MAL DE CARNAVAL: TUDO SE FAZ POSSÍVEL… ATÉ CINZAS! (Epílogo), por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“A ela ele pediu notícias do doutor O’Hare mandado para a costa distante e ela com um suspiro doloroso lhe respondeu que doutor O’Hare no céu se encontrava. Desolado ficou o homem ao ouvir essas palavras que lhe embrulharam penosamente as entranhas. Tudo ela lhe contou então, a morte entristecedora de um amigo tão jovem, sempre uma recordação dolorosa, mas não estava disposta a contestar a sempre certa sabedoria de Deus.” [James Joyce, em ULISSES – Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro – Rio de Janeiro: Objetiva, 2005; pág. 425].

Não houve velório propriamente dito. Liberado o corpo pelos órgãos públicos competentes, a família o entregou à funerária, a que caberia conduzir todos os procedimentos previstos em contrato, marcada a cremação para a tarde da terça-feira, logo após missa de corpo presente no templo ecumênico, com acesso restrito a familiares e amigos mais íntimos.

A filha, o genro e o casal de netos, vindos de Porto Alegre, e o filho, a nora e a neta, oriundos de Belo Horizonte, chegaram às primeiras horas da segunda-feira. A espera agora se cingia a um único irmão dele, professor em universidade da Califórnia, Estados Unidos, com quem compartilhava uma amizade profunda, muito além dos naturais – e, às vezes, frágeis – elos fraternos.

E tudo ia se conformando à vontade dele, sempre manifesta quando o assunto compunha a pauta das conversas em família, incluindo, obviamente, a camisa do Flamengo sobre a urna mortuária e, restritamente, a sobriedade nas manifestações de pesar mediante, principalmente, o refreamento do choro e das lamentações pela perda de todo irreparável. “Pra mim, a morte é um natural e inevitável rito de passagem. E, para que o velho barqueiro da viagem derradeira se disponha, sem cobranças e com leveza, a fazer a longa travessia desta para outra melhor, nada de prantos, choros, lamentos. Não construo a minha vida para dela despedir-me com tristezas, tampouco com exposições frívolas. Ouçam, se possível, as minhas músicas prediletas; apreciem, se isso lhes aprouver, cerveja ou vinho. E eu, da parte que me cabe, cuidarei de descansar em paz.” Isso era o que sempre propunha a todos, àqueles que sempre distinguira com os mais irrestritos sentimentos de respeito, de devotamento e de amor.

Após o ato crematório, a mulher, os filhos e o irmão dele se reuniram reservadamente com a administração da funerária que logo colocou à disposição o nicho e o columbário individual, sob pagamento de taxas mensais de manutenção, serviço rechaçado de imediato pelos contratantes. Assim, cumpridos todos os formalismos que dão sustentação legal ao procedimento, a eles foi entregue a urna cinzária.

Dados o prazer, o regozijo e o contentamento que sempre demonstrava sentir no usufruto do que lhe oferecia a singela e acolhedora casa de fuga às tensões da realidade do cotidiano, os familiares e amigos mais íntimos decidiram ali permanecer por toda a noite da terça-feira, em respeitosa e merecida vigília aos restos mortais do homem que lhes devotara amor incondicional e amizade sincera, franca, autêntica.

Sobre a sua escrivaninha, agora posta num canto da área alpendrada, ornada com uma toalha alvíssima que resvala até o piso em cerâmica da cor de areia, repousa a urna cinzária, sob a luz frouxa, esmaecida e bruxuleante de velas em dois candelabros de três braços e a proteção de um crucifixo de madeira e de um luxuoso exemplar da bíblia sagrada – encadernação em marroquim vermelho, capa de couro de búfalo, gravação a ouro, corte dourado e fita de marcação de página – que ganhara dos filhos no dia da aposentadoria, com esta dedicatória: “Pai, que esta seja, doravante, o seu manual de métodos e rotinas”.

No canto diametralmente oposto, o frigobar abastecido de cervejas e algumas garrafas de vinho tinto suave, além de frios para tira-gosto. Acima, o rack duplo de madeira afixado na parede, com suportes para taças de cerveja, à esquerda, e de vinho, à direita.

Entre graves momentos de oração e reflexão, as conversas eram embaladas pelo som suave, balsâmico e mitigativo de suas músicas preferidas – selecionadas e gravadas em “pen-drive” pelo filho –, na voz de Roberto, de Tom, de Elis, de Chico, de Caetano, de Gil, de Gal, de Milton, de Fagner. Enquanto isso dona Toinha ia servindo pães, torradas, bolos, bolachas, biscoitos, chás, cafés, leites, sucos, caldos. E, certamente, ele estava ali, no meio de todos. Essa era a sensação que os envolvia e reconfortava.

Quarta-feira de cinzas. Às sete da manhã, todos se dirigiram para a área dos campos soçaites do clube de praia onde, nas tardes dos sábados, ele costumava participar de animados jogos de futebol com os amigos, a que se seguiam memoráveis resenhas à base de cerveja gelada e churrasquinhos em espeto de pau. Lá já se encontrava à espera o helicóptero fretado pelos filhos, genro e nora, que contaram, para esse mister, com uma boa ajuda dos tios. De pé, perfilado a poucos metros da aeronave, o piloto quedo e sereno, de óculos escuros, impecavelmente vestido – calça e paletó e gravata pretos em bom contraste com a camisa branca – e distintamente calçado – um ferracini texturizado preto –, portava uma belíssima coroa de flores, ao centro a tradicional expressão de pesar: “Descansa em paz”.

Houve um momento de despedida, com choros silenciosos e aplausos efusivos. Em meio a acenos de adeus, a mulher e o casal de filhos caminharam juntos até o helicóptero, subiram até a cabine de passageiros, tomaram os seus assentos, ela conduzindo zelosamente a urna cinzária e uma sacola de papel, de tonalidade violácea, contendo alguns objetos ofertados pelos netos, coisas que simbolizavam vivências especiais com o avô querido, além da camisa do Flamengo, a mesma que recobrira a urna mortuária, e o único troféu ganho em torneios promovidos pelo clube socioesportivo que por muitos anos frequentara.

O piloto fez a máquina voar. Depois de um giro circular sobre a área em que os demais acenavam com lenços brancos, seguiu as coordenadas do voo, conforme o contrato de locação, a poucos metros do nível do mar, espanejando as águas ainda tranquilas, o céu de um azul límpido, sem nuvens, em direção à linha do mar, lá onde, aos olhos do observador em terra firme, campo aberto, parecia que os dois – céu e mar – se beijavam, apaixonada, longa e interminavelmente, sob as cálidas bênçãos de um sol solitário.

A urna então é posta na sacola de papel, cujas alças são amarradas a um cordão rubro-negro. Sob o olhar intensamente pesaroso das duas mulheres e o profundamente técnico do piloto que, detendo o controle absoluto da aeronave, impõe-na pairar como um enorme beija-flor metálico, o filho a faz descer lentamente e pousar suavemente sobre as águas escuras e profundas, que ora tremeleiam. Não demorou muito e nada mais restou, exceto a coroa de flores lançada às águas pela filha, a qual teimosamente flutuava ao sabor das pequenas ondulações. Às profundezas do mar, as cinzas!

E assim eles agiram porque assim ele desejara.

(…)

No sábado seguinte, à tarde, na capela em que o casal assistia às missas dominicais, aconteceu a celebração da esperança, presentes os familiares e amigos mais íntimos. No último banco, na companhia do irmão e da amada amante, de calça jeans e camisa escuras, uma echarpe de lã preta sobre a cabeça, ela, a jovem virgem, também orou por ele. Chegaram e saíram sem ser percebidos.

Já em casa, à boquinha da noite, os três, ante o chamado da cuidadora recentemente contratada, acorreram ao quarto da mãe moribunda, corpo esquálido, cãs escassas e despenteadas, pele do rosto enrugada, respiração quase imperceptível. Ela, então, num esforço supremo, dispensou um lânguido olhar de gratidão aos filhos, ensaiou, com os lábios emurchecidos e descoloridos, um lívido sorriso de despedida, cerrou os olhos exânimes e exalou o suspiro derradeiro.

Post scritum:

“Tentei intuir uma conexão entre a vida e a morte, quanto mais tentava, menos conseguia. Revivi várias vezes cada momento, repassei cada imagem, reouvi cada palavra, inquieto, na cama, de certa maneira evitando fechar os olhos.” [Osvaldo Araújo, em HOMEM DE JORNAL & uma história de amor – Fortaleza: Omni Editora, 2018; págs. 13 e 14].

Notas do autor:

I – Tudo o que até escrevi, tudo o que até aqui relatei, sem a mais inexpressiva exceção, é fruto de minha irrequieta imaginação; é, pois, trama puramente ficcional; assim, se algum de vós, transigentes leitores, perceber alguma similitude ou parecença com fato real de seu conhecimento, posso assegurar ter havido, no eventual caso, nada mais que uma mera e fugidia e evanescente coincidência. Apenas isso.

II – E, se ainda me restassem palavras, mais ainda eu as teria posto à disposição dos meus indulgentes leitores.

III – Aos meus personagens que, na fluidez da narrativa e em prol da urdidura da trama, eu lhes roubei o bem mais precioso, ou seja, a vida, agora contritamente eu lhes desejo o descanso eterno, convicto de que deles mereci o perdão que me reconcilia com as divindades protetoras da criação literária.

IV – E agora me calo, sim, mesmo porque nada mais me cabe dizer.

 

 

 

 

 

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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