MESA DE BAR (Ordinários ofícios) Parte III, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

– Mestre, a referência feita a uma das mais inquietantes e atuais frases de Rui Barbosa encorajou-me a trazer ao conhecimento dos meus pares uma experiência de sala de aula, uma vivência que reputo bastante gratificante para um velho professor de jovens adolescentes, ainda imberbes, e que não perde o prazer de ser um eterno aprendiz.

“Como é sabido por todos vocês, sou professor de Língua Portuguesa em escola de ensino médio. Em face de uma demanda até então não atendida convenientemente, criamos – docente e discentes, com o aval da coordenação – um projeto, simples tanto na essência quanto na execução, mas que vem se mostrando rico nos objetivos e nos resultados alcançados. Basicamente, reservamos – a cada quinzena, ou seja, uma semana sim outra não – uma de nossas aulas, geminadas que são, para uma conversa franca e clara sobre temas da atualidade ou assuntos de interesse dos aprendizes, mas sem pauta prévia. E mais interessante ainda: sem anotações e sem relatórios escritos. Ou seja, sem barreiras e sem cancelas. Como bem dizia Millôr, ‘Livre pensar é só pensar’.

“Na última sexta-feira, com a turma ocupando carteiras distribuídas em forma de meia lua, iniciei a conversa falando sobre preconceito sociolinguístico, salientando que o usuário ideal de qualquer língua é aquele que se comporta naturalmente em quaisquer ambientes linguísticos, respeitando os falares dos indivíduos que circunstancialmente os compõem, afastada, necessariamente, a atitude preconceituosa engastada na dicotomia ‘certo versus errado’. Afinal, não se vai à praia de paletó, gravata, calça social e sapatos de couro, mas também não se deve ir a um casamento – religioso ou civil – vestido em trajes de banho, mesmo sob a tradicional proteção da toalha envolta no corpo. A Gramática, obviamente, tem a sua validade; restrita, convém admitir-se, ao uso oficial ou formal da língua. Embora na vertente vulgar, preservada sempre esteja uma das estruturas gramaticais basilares: sujeito, predicado e complementos. [‘Três muié ou três irmã, três cachôrra da mulesta, eu vi num dia de festa, no lugar Puxinanã’]. E isso é possível verificar, por exemplo, nesses versos de Zé da Luz, no poema matuto AS FLÔ DE PUXINANÃ.

“Percebendo o interesse dos ouvintes, assinalei ser a Gramática um conjunto de regras, de normas, estabelecidas por especialistas nesse mister, os quais as embasam no uso de escritores consagrados, em suas aclamadas produções textuais, literárias. É algo que deriva, pois, do uso clássico – que desborda para o formal ou oficial – da língua e que acaba por impingir-lhe um padrão. Acrescentei que também há gramáticas em outras manifestações científicas, como bem observam, por exemplo, os estudos sociopolíticos. E a referência a ‘político’ despertou outros interesses do grupo.

“Um jovem indagou-me, então: ‘E por falar em político, professor, o senhor tem alguma ideia de como acabar de vez com a corrupção?’. Ajeitei-me na cadeira e submeti a questão à avaliação do grupo. Como ninguém se dispôs a manifestar-se, respondi mais ou menos assim: Meus caros, não se trata de uma empreitada fácil, obviamente. Li, recentemente, matéria publicada em revista de circulação nacional que destacava o fato de a Suécia haver descido, alguns tempos atrás, ao nível mais preocupante de todas as nações acometidas pelo cancro da corrupção e de, após reação exemplar, atualmente ocupar um dos primeiros lugares na lista das que extirparam completamente esse mal.

“Um outro jovem interrompeu-me: ‘Professor, como eles conseguiram isso? E, se eles conseguiram, nós poderíamos também?’. Uma garota de óculos e cabelos negros encaracolados, pronunciou-se: ‘Acho que alguma saída pra tudo isso, se houver, deve considerar a nossa forma de ser, de agir. Não acredito na europeização de nossos problemas’. Silêncio. Deixando transparecer minha concordância com o que houvera dito a aluna, afinal, queiramos ou não, AQUI O NEGÓCIO É DIFERENTE, esclareci: Afirmam os estudiosos que a passagem se dá necessariamente com o envolvimento de todos os cidadãos e abrange uma ou duas gerações, cerca de trinta anos. Um outro garoto complementou: ‘Quer dizer, professor, que todos nós deveríamos abraçar essa ideia?’. Aquiesci: Isso mesmo. Trata-se de um complexo projeto de recuperação comportamental, em que se impõe evitar a prática de qualquer ação que corresponda a qualquer tipo de corrupção. Significa dizer que, antes de apontar para outrem, devemos – nós mesmos – corrigir pequenas e recorrentes falhas comportamentais com que alimentamos, cotidianamente, toda a cadeia que produz e nutre o monstro da corrupção. Nessa perspectiva, jovens, até o ato de votar se torna crucial. E essa mudança teria de ser iniciada o mais rapidamente possível, até para possibilitar o usufruto de seus benefícios pela geração de vocês. Quanto à minha…

“A líder do grupo dirigiu-se, então, a todos os presentes: ‘O que vocês pensam sobre a possibilidade de escolha de alguém para cumprir um mandato tampão na presidência da República?’. O jovem com jeito de nerd mostrou-se crítico: ‘O país, o povo parece gostar mesmo é de festa. Futebol. Carnaval. Eleição. Não avalia sequer a relação custo-benefício do processo. Demonstra não ter a mínima ideia de quanto o país despende, em tempo e dinheiro, para bancar e realizar uma eleição em nível nacional. O ideal é que votássemos sempre. Mas com o país em meio a uma gravíssima crise financeira, com que recursos? Caixa um ou caixa dois, eis a questão! Que empresários vão entrar na festa? E com que interesses? Sem falar nas opções que se nos apresentam no momento. Que opções, amigos! Os mesmos heróis de sempre. Convenhamos…’ ‘Mas vocês não acham – interferiu a jovem de cabelos pintados de vinho bordô – que alguma mudança tem de acontecer?! O governo Temer acabou-se, né? Na pior das hipóteses, a indicação de alguém que tocasse o barco até as próximas eleições… o menos mal, vocês me entendem, né? Ora, dirão vocês, mas quem vai escolher é a mesma galera que roubou da Nação… sei não! É uma encruzilhada… e eles nos meteram nela’.

“A conversa prosseguiu com elogiáveis ganhos na arte de debater, de argumentar, de persuadir. Havia tendências – umas bem claras; outras nem tanto –, mas nenhum deles mostrou-se intransigente em suas opiniões. Ninguém deixou transparecer qualquer tipo de apego a agremiações partidárias, a salvadores da pátria. Em resumo, o encontro propiciava um acalorado e saudável embate de ideias e não uma acirrada e perigosa luta de vontades.

“O clímax se estabeleceu, senhores, quando o menos falante do grupo, que sempre demonstrou aversão a tudo o que diz respeito a políticos, encaminhou a sua questão. Ganhou do grupo o silêncio e a atenção. E sua voz juvenil ecoou no recinto: ‘Tio, o Brasil ainda vive uma democracia? Pelo que aprendi até aqui, democracia é o regime político em que o povo exerce a soberania. E isso, pelo menos pra mim, não passa de utopia. Não me sinto representado por qualquer desses que usam o poder em benefício próprio. Acho que ainda há república, mas democracia… atualmente nada vejo que possa me convencer de sua prática. E o senhor, o que pensa de tudo isso?’. Essa questão, assim colocada, vinda de um jovem ainda em formação, mexeu profundamente comigo, com meus conceitos, com meu senso crítico. O meu papel de professor salvou-me. Então, procurei ser didático: Garoto, o seu conceito de democracia está perfeito. Soberania popular. E como isso se processa? Eis a questão. A democracia plena, em nações de grande porte como a nossa, se inviabiliza por ser de todo impraticável. Adota-se, então, a democracia representativa. Os eleitos representam, por conceito, o povo que os elegeu. Assim, à medida que eles sobrepõem os seus interesses individuas ou de classe aos interesses públicos, atingida de morte estará a representatividade e, por extensão, o modelo de democracia nela assentado. Em meio a essa crise política que nos abate, cidadãos conscientes de seus papéis sociais, há quem assegure a resiliência das instituições democráticas – a Presidência, os Ministérios, o Congresso, os Tribunais, por exemplo, bem ou mal permanecem funcionando; e isso, a meu ver, é o que ainda mantém viva entre nós a tão desejada democracia.

“Alguém interferiu: ‘É como o senhor disse há pouco: AQUI O NEGÓCIO É DIFERENTE’. Com um sorriso meio frouxo nos lábios, com ele concordei. Mas o garoto deu-nos um xeque-mate, um cruzado no queixo: ‘Tio, colegas meus, por tudo o que já vimos, ouvimos e lemos, será que poderíamos concluir que, no Brasil de hoje, impera a cleptocracia participativa?! Em que o poder é exercido por quem assalta o erário e o produto do roubo é dividido entre eles?! Pensem nisso.’

“Mestre, permita-me encaminhar a rodada de cerveja. Amigos, brindemos a Baco, o nosso deus da alegria.”

E, por alguns instantes, nada mais foi dito; mesmo porque nada foi perguntado.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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