MAL DE CARNAVAL: TUDO SE FAZ POSSÍVEL… ATÉ CINZAS! (PARTE VI), por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Com certeza sentia vergonha e ficou perturbado por isso. De qualquer maneira, acredito que uma sincera e aberta exposição de suas dificuldades estaria mais de acordo com a sua honra, assim como seria mais apropriado com seu caráter… Mas não faço objeção alguma à conduta de alguém com base em algo pouco liberal como o modo diferente de julgar ou um desvio do que eu acho certo e apropriado.” [Jane Austen, em RAZÃO E SENSIBILIDADE – Tradução: Therezinha Monteiro Deutsch Monteiro. São Paulo: Nova Cultural, 2003; pág. 81].

Domingo de carnaval. Eram umas sete horas da manhã quando dona Toinha, a cozinheira de fins-de-semana, curtos ou longos, adentrou o sítio – pois detinha consigo a autorização e a chave para isso – e tocou a campainha de acesso à casa, disposta a cumprir, como sempre, já lá se vão alguns anos, a sua jornada dominical, conforme dispunham cláusulas específicas do seu contrato de trabalho nada formal.

Apesar da singeleza de sua submissa e resignada alma, encapsulada num corpo franzino de pele da cor de piche, mas envolto numa camada, peculiar e traslúcida, de disposição para a luta, de coragem para enfrentar as exigências e agruras da vida, de força, enfim, para empreender o bom combate cotidiano, não compreendeu, de pronto, a frieza, o distanciamento com que foi recebida – um “bom dia!” frouxo, soturno, anêmico – por pessoas sempre tão alegres, distintas, efusivas e afáveis, em especial a patroa, com quem mantinha um relacionamento muito afetivo, mais parecendo serem mãe e filha.

Mesmo desconfiando de que algo de errado poderia estar acontecendo, assumiu o seu posto de trabalho e dedicou-se, de imediato, aos seus afazeres domésticos. “O carnaval tem dessas coisas”, matutou a prendada senhora, como se conversasse com o avental que tão zelosamente vestia, prendendo-o à magra cintura.

O jogo se encerrou. Alguns bocejos. Algumas contorções. Alguns alongamentos. Alguns esfregões de olhos. Logo, alguém propôs um banho de recuperação, antes do café (o cheiro já vindo da cozinha). O rapaz entendeu que seria mais razoável a caminhada de rotina pelos arredores do sítio, antes que se submetessem à fria água do chuveiro. Sugestão que acabou sendo acolhida pelo grupo, cujos membros logo se dispuseram a vestir-se de acordo com o que recomenda a prática.

Lá fora, o sol derramava seus auríficos e vivificantes raios sobre as frondes e copas das árvores, esparramava-os pelas áreas de grama impecavelmente verde ou de mato rasteiro, castigava cobertas e telhados que ofereciam conforto e proteção a quem, por vários tipos de intromissão, acabou artificializando o que antes era natural.

A dona da casa ainda trocou algumas ideias de interesse geral com a dedicada e atenciosa cozinheira. E os quatro – a anfitriã, a amiga hóspede, o irmão e a cunhada – iniciaram o saudável ato de caminhar.

– Saibam vocês, meus amigos, que ainda não me recuperei plenamente do susto que aquela solitária ventania me causou. – A anfitriã puxou o fio da meada da conversa, quebrando o silêncio que já se abatia sobre o grupo.

– E o que, na verdade, você sentiu naquele instante, minha irmã?

– Arrepio… calafrio… estupor… premonição… sei lá! Me pareceu algo tão surreal, sobrenatural, produzido pelos espíritos das trevas…

– Mas você conseguiu recolher, apreender alguma mensagem específica? – Indagou a amiga.

– Conforme a minha vã filosofia, amigos meus, o meu entendimento de mundo, as minhas experiências de vida, eu desconfio que o relacionamento íntimo e duradouro de dois seres humanos cria pontos de contato que vão além do aspecto sensitivo, sensorial. Não sei bem explicar, mas se trata de um fenômeno que se manifesta tão profundamente na alma que deixa marcas irremovíveis. Olha, eu senti o meu marido em apuros… passando sofregamente de um plano de arrebatamento, de contentamento, de alegria e até de felicidade, para outro de angústia, de desprazimento, de aniquilamento, de dor. Será que vocês me entendem?

– Sim. – Todos responderam em uníssono, em tons variados.

– Não cabe remeter essa vivência, digamos assim, a sonho ou a pesadelo. Vocês são testemunhas de que eu estava completamente desperta, totalmente envolvida com o jogo, com as cartas. Não vejo como definir o que senti… terá sido algum desarranjo biológico ou psicológico… não sei. Sinto-me agora tão saudável quanto antes. Apenas um pouco… um pouco… eu diria um pouco amargurada ante uma inafastável sensação de perda.

– Que tipo de perda, cunhada?

– Pois é. Não consigo dar clareza ao que sinto. Interessante é que isso não me angustia. É como se eu estivesse pronta para o que há de vir. Algo me assegura que o tempo se encarregará de pôr os pingos nos is.

Um silêncio meditativo se assenhoreou de todos eles, que caminhavam cabisbaixos, os olhares voltados para as pedras toscas do calçamento, entremeadas por irregulares e resistentes filetes de grama brava.

O cansaço da noite indormida e o resquício da tensão experienciada fizeram-nos interromper a caminhada bem antes do tempo costumeiramente despendido com a atividade. Retornaram ao sítio e à casa. Depois de reconfortante chuveirada ao ar livre, alguns mergulhos, algumas braçadas nas águas transparentes da piscina completaram o estágio inicial dos procedimentos que integram o “modus vivendi” de quem, podendo, isola-se confortável e sadiamente dos excessos, das extravagâncias, da paranoia e das aventuras que permeiam o período carnavalesco. O cafezinho quente, fumegante, cheiroso, acompanhado de nacos de pão de milho besuntados com nata caseira, compõe o segundo estágio do processo.

– Eu gostaria de dizer mais uma coisinha. Permitam-me, meus amigos. – Mais uma vez a dona da casa chamou a atenção para ela.

– Toda a atenção será sua. – Disse o irmão, percebendo, inclusive, que dona Toinha, sempre tão distante, tão envolvida no que faz, tão desligada das conversas ao seu redor, agora aguçava as suas “oiças”.

– O que possa ter acontecido com o meu marido, eu o perdoo… mesmo porque ele sempre se comportou de maneira tão honesta, tão sincera, tão transparente, tão respeitável. Eu compreendo… decididamente eu compreendo. São muitos os riscos que hoje todos nós corremos ante a violência que conosco já convive cotidianamente. E, obviamente, esses riscos se potencializam na euforia desmedida, descompromissada e até irresponsável de quem se propõe a brincar o carnaval. Encerro aqui o meu discurso sobre o assunto. Agradeço a vocês pela paciência de terem me ouvido, pela disponibilidade do compartilhamento de tudo o que juntos vivenciamos. Convido-os para o saboreio do conforto das redes de varandas armadas na varanda frontal da nossa modesta, mas tão aconchegante casa.

– Amiga, perdoe-me por insistir. Mas eu acho, ou melhor, eu tenho a certeza de que logo, logo o seu marido vai entrar por aquela porta, lépido e fagueiro e faminto. É só esperar.

Apertos de mão. Sorrisos. Abraços.

E todos se entregaram à última etapa do processo. E acabaram vencidos pelo sono.

A dona Toinha, ainda querendo entender o palavrório bonito de sua patroa – “Que mulher inteligente, meu Deus!” –, encaminhava os preparativos para um lauto almoço: a carneirada dos domingos, tão apreciada pelo patrão que certamente já estaria retornando de sua única noite de aventuras carnavalescas, com disposição para contar alegremente tudo o que vira, o que sentira, o que vivera.

(…)

No outro lado deste universo narrativo, tão restrito, na exata medida do poder de nele intervir o narrador, três outros personagens – a virgem, o irmão estrategista e a amada amante dele – esmeravam-se em desempenhar os papéis que se lhes reservaram, todos dispostos a alcançar o objetivo, a meta estabelecida no planejamento estratégico, qual seja o de resgatar a jovem do insólito ambiente em que se achava enclausurada – a suíte de um motel de luxo – na companhia de quem já houvera espiritualmente partido para outro plano.

O rapaz da farmácia já providenciara a entrega que lhe fora confiada. A sobrinha já houvera telefonado para a tia, acalmando-a com algumas mentiras oportunas (justificando-se: “A mentira não pode ser considerada um ato pecaminoso, que mereça castigo, pois até São Pedro, a quem o Pai confiou as chaves do céu, mentiu três vezes antes que o galo cantasse… e isso é bíblico!”): teria dormido na casa de uma amiga que lhe prometera deixá-la em casa, tão logo se recuperasse dos estragos que sofrera com as extravagâncias da primeira noite de carnaval; e completou: “Eu vou almoçar com a senhora”. O estrategista já trocara as placas – as oficiais por outras, frias – do carro que o cliente deixara sob a sua custódia, confiando-lhe o serviço, completo e de primeiríssima qualidade, de recuperação da aparência tão arruinada pelas pequenas e recorrentes batidas, por alguns arranhões e, principalmente, pela ação corrosiva da implacável maresia.

Tudo ia se encaminhando conforme o planejado. Até o gel indicado para remover impressões digitais já tinha sido devidamente aplicado. Tudo ia se encaixando, peça a peça. A jovem já ultimara os preparativos para a fuga, incluindo o próprio asseio corporal e arrumação de seus pertences. Faltava apenas o desfecho desejado. Que logo viria! E que traria ótimos resultados.

Era só uma questão de tempo.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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