MAL DE CARNAVAL: TUDO SE FAZ POSSÍVEL… ATÉ CINZAS! (PARTE VII), por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Era como se acordasse de um longo sono, e, no entanto, ainda estava suspenso em um cinza leitoso. Ou quem sabe não estava acordado, mas sonhando. Era um estranho sonho, desprovido de imagens, povoado por sons. Como se não visse, mas ouvisse vozes que me contavam o que devia ver. E contavam que eu ainda não via nada, exceto um fumegar ao longo dos canais, onde a paisagem se dissolvia. (…) Onde a névoa flutua entre as torres como o incenso que sonha?” [Umberto Eco, em A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA – Tradução: Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2005; pág. 9].

Domingo de carnaval. Eram umas sete horas da manhã quando um Prisma LTZ preto, desprovido do para-choque traseiro, com várias marcas cinzas e de tamanhos diversos espalhadas pelo corpo, muitas ainda à espera do devido corte do lanterneiro, aproxima-se, em ritmo lento, da entrada do motel Suspiros de Amor. O portão de madeira entalhada abre-se automaticamente. O carro avança e, ao emparelhar-se com a janela envidraçada da sala de atendimento ao cliente, para. O homem ao volante dirige-se à distinta senhora que lhe dispensa a devida atenção:

– Bom dia. Alguma suíte premium disponível?

– Bom dia. Sim. Na verdade, apenas uma não. A penúltima do primeiro conjunto à direita.

– Qual o número da última… é só uma questão de superstição… há números que não me trazem sorte… pra não falar em azar. Benza, Deus!

– É a cinco. – A mulher responde com um leve sorriso nos lábios, incapaz até de afetar as comissuras da boca.

– Ótimo. É essa mesma que eu quero… ou melhor, que nós queremos, não é, amorzinho? – Volve, por curtíssimo lapso temporal, o olhar de lobo da estepe para a amada amante, sua predileta como parceira resoluta de aventuras de toda e qualquer natureza.

– Sete horas e doze minutos. Prisma LTZ preto, placas WYZ-50-50. Premium cinco. Pronto. Registro feito. Suíte liberada. Eis a chave e o controle. Tenham um bom proveito. – E a atendente age com o automatismo de praxe.

– Certamente, teremos…

Perfeito. Até aqui tudo ocorrendo conforme o planejado. Mamão com açúcar.

Carro na garagem. Portão que se fecha; porta que se abre. O ninho do amor. Um agradável odor de flores do campo. Clima de montanha. E o casal entra em êxtase. O que veem, o que sentem… os dois são arrebatados por um prazer intenso, um gozo íntimo… tudo muito fascinante, estimulante, excitante. A mulher esquece até o motivo por que estão ali. Entrega-se alucinadamente ao homem que não demonstra a menor pretensão de desvencilhar-se daquele abraço prazeroso, sensual, provocante. Ao contrário. O desejo insaciável do macho, a libido irresistível da fêmea, o altar convidativo de Vênus… e o mundo lá fora… bem, o mundo lá fora que lá fora permaneça… pouco importa se gira, se pra esquerda ou pra direita, se em torno do próprio eixo ou sob as ordens rigorosas de outros eixos mais portentosos. Os lençóis macios. Roupas espalhadas pelo chão. E os amantes lutam – que prazerosa luta! –, com todas as armas que a sensualidade, ou melhor, a sexualidade lhes põe à disposição… opressos, ofegantes, delirantes… cada um mais desejoso de invadir, penetrar, desbravar as entranhas do outro. Por um átimo temporal, são como um só. Ah! Oh! Até que se rompe a tênue camada que, revestindo-a, aprisiona a razão. E a realidade os faz despertar. Levantam-se. Aliviam-se. Em água morna, lavam os corpos para melhor acomodação dos respectivos espíritos, que parecem adejar por campos verdejantes, floridos, odoríficos. Recompõem-se. Policiam-se ante a iminência da recaída. O homem pega o celular e liga. E ouve a voz da irmã, aparentemente tranquila, embora ainda prisioneira da suíte vizinha:

– E aí! Como estamos?

– Prontos para resgatá-la. Estamos, eu e a amada amante, na suíte premium cinco, aqui, bem pertinho de você. Uma delícia! Fenomenal! Mas olhe, preste bem atenção às minhas orientações. Você continua com as luvas…?

– Sim. Fiz tudo como você mandou. Estou pronta. E que Deus nos proteja!

– Certo. Não esqueça nada que lhe pertença. Mantenha com você o celular dele… isso é fundamental! Nós vamos sair daqui, tão logo a senhora da recepção nos libere. Vou parar o carro bem à frente e o mais próximo possível do portão da garagem da suíte em que você está. Vou simular um problema no motor do carro. Deixo as portas abertas, as do lado do motorista. Levanto o capô e faço de conta que estou reparando o defeito, enquanto ligo novamente para você. É a hora de agir. Acione o botão G do controle preso à chave da suíte… e o portão da garagem vai abrir-se. Jogue a chave, o controle… o chaveiro no piso do quarto. Feche a porta e caminhe abaixada até alcançar o carro, aqui fora. Cuidado com câmeras. Entre pela porta de trás e deite-se no chão do carro entre os bancos dianteiros e traseiro. Incomoda, eu sei… mas é por pouco tempo. Não é você que sempre diz que os fins justificam os meios. Pois bem. Entendido?

– Sim. Entendido.

– Agora é só aguardar a ligação. Ah, ia me esquecendo de um detalhe. Você está me ouvindo?

– Sim. Prossiga.

– Pegue na carteira de cédulas dele…

– Isso eu não faço. De jeito nenhum!

– Vai fazer sim. Senão, a brincadeira se encerra aqui.

– ’Stá bem. Faço. Contra os meus princípios, mas faço.

– Isso lá é hora de pensar em princípios, garota! Na carteira de cédulas dele, repito, retire o que você acha ser suficiente para me reembolsar as despesas que tive com esta luxuosa e cara suíte. Eu não vim até aqui por livre e espontânea vontade… bem que poderia! A rigor, foi ele… foram vocês que me meteram nesse negócio. Certo?

– Tudo bem. Enquanto você falava, eu cometi mais um pecado… sinto ter agido como uma ladra… coisa abominável… tudo por conta de uma mera noite de carnaval… Oh, Deus! Perdoai-me porque pequei.

– Você e suas crises de consciência. Então, ação! Desligo.

Passados alguns minutos, um Prisma preto, com marcas que o remetem a oficina de lanternagem, cruza naturalmente o portão de saída do motel luxuoso e luxurioso e segue, agora em velocidade permitida para a via, pela larga avenida praticamente sem trânsito. A virgem resgatada já se acomoda no banco traseiro do veículo, pede desculpas pelos transtornos causados a ambos e perdão por tudo o que causara ao casal ao longo de tantos anos, prometendo mudar profundamente o seu modo de ver o relacionamento por eles mantido, desejando que, doravante, passassem a uma convivência pacífica, com cada um cuidando de suas próprias vidas, para a felicidade de todos. Faz então um pedido comovente: que se esquecessem dessa insólita experiência de vida. Acordo selado. E a conversa agora cuida de amenidades.

Mais adiante, o carro para no acostamento de uma rodovia federal, nas proximidades de uma ponte sobre um rio de águas escuras, momentaneamente paradas, que serpenteia entre manguezais até ser engolido pelo mar que ora se esparrama ferozmente pelas submissas areias da praia. Pelo celular do “de cujus”, o homem liga para o motel:

– Alô! É do motel Suspiros de Amor?

– É sim. Em que posso ajudá-lo? – É a voz da distinta senhora do atendimento.

– É o seguinte: há um homem morto na suíte premium número quatro. Mal súbito, possivelmente.

– Quem fala? Seria o senhor do Prisma preto? O da suíte premium cinco? – Achou que teria reconhecido a voz do informante.

– Não, senhora. Eu sou apenas um vidente.

E desliga.

Sai do carro. Encosta-se no para-lamas dianteiro. Faz nova ligação. Agora, para o celular cujo número aparecia inúmeras vezes no visor. Certamente seria o de pessoa da família do falecido. Provavelmente, o da esposa… agora viúva.

(…)

Hypnos e Morfeu acalentam os quatro que, acomodados em redes de varandas dispostas lado a lado na área alpendrada da casa simples e aconchegante, dormem a sono solto e sonham sonhos que certamente aprazem os espíritos, haja vista a tranquilidade ali reinante.

Não demora muito e, com a anfitriã, certamente pelos momentos de tensão por ela há pouco vivenciados, o arrebatamento onírico transmuta-se em pesadelo. E, se um dia ela se dispuser a narrar essa sensação aflitiva, assim ela o fará:

“Eu estava numa praia deserta, paradisíaca, em pleno alvorecer. Caminhava solitariamente com os pés descalços, sobre branca, fria e fina areia. Sobre as águas do mar, sobressaía uma névoa cinza claro, densa, mal permitindo ver as pequenas ondulações. A brisa calma envolvia suave e delicadamente todo o meu corpo e me fazia sentir o cheiro gostoso da mata virgem, espessa, à minha esquerda. O gorjeio dos pássaros celebrava a generosidade da mãe-Natureza. Os primeiros raios do sol espargiam beleza e me enchiam de esperança na vida. Aos poucos, o sol ia abrindo o seu largo e amplo sorriso, para o embevecimento de toda a sua criadagem, de toda a sua realeza. E a névoa ia se dissipando. E as ondulações das águas do mar mais pareciam revestidas de finas camadas de ouro que tremeluziam. Ventos que se repetiam iam afastando a brisa aprazível que, logo, se vai completamente. Frágeis ondas formavam débeis marés. Ao longe, a voz inconfundível de Zé Kéti: ’Quanto riso, oh, quanta alegria! / Mais de mil palhaços no salão. / Arlequim está chorando pelo amor da Colombina / No meio da multidão.’ De repente, do ventre do mar, cujas águas se agitaram, efervesceram, irrompeu um enorme redemoinho que, com sua dança macabra, parecia cortejar o céu: elevava-se, espichava-se, contorcia-se. Assustou-me ao virar a larga boca do funil em minha direção. Arrepiei-me ao vê-la aproximar-se. Estremeci quando regurgitou, ali, bem perto de mim, um homem de pé, lânguido, inerte, imóvel. E o torvelinho logo se encolheu todo e se deixou engolir pelas mesmas águas. Depus o meu olhar incrédulo sobre o homem à minha frente. Eu o reconheci. Era ele, o meu marido. Desnudo. Sofrido. Distante. Estático. Um olhar mórbido, sem brilho, sem vida. Uma palidez terrosa. Um corpo sem alma, os braços largados ao longo do corpo inservível, inútil. Na minha visão panorâmica, captei a presença de uma jovem mulher. Parada a poucos metros de nós – de mim e da estátua –, formávamos um triângulo perfeito: nós na base; ela no vértice. Cabelos pretos e escorridos até os ombros. Olhos negros e grandes. Boca carnuda, voluptuosa. Chamou-me a atenção a sua nudez jovial, sensual. Estou certa de que ouvi Caetano: ‘Por que você me deixa tão solto? / Por que você não cola em mim? / Tô me sentindo muito sozinho / […] / Por que você me esquece e some? / E se eu me interessar por alguém? / E se ela, de repente, me ganha?’. E o corpo do homem começou a intumescer. Os cabelos começaram a cair. Os olhos saltaram das órbitas e se desmancharam no contato com a areia. E o corpo inflava, mais e mais. A pele não resistiu e começou a rasgar-se. E de cada rasgo escorria um líquido pastoso, gorduroso, que ia empapando a areia onde os pés inchados permaneciam fixos. E todo o revestimento corpóreo liquefez-se, derreteu-se. Restou o esqueleto, a armação descarnada, a forma sepulcral. Careta repulsiva. Horrível. Visão sinistra. Horripilante. E uma chama se acendeu na grande poça de gordura. Cresceu. Avolumou-se. Virou um fogaréu, cujas labaredas açoitavam, atiçadas por um teimoso vento rasteiro, a ossada de quem, por longos anos, amei incondicionalmente. O pai dos meus filhos. O avô dos meus netos. A jovem desapareceu. À minha frente, cinzas… só cinzas. O trinado solitário de um pássaro, assentado numa das palhas do coqueiro que parecia apoiar a aguda curvatura no monte de areia, invadiu-me a alma. Cerrei os olhos. Uma lágrima cálida escorreu pela pele macia do meu rosto. O trinado… Acordei em sobressalto. Era o toque insistente do celular. Apressei-me em atender.”

– Meu velho, como você está?

– Senhora, não sou quem a senhora deseja que seja.

– Pois quem é o senhor e por que está usando o celular do meu marido?

– Calma, senhora. Não posso dizer quem sou. Mas tenho algo muito… muito… como direi?

– Diga de uma vez, rapaz! Não me mate com seus arrodeios covardes!

– O seu marido está morto…

– Você o matou?! Assassino!

Neste momento, todos já estão acordados. O rapaz acolhe o celular da irmã que, meio desfalecida, recebe o apoio das mulheres, entre elas dona Toinha.

– Não, senhora! Não o matei…

– Aqui quem fala é o irmão dela. O que aconteceu?

– O seu cunhado morreu. Sofreu algum problema cardíaco. Infarto. Mal súbito. Não resistiu. Ele estava na suíte premium número quatro do motel Suspiros de Amor.

– E como o senhor ficou sabendo disso?

– Quem o acompanhava era uma irmã minha, que acabo de retirar de lá. Já comuniquei ao pessoal do motel. Certamente a polícia já foi acionada. O corpo deve ser removido para o IML. Portanto, a eventual ida ao motel é só perda de tempo. Ligar pra lá também. Não tentem mais ligar pra este celular, pois vou destruí-lo agora mesmo. Nossos pêsames.

E desligou.

Abriu a mala do carro, de lá retirou uma pequena marreta. Pôs o aparelho celular sobre o asfalto e despedaçou-o a marretadas. Juntou os pedaços, caminhou até o meio da ponte, apoiou-se no guarda-corpos e os lançou nas águas escuras do rio. Voltou ao carro, onde as mulheres o esperavam, e deu partida no carro. Seguiu em silêncio. Em direção à sua oficina mecânica.

Dictum e factum. Dito e feito.

Nota do autor:

“A destruição do cadáver pelo fogo – quanto mais limpa, mais higiênica, mais digna e mesmo mais heroica (…), em confronto com o costume de abandoná-lo à lamentável decomposição e à assimilação executada por organismos inferiores!”. É a voz de Settembrini, personagem de Thomas Mann, em A MONTANHA MÁGICA – Círculo do Livro; pág. 550.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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