MAL DE CARNAVAL: TUDO SE FAZ POSSÍVEL… ATÉ CINZAS! (PARTE III) por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Um tremor tomou-o, sacudiu-o, abriu-lhe a boca, como que lhe esgarçou os músculos. As mãos crisparam-se-lhe. E, de chofre, caiu para frente, sem apoio, no chão, com a face de encontro ao pé da cama, estalado de muito amor desgraçadamente.” (João do Rio, em Coração – MELHORES CONTOS DE JOÃO DO RIO/Seleção de Helena Parente Cunha – 2ª ed. – São Paulo: Global, 2001; págs. 43-55).

Sábado gordo, à noite. Na avenida iluminada, margeada por arquibancadas móveis, com estrutura em metal e madeira, um bom público aguarda, com alguma ansiedade e inquietação, a abertura do desfile das agremiações de maracatu. Ninguém percebe que dois olhares se cruzam, estimulados por um misto de surpresa e curiosidade: o que provém do alto, do último lance de assentos de madeira, revela um tênue revestimento de estupefação – “É ela, meu Deus! Tenho certeza de ser ela. Muito pouco mudou ao longo desses anos todos… Parece até mais linda e atraente. Como esse perfil me persegue em meus sonhos recentes!” –; o que eflui de baixo, do nível das pessoas (que andam a esmo, conversam sobre qualquer coisa, cantarolam músicas consagradas: sambas e marchinhas, riem sem se preocupar com o porquê, bebem o néctar dos deuses de sua preferência ou condição e até exacerbam aqui e ali na animação), liberta-se do frágil invólucro do nervosismo natural da estreia, ante a empatia e identificação com quem compartilha, circunstancialmente, essa vivência inimaginável, improvável – “Meu Deus, é ele! Sim, é ele! Os cabelos grisalhos e os óculos em nada afetam a imagem que ainda guardo na memória. Canalha! Que belo canalha!”.

E uma conversa de gestos se estabeleceu entre eles, os estreantes, em que ela pergunta se não há como arranjar-lhe um cantinho ao lado dele, e ele, prestativo e solícito, exímio na arte de persuadir, responde que sim, após convencer as pessoas próximas a sacrificarem um pouco as suas comodidades – no popular, “juntar as bundinhas” – a fim de obter espaço para alguém que lhe é muito importante: ela! a moça da rosa vermelha presa ao cabelo de virtuoso negror!, o indicador apontando para aquela figura feminina, de pé sobre o meio-fio, espargindo simplicidade e beleza, com gotículas de astúcia e audácia, através de um sorriso brejeiro… embora cativante.

Um abraço fortuito, contingente. Um cochicho necessário: “Eu disse pra esta senhora que você é a minha sobrinha Luísa. E que eu sou seu tio Luís, irmão de sua mãe.”

– Pois é, tio Luís – disse ela ao sentar-se no espaço que lhe fora distinguido. – Minha mãe continua na mesma. Não dá sinais de melhora. O senhor nunca apareceu lá por casa… por quê?!

– Coisas da vida, Luísa. Os filhos crescem e tomam o curso natural de suas vidas. A gente se aposenta, pensando que vai ter sossego. Que nada! O cotidiano se torna até mais exigente. Aí vem a fase do “Já que”. Você conhece a fase do “Já que”? Não?! Pois bem. Todo mundo lá em casa acha que só quero matar o tempo, vagabundear. Aí perturbam, todos eles: “Já que o senhor não tem mais o que fazer, devia levar seus netos pro colégio”. “Já que você não tem mais o que fazer, devia ir ao banco pagar essas contas… ir ao supermercado fazer essas compras… ir à Unimed tentar revisar a mensalidade do plano de saúde…”, et cetera, et cetera. E assim vão preenchendo o tempo meu de cada dia.

– A tia Ana vai dormir com mamãe hoje… Estou livre para voar… pelo menos, esta noite.

E o desfile começa. A avenida pulsa de emoção, de alegria, no compasso ritmado dos maracatus. A plateia, de pé, deixa-se envolver com a cadência do batuque – dolente, marcado, compassado – extraído dos instrumentos de percussão. Há até os que não se contêm em apenas reverberar os efeitos do som bem característico, então cantarolam animadamente as toadas ou loas do macumbeiro ou tirador. Lá no alto, bem junto ao guarda-corpos, o casal de estreantes acompanha a turba, atraído muito mais pelo novo, pelo desconhecido. Nos intervalos conversam, vão se conhecendo um pouco mais, gradualmente. O inevitável roçar de epidermes mais os aproxima, mais os estimulam, mais os sensibilizam, enquanto destravam as barreiras da antiga rejeição, desatam os nós da indignação.

E ele então expõe a sua versão – realística, por sinal – sobre o insólito oferecimento de uma donzela pronta pra casar, realçando a surpresa de quem nada sabia e a constrangedora participação na trama tão ardilosamente urdida pelo pai dela que não cuidou sequer de saber qual o estado civil do pretendido genro. Ela rogou que a perdoasse pela impulsiva reação, quando furiosamente o destratou, com ofensas e injúrias e palavrões, tudo fruto de sua também constrangedora atuação no repulsivo – para ela – caso, animando-se a narrar fatos marcantes de sua vida que decorreram da ação insolente, descabida e impertinente de seu falecido progenitor, de consequências dolorosas, profundas, irremovíveis.

Ele comentou que a esposa, desde que se descobrira portadora de males que requerem tratamento contínuo, medicação controlada, não mais demonstrou interesse pelos festejos que a vida social oferece, optando por usufruir de agradáveis amizades em animadas noites de carteado. Ela falou, com uma pitada de cerimônia, sobre a sua opção pelo celibato e pela virgindade. “Até poucos instantes – disse ela – não alimentei o mais mínimo desejo de dar atenção a qualquer dos homens. Terá sido pela desastrosa relação com o meu pai? Provavelmente, sim!”

Mais uma agremiação desfila pelo leito asfáltico da avenida. E a massa desfruta do mesmo encantamento que as demais também provocaram. Identicamente reage.

Sábado gordo. O ponteiro grande dos relógios já quase se sobrepondo ao pequeno, exatamente no ponto encimado pelo arábico 12 ou pelo romano XII. Ela – ele também – com os olhos fixos no visor do celular. Distantes, navegam sobre as excludentes águas virtuais de mares distintos, diversos, ambos sem bússola, sem parceria, sem destino. De repente, a voz do aqui e do agora:

– Tio – um sorriso maroto –, você vai acompanhar o desfile todinho?

– Essa é a minha pretensão. Ainda vão desfilar umas cinco agremiações. Isso vai estender-se pela madrugada afora. Você tem alguma outra proposta?

– Acho que sim, tio – mais um sorriso oblíquo. – O presente da tia foi “uma noite de carnaval”. (Lembrou-se do pai e o negócio do “esquentar o facho”). Eu estava pensando em outros tipos de diversão. O que você acha?

– Tudo bem. Desculpe… mas você pensa em me incluir nos seus planos carnavalescos?

– Por que não?! Se você topar… acabo de receber postagem de uma amiga que, se não é convite, certamente será sugestão. Olha a animação no estacionamento da churrascaria (mostra-lhe o vídeo).

– Então, vamos nessa! O meu carro… o meu carro… Ah! O meu carro está aqui pertinho. Aceita a carona?

– Claro.

Na calçada da farmácia, o subconsciente o advertiu: “Seja prevenido!”. Com ela passeou entre as gôndolas de produtos em oferta. Ela se encaminhou para o setor dos freezers. Ele se dirigiu ao balcão, logo pedindo ao gentil atendente:

– Amigo, preservativos… O melhor que você tiver aí.

Atendido, ouviu o jovem indagar-lhe:

– O senhor não vai precisar de um estimulante? Desculpe, mas na sua idade… Olha aqui, nós recebemos este produto recentemente. Bem melhor que o tradicional azulzinho… dependendo da sua libido, do seu desejo, a ação se torna bem mais rápida, intensa e prolongada.

– Quanto custa?

– A felicidade não tem preço…

– Bem, eu nunca precisei disso. Mas quem sabe, né?! Me dê uma cartela, por favor.

Ela com duas garrafinhas de água mineral e ele com os apetrechos de homem prevenido partem para o estágio mais divertido, mais prazeroso e mais excitante, que geralmente desborda para a volúpia, para a lascívia, para a luxúria.

Em poucas palavras, foi isso mesmo o que aconteceu.

Domingo de carnaval. Madrugada. A fêmea, transpirando sensualidade por todos os poros, inflamada pelo consumo de algumas latinhas de cerveja, sentiu, sim, o facho esquentar. Sussurrou no ouvido do macho, transido do mais auspicioso dos desejos, embora preocupado com algo que insistia em permanecer flácido: “Você, cavalheiro, aceitou que esta dama o trouxesse para esse jardim dos prazeres. Me fez vivenciar plenamente tudo o que me foi permitido. Agora, chegou a sua vez. Me leve para onde você quiser. O resto da noite nos pertence. Entendeu, tio?” Sorriu um sorriso moleque.

Quando o portão retrátil da garagem da suíte premium do luxuoso e luxurioso motel introduziu os amantes no vestíbulo da alcova, do amplo e requintado casulo do amor, eu, presciente leitor(a), que até aqui tenho agido como narrador onisciente, senhor absoluto dos atos e dos fatos, arroguei-me o direito de nada revelar sobre o que lá no altar de Vênus os dois – o marido infiel e a virgem cálida – protagonizavam, mesmo porque comungo do entendimento de que o que ocorre entre quatro paredes somente aos que lá se encontram interessa. Contudo, sentindo-me responsável pela curiosidade que acabei despertando em você, motivado(a) leitor(a), cedi à protagonista o papel de condutor da narrativa. Agora, a voz é dela… exclusivamente dela. Calo-me, portanto.

“A sós, comportamo-nos como todo e qualquer casal movido por forte atração sexual. Nossos corpos experimentaram o que de mais agradável, mais apetecível e mais exuberante pode proporcionar à mulher e ao seu homem um relacionamento desejado, embora construído às pressas, ao sabor da fantasia e da excitação carnavalesca, sem uma história que lhe desse afirmação e sem a certificação que o revestisse de legitimidade. Éramos apenas homem e mulher… amantes… no mais sublime ato do amor.

“Tudo transcorria com intensa naturalidade. Apenas ele não conseguia… conseguia… como posso dizer?… não reagia… ou melhor, não vencia à disfunção erétil que ora o incomodava, que o transtornava. Insistia em justificar-se: ‘Isso jamais aconteceu comigo… acredite em mim, por favor! Incrível! Nem o estimulante funciona.’

“Demo-nos um tempo. Fui ao banheiro. Demorei lá alguns minutos. Voltei ao quarto envolvida em toalha que deixei cair bem à frente dele, como se lhe oferecesse a grande final de um “strip-tease” de muita sedução. Ele reagiu escrevendo poesia em guardanapo de papel, que guardo comigo como uma relíquia:

Então, a virgem surge qual flor desabrochando do nada.

Simplesmente bela, toda sensual, provocantemente nua.

Resplandecente como a mais esplendorosa das cheias luas.

Estímulo frustrante! Oh, Deus meu! Infidelidade castigada.

“O rosto tenso, o olhar melancólico, sombrio, triste. Um homem antes brioso, agora arrasado. Não resisti. Para esconder os soluços que me fragilizavam, retornei ao banheiro. Mais uma vez, aliviei-me. Oh, cerveja! Por que sentes prazer em liquefazer-nos?! Senti-me ser a própria Cathleen, amante do Jadway impotente¹. Com uma diferença crucial: será que eu seria capaz de recuperar o meu tio Luís?!

“De repente, ouvi um gemido lancinante, a que se seguiram mugidos pavorosos e, por fim, um urro terrível, um berro infernal. Senti o chão tremer sob os meus pés. Um frio penetrante invadiu-me o corpo, atingiu minhas entranhas. Antes que o pavor tomasse conta de mim, adquiri coragem suficiente para ver o que tinha acontecido. E o que vi? Um homem completamente despido, deitado de costas sobre o assoalho do quarto, o braço direito distendido, o esquerdo dobrado sobre o peito, ambas as mãos crispadas, a boca ligeiramente aberta, o olhar lânguido e cheio de torpor, o rosto num esgar de dor extrema. Tio Luís estava morto.

“Sobre o frigobar, a cartela vazia de estimulante à função erétil indicava o consumo de quatro cápsulas.”

E ele não conseguira possuí-la. Infelizmente.

Nota do autor:

¹ Alusão a personagens de OS SETE MINUTOS, de Irving Wallace (Círculo do Livro).

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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1 comentário

  1. Osvaldo Euclides

    Osvaldo Euclides

    ERRATA

    Onde se lê: “O inevitável roçar de epidermes mais os aproxima, mais os estimulam, mais os sensibilizam, enquanto destravam as barreiras da antiga rejeição, desatam os nós da indignação.”,

    leia-se: “O inevitável roçar de epidermes mais os aproxima, mais os estimula, mais os sensibiliza, enquanto destrava as barreiras da antiga rejeição, desata os nós da indignação.”

    Onde se lê: “a cartela vazia de estimulante à função erétil”,

    leia-se: “a cartela vazia de estimulante da função erétil”.

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