Matrix: E o herói às portas do novo século

O que é Matrix? A pergunta que guia o filme lançado em 1999 segue como uma das principais portas de entrada àqueles que entram em contato com a obra pela primeira vez ou daqueles que a revisitam de tempos em tempos. É claro que dentro do universo representado pelo longa escrito e dirigido por Lily e Lana Wachowski, essa parece, à primeira vista, uma resposta bastante complicada de ser dada. Haja vista a gama referencial que reveste este trabalho de realização, que é um dos maiores paradigmas em termos de realização audiovisual deste século.

 

Na trama, um hacker chamado Neo (Keanu Reeves) fica sabendo de uma incrível conspiração que envolve a realidade de todos os humanos e se junta a uma rebelião em busca da realidade. Partindo de uma sinopse bastante objetiva, o mergulho que fazemos no filme durante suas duas horas e dez minutos de duração nos põe diante do entendimento de estarmos diante de uma obra de fluxo entre séculos.

 

Sim, Matrix deu-se no final do século XX. Mas se a tomarmos como trabalho que ajudou definitivamente a pautar o modelo de produção de longas de ação e ficção cientifica para o século XXI, passamos a entender as razões porquê já a lemos como um novo clássico da cinematografia dos últimos 20 anos.

 

Mas que parâmetro cinematográfico é esse? Falamos de um parâmetro múltiplo, já que em sua elaboração inicial, o longa fora idealizado pelos criadores como um projeto de natureza transmidiática¹.

 

Ou seja, ele estaria para além da concepção da sala de cinema ou do uso do vídeo. Desde o início, ela abarcaria campos distintos de aplicação. Matrix seria cinema, vídeo game, curtas de animação e Histórias em Quadrinhos (HQ). E aí que chegamos em nosso ponto particular.

 

Porque buscar entender Matrix de maneira isolada e tradicional assim como o fazemos ao analisarmos filmes como Casablanca ou Rastros de Ódio não nos cabe neste ponto. Podemos interpretá-la sim à luz do gênero e de traços que unem técnica e linguagem. Mas o filme, como parte de um todo, não cabe nessa análise. E se tivéssemos de explorar um dos inúmeros pontos que a revestem como trabalho de um novo século, seria pela sua relevância dentro do escopo dos longas adaptados livremente ou não de HQs de super-heróis.

A relevância de Matrix se dá no escopo de novos paradigmas aos longas adaptados livremente ou não de HQs de super-heróis.

Fazendo um recorte dos anos 1980 a 1999, as produções desse gênero sofriam muitas limitações. Obras da Marvel como Capitão América (1990), o nefasto Quarteto Fantástico (1994) ou o sofrível Batman e Robin (1997) eram o pior cenário possível de uma linha de longas que estavam longe de qualquer autenticidade, seja em termos de cinematografia ou criações lotadas em um mercado, como sabemos que o cinema o é.

 

Ou seja, a veia de criação ancorada em filmes que apontassem um futuro mais interessante em termos de criatividade e excelência em produção não conseguiam se firmar numa indústria que investia em trabalhos de caráter altamente duvidoso. É claro que se voltamos a longas como Conan – O Bárbaro (1982) ou Batman (1989), percebemos claramente um esforço de realização com vistas a um fazer cinematográfico mais crível às HQs. Ou de histórias descritas com marcas de autoria muito fortes, como notamos na versão do Homem Morcego de Tim Burton.

 

E foi às portas de um novo século que, então, os Irmãos Wachowski criaram Matrix não apenas como mais um filme de ação enquanto gênero. Porque na miscelânea de conceitos que o projeto engloba, vimos no longa de 1999 lançadas as sementes que ajudariam na criação de novos caminhos para uma linha de filmes que, apoiadas nos conceitos ali apresentados – como o uso do CGI e de um roteiro e montagem totalmente amarradas ao filme como linguagem – teriam a seu favor o bônus da liberdade criativa a partir das ferramentas de que dispusessem.

 

Falamos de contextualização histórica. Naquele mesmo ano, filmes como Star Wars – A Ameaça Fantasma e eXistenZ eram lançados e também caminhavam no mesmo rumo que Matrix. O vigor com que o último longa foi realizado destoa, entretanto, de qualquer um dos trabalhos em questão. Aqui, temos dois realizadores no total controle da estória a que se propõem contar. É claro que em eXistensZ, David Cronenberg também sabia o que queria dizer.

 

A diferença entre os três longas reside, no entanto, no modos operandi do cinema como máquina holística. Baseados no tripé da tecnologia, da narrativa sinérgica² e de seus impulsos vanguardistas, os Wachowski nos disseram enquanto público e à cinematografia enquanto arte, que não devemos nos colocar limites.  A fala de Neo no ato final é um endosso dessa ideia. É o conceito materializado nas linhas escritas ao personagem. A quebra de limites a qual nosso herói se refere não está mais restrita à diegese fílmica. Ele fala diretamente ao presente que ali se moldava.

A fala de Neo no ato final é um endosso à quebra de limites na construção fílmica não mais limitada ao gênero, sua natureza é expansiva.

Uma vez que, aos filmes adaptados de HQs de Super-Heróis, um universo de novas possibilidades em forma e sentido cinematográficos se abria dali em diante. E desse sopro foi que Sam Raimi dirigiu em 2001 aquele que foi mais um salto para o gênero de adaptação no gênero. Falamos do que foi o Homem-Aranha para a indústria, a Marvel e a o cinema como arte também.

 

 

1-Para o pesquisador Henry Jenkins, Matrix é um entretenimento para a era da convergência, uma vez que integra múltiplos textos na criação de uma narrativa tão ampla que não pode ser contida em uma única mídia.

 

2– Termo também usado por Jenkins referente à nova estética da era da convergência. Ela exige que o consumidor atravesse barreiras entre as diversas plataformas de mídia com a finalidade de arrecadar o máximo de conhecimento possível sobre determinado assunto, pois se tratam geralmente de narrativas muito amplas para serem limitadas a uma única mídia.

 

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Matrix

Tempo de Duração: 136 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 1999

Gênero: Ação, Ficção Científica

Direção: Lana Wachowski e Lilly Wachowski

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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