção da palavra. E, vejam os senhores, a de encerramento não deixou por menos. A música popular brasileira, acompanhada da ginga, da matreirice, do jeito diferente de ser, fez os gringos dançarem, bailarem… e, extasiados pela inebriante vivência, aplaudirem. O acender e o apagar da pira olímpica, algo inusitado, diferente e belo. Arte, simplesmente arte.

– E o Brasil pôs seu bloco na avenida para encantar o mundo!

– E tudo isso entremeado de emoções, superações, tensões, consagrações, frustrações… Tudo muito humano, demasiadamente humano. E, se falhas houve, elas também carregaram o tradicional “made in Brazil”, com direito ao carimbo “ISO 9000”. Nem o mosquitinho triviral foi capaz de enevoar a festa.

– E as vaias?!…

– As vaias, sim senhor. E por que não. Não há que se envergonhar delas. Era o espírito do brasileiro em todas as suas dimensões. Um povo que tem como ícone da liberdade, da independência, um grito, nada mais natural que o eco das vaias a comunicar sentimentos de desaprovação, de inquietação, de insatisfação. Olimpíada em padrão bem brasileiro.

– Era assim como temer a vaia ou vaia a temer. Qualquer autoridade pública, com algum viés político-partidário, que se atrevesse a dar o ar de sua graça (ou desgraça), iria ser recebido com vaias consagradoras. Alguém temeu e delas escapou. Alguém não temeu e teve de ouvi-las. Fez parte do crucial momento vivido por todos nós.

– Pois é. Em síntese, um evento universal conduzido bem ao estilo do brasileiro. Alguém duvida de que é isso que genuinamente somos? Eu não.

– Um outro olhar, amigos meus. Vocês já imaginaram se a honestidade e a honradez constituíssem uma modalidade olímpica… e se o Brasil entrasse na disputa e alcançasse uma medalha – a de bronze, que fosse! – em tal modalidade… Quem de nós duvida que seríamos uma potência mundial. Jeito temos; falta-nos a vontade.

– Bem, por falar em honestidade, eis que o processo de impeachment da presidente (ou presidenta) chega à fase final.

– Ufa! Até que enfim! As repetições, as mesmices causam enfado.

– E como esse custoso processo tem revelado o que de ruim se passa nas entranhas do poder! A gente tem uma certa noção da coisa, mas ver as aberrações, as diatribes…

– As o quê, mestre?!

– As afrontas, as ofensas, os insultos, chega a constranger… E pensar que nós os colocamos lá!

– Concordo, mestre. Constrange ouvir o presidente da Casa dizer que o Senado se transformara num hospício…

– A meu ver, uma falta de consideração e de respeito aos hospícios… Nada mais que isso.

– Vexaminosa e deprimente foi a troca de acusações entre “a loira de nariz arrebitado”, pondo em xeque a honradez de seus pares que, segundo ela, careciam da dignidade exigida para a função de julgador; “o trator de esteira do agronegócio”, impingindo à sua desafeta, embora indiretamente, o cometimento da prática marginal de apropriação indébita de recursos de aposentados; e “o intimidador atleta carioca”, acusando o “sepulcro caiado” de aproveitador do trabalho escravo e dele recebendo o insulto de ser adepto ao uso de drogas. O submundo da política tupiniquim. A fétida lama sob um vestuário de grife. Uma vergonha…

– Isso mesmo, professor. Envergonha-nos toda essa ópera bufa. Que nada de positivo acrescenta à expectativa de se criar uma via alternativa, um outro túnel com luz em todo o trajeto, com vistas à solução de nossos problemas cruciais. A democracia brasileira se arrasta num grave momento de desconforto, de dramaticidade até. A política nacional experimenta um estágio de extrema tensão. E seus agentes, regra geral, não demonstram sequer humildade na busca de revisão de conceitos, de mudança de comportamentos, de reavaliação de sua real importância para o país. Alonguei-me no discurso. Mil desculpas, amigos.

– Nada demais, mestre. Isso que você diz é uma verdade nua e crua. Infelizmente. E o horizonte não nos sorri com alvíssaras. Com que perspectivas nos acenam os cuidadores do nosso futuro?! Com que propostas, com que projetos pretendem eles convencer-nos de que daqui pra frente tudo será diferente?! Com que parcela de sacrifício eles se propõem a participar da profunda e urgente reforma dos sistemas de poder que acabaram por destruir os nossos sonhos de vida melhor?! Com que disposição altruísta, eles admitem submeter-se ao processo de reconstrução moral da classe em que se incluem e que os permitem auto- intitular-se lídimos representantes do povo?! Como vocês veem, a situação pós-impedimento, qualquer que seja o resultado, é por demais complexa.

– Doutor, louvável a sua posição crítica, a sua reflexão. Ultimamente, tenho ouvido discursos e lido textos de excelente qualidade, com alto teor persuasivo. Assinam-nos agentes públicos que assumiram ou ainda assumem funções republicanas do mais alto nível. Mas que, a meu ver, se perdem, todos eles, na encruzilhada política em que a pátria-mãe gentil ora se encontra, com todas as suas danosas consequências. Restringem-se, todos eles, à reverberação dos mantras partidários que, convenhamos, já nos incomodam pela mesmice: golpe ou farsa; inocorrência de crime de responsabilidade; ilicitudes que, remontando a governos anteriores, adquirem revestimento legal; aniquilamento da democracia; governo ilegítimo; injustiça contra quem se elegeu pelo voto popular. E a nossa vã esperança de dias melhores não passa sequer pelas lentes desses senhores tão lúcidos, tão loquazes, tão profundos conhecedores do que se vai pelos desvãos do poder pátrio. É desencorajador.

– Amigos, que tal um brinde a Baco?

– A Baco, pois. Afinal, o que não tem remédio, remediado está.

E a conversa enveredou pelos caminhos do futebol.

Post Scriptum: A Confraria Mesa de Bar reúne-se, ordinariamente, aos domingos, após a missa matinal na capelinha do bairro, e extraordinariamente nos feriados e dias santos. Sem pauta definida, mas com um bom papo sempre regado com cerveja estupidamente gelada – o néctar dos deuses do nosso peculiar olimpo.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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