MESA DE BAR – o intruso, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Eis por que, diz Platão, é mais fácil ser acreditado quando se fala de coisas da natureza divina do que de coisas de natureza humana; pois a ignorância dos ouvintes abre bela carreira aos argumentos inverificáveis. (…) E apesar dos desmentidos contínuos que lhes infligem os acontecimentos, (…) não cessam de se entregar à sua mania, de pintar com o mesmo carvão o preto e o branco.” [Michel de Montaigne, em ENSAIOS. Trad.: Sérgio Milliet. Coleção: Os pensadores. Nova Cultural: São Paulo (SP), 2000. Vol. 1, págs. 203/204].

Mal nos sentamos à mesa zelosamente ornada, sem adornos nem enfeites, mas com a simplicidade de uma toalha branquinha e limpíssima que a encobre até à metade de suas rijas pernas e que sempre reflete os propósitos da confraria e, bem mais ainda, o perfil demasiadamente humano de seus confrades, e sem que nos permitisse sequer dar início aos preparativos para mais uma versão etílico-gustativo-abstergente* dos “ordinários ofícios”, ele emerge do nada, solene e destemido, decidido a invadir o espaço que, até então, parecia ser de nosso exclusivo usufruto. Já arrastando uma das cadeiras da mesa ao lado que, como logo vimos, serviu-lhe de assento em nosso meio, assim a nós se dirige:

– Amigos, bom dia!

– Bom dia! – A resposta em uníssono dos membros do grupo carrega um significado de surpresa, embalada com certo grau de insatisfação, certamente não percebido por ele, que prossegue ousado no seu desiderato:

– Permitam-me partilhar de suas vivências, nem que seja por alguns instantes. Confesso que costumo acompanhar a conversa dos senhores, enquanto confabulo com Baco, em algum desses altares dispostos em ambiente tão agradável.

E nós, anestesiados pela visita inesperada, ou melhor, pela intromissão indesejada, mantivemo-nos em silêncio e cabisbaixos. Só o decano lhe dava a atenção. Ele continuava a sua elocução:

– Para encurtar o meu tempo aqui [Todos nós ensaiamos um breve e incontido sorriso de “Graças a Deus!”], vamos direto ao assunto. Embora sabendo que os senhores se debruçam sobre temas os mais variados, venho percebendo que a crítica mais ferrenha tem sempre como alvo a classe política, os políticos de modo geral. Desde já, deixo claro que concordo com o posicionamento que adotam em relação ao momento atual da política brasileira. Crucial, diga-se a bem da verdade. Permitam-me, no entanto, discordar do entendimento do grupo quanto a imputar apenas aos políticos a responsabilização por todas as mazelas que ora nos afligem, pela situação caótica ora vivenciada por nossa pátria, mãe gentil, e por todos nós, seus desamparados filhos. Há uma categoria, senhores, que, com seus injustos privilégios – como, por exemplo, alto salário de ingresso, estabilidade no emprego, reajustes acima da inflação e aposentadorias integrais –, suas infames mordomias e seus injustificáveis auxílios – creche, refeição, moradia, telefone, gasolina, paletó, etc. –, concorre efetivamente para a abusiva cobrança de impostos e para o descalabro econômico e financeiro do país. Eu lhes pergunto, senhores, o que pensam acerca dos servidores públicos e o tratamento privilegiado que lhes é dado?

A peroração do intruso incomodou-nos, perturbou-nos. Sentimos fervilhar o sangue nos seus dutos e condutos e alvoroçar-se a sequência de conexões nas sinapses, enquanto o espírito desejou adejar por outros espaços menos caóticos. A tranquilidade e a solicitude do decano, qualidades que reafirmam a sua condição de líder, fizeram-nos readquirir o entendimento de que nem sempre ao ser humano cabe seguir rigorosamente as leis da Física, porquanto, se às vezes dois corpos podem ocupar o mesmo espaço [Tentem isso, quando puderem, amáveis leitores e leitoras, e, sob a égide do Amor e a concupiscência de Eros, no altar de Afrodite!], nem sempre a reação deve ter a mesma intensidade da ação. Os seres mais longevos cultuam e exercitam a prática de proteger o outro lado da face esbofeteada com o não levantar do braço para o idêntico revide.

– Amigo, saboreie conosco o manjar dos deuses. É o que o grupo tem a lhe oferecer agora. – E, voltando-se para o senhor do bar e restaurante (o tira-gosto, à base de carne-de-sol assada na brasa, já enfeitava a mesa e aguçava, com seu cheiro bem peculiar, as nossas glândulas gustativas): – Por favor, traga tulipa e talher para o amigo aqui e mais uma geladíssima para todos nós!

Com o semblante de quem detém o controle das coisas ao seu redor, serviu-nos a todos e convidou-nos ao brinde de abertura de nossas atividades, com o intruso agindo como se fosse um de nós. Ato contínuo, deitou-nos um olhar de bom senso e circunspecção, como se peticionasse a devida autorização para representar-nos, o que, de resto, já detinha naturalmente. E, com a voz pausada e firme, pronunciou-se:

– Devo adiantar que compomos um grupo de servidores públicos federais, aposentados, cuja única exceção seria um mestre do sistema privado de educação, não fosse ele tão bem casado com uma servidora pública federal e aposentada. Assim, desde já apelo para a sua compreensão, amigo, pois eu não sei se o senhor sentou-se num formigueiro ou cutucou a onça com vara curta ou meteu a mão em um vespeiro. Asseguro-lhe, entretanto, que a nossa reação não se fará de forma agressiva. A vida não nos reserva mais tempo suficiente para comportamentos do gênero. Até já negociamos com o Homem, quando Ele generosamente nos concede audiência, uma forma de assumir natural e oportunamente o nosso quinhão eterno. Pelo menos, lá seremos amigos do rei!

Todos rimos, inclusive o intruso. O mestre manteve o comedimento.

– Deixemos de lado os prolegômenos. Vamos à questão de mérito. Todos nós somos concursados. Concorremos em disputadíssimos certames, por um lugar ao sol, por um futuro melhor e por nos sentirmos capazes de e dispostos a prestar um bom serviço à pátria. Atendemos criteriosamente às condições que nos foram impostas. Em outras palavras, agimos de acordo com as regras do jogo. Se nos ofereceram os melhores salários – algo que, a meu exclusivo ver, não resiste a uma série de argumentos bem fundamentados –, é porque pretendiam atrair os melhores quadros. O que, modéstia às favas, realmente fomos. Demos à pátria os melhores anos e as melhores horas de nossas vidas. Conscientes estamos de que fizemos a máquina funcionar… e bem! Servimos ao público, no limite de nossas competências. Estivemos no “front” e lutamos as mais renhidas e gratificantes batalhas. Nada nos envergonha. Nada enxovalha a nossa trajetória profissional. Ao contrário. Só o saudável orgulho que isso nos causa ainda nos mantém resilientes ante os ataques hostis que historicamente nos dirigem. Assim com Sarney e o não-disparo do gatilho por dois meses consecutivos em meio a uma inflação já próxima dos três dígitos. Assim com Collor e a insidiosa caça aos marajás. Assim com Cardoso e a abrangente reforma previdenciária; e administrativa, também! Assim com Lula e a manutenção de todas as perdas que os outros nos impuseram. Assim com Dilma e o inconsequente tratamento dispensado aos por ela rotulados de “sangue azul”. Assim com Temer e seus projetos desqualificadores do serviço público, sem falar nas reformas – necessárias, mas não por nossa culpa – que se restringem à classe trabalhadora, como se dela também não dependessem o crescimento e o desenvolvimento do país. Como é possível ver, amigo, trata-se de uma inglória perseguição que perpassa os governos e já alimenta o cidadão comum, afinal, uma mentira dita repetidas vezes acaba ganhando contornos de verdade. Diga-se, a bem dessa mesma verdade: toda a ação predatória contra os servidores públicos, seja negando-lhes direitos constitucionalmente adquiridos, seja imputando-lhes obrigações restritivas, sob a justificativa – razoável na proposta e frágil na execução – de redução de despesas em salvaguarda de uma política orçamentária séria e responsável, vem-se revelando um repetido fiasco; as contas públicas se mantêm no vermelho, às escuras ou às claras. O atirador teima em atingir o alvo errado. Parece que todos querem que desapareçamos. O que os move? Há quem encontre nesse proceder um misto de frustração e inveja. Será?! A nós, o que nos importa é que também somos cidadãos brasileiros e, portanto, não devíamos ser chamados sempre a pagar bem mais pela dívida que não contraímos.

“Amigo, havemos de convir que, considerado o conceito absoluto de ’servidor público’, ou seja, todo e qualquer indivíduo que presta serviços ao povo mediante a contraprestação pecuniária paga por esse mesmo povo, a sua crítica se torna aceitável, defensável. E aí nós vamos atracar nosso barco no mesmo porto: a classe política. É aí que se concentra o absurdo das mordomias. Todas, sem exceção. Todas injustas. Todas irredutíveis, irremovíveis; imexíveis, pois. E eles [Haja óleo de peroba!] ainda pretendem abocanhar um grosso naco do bolo que, antes de adquirir forma, já se mostra sem massa e sem fermento que o tornem capaz de atender as necessidades de muitos de seus compatriotas. Convenhamos, amigo, só muita paciência!”

Após perceber que o decano já apresentava sinais de irresignação no trato do assunto, manifestei-me:

– Eu gostaria de dizer algo. Um amigo, executivo da iniciativa privada, ao aposentar-se, fez jus aos recursos de sua conta vinculada ao FGTS, com que promoveu uma boa reforma na casa em que confortavelmente mora e embelezou a garagem com um carro importado, novinho em folha. E ainda passou a não mais contribuir para a previdência oficial. Quando eu me aposentei, tive direito a um pouco mais de oitocentos reais, a título de participação no capital do Pasep. E ainda contribuo com a previdência oficial. Nós somos mesmo uns privilegiados.

Um outro confrade assinalou:

– Reajuste acima da inflação. Vocês se recordam de quando isso ocorreu? O índice previsto para janeiro próximo e que o governo pretende adiar para anos vindouros corresponde à última parcela de uma negociação que remonta a 2015, quando se buscou corrigir perdas acumuladas em anos anteriores, com ganhos parciais. Obrigo-me a concordar: somos mesmo uns privilegiados.

O intruso nos pediu desculpas, arrastou a cadeira calmamente e foi confabular com Baco em outro altar.

E a paz continuou reinando entre os de boa-vontade.

Post scriptum:

* Que alimenta e purifica o espírito e o corpo.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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