LUTAR POR SEUS DIREITOS É DEFEITO QUE MATA! por Rafael Silva

A comunhão é tradução do mais singelo ato que um ser humano pode realizar em conjunto com os humilhados e oprimidos. Juntos podem encontrar a solução. Comungar é antes de tudo um ato político. Um modo de comportamento que se escolhe viver, em plena doação com o próximo. É um gesto de solidariedade com quem não se conhece. Há varias formas de comungar. No sentido religioso esse ato é acompanhado por uma liturgia própria a cada credo.

Enquanto ato político é feito a partir da doação e entrega à causa do outro. Comungar nesse sentido é se tornar profeta e ser um perigo! Denunciar e se opor a toda sorte de opressão. Não temer o esquadrão da morte, enfrentar o inimigo com a coragem necessária. Acreditar que a vida é sempre maior, que vale a pena a luta e a irmandade com todos que sofrem. A certeza que se tem é que “Se calarem a voz dos profetas as pedras falarão.”

Há um misto de dor, indignação, solidariedade e esperança com a morte de Marielle Franco. A menina do morro que se tornou socióloga, mestre e militante conheceu a verdadeira revolução. Teve a capacidade de se indignar com a própria dor, sobretudo, com a dor do outro. Por isso, comungou com Deus. Essa comunhão a fez um perigo. A própria encarnação da tarefa política depositada numa profetiza. Não é, nem será a primeira vez que alguém, tornando-se perigo irá morrer. No Brasil, isso está cada vez mais comum. A lista de homens e mulheres que tombam não para de crescer. No norte, os povos indígenas continuam sendo massacrados. Nas periferias, a juventude negra ainda não conheceu sua verdadeira redenção. Na casa grande, o trabalhador ainda é morto na sua dignidade. Para não falar do Estado que escolhe lado fazendo tender o fiel da balança, tecendo uma conjuntura covarde nas lutas entre as classes que hoje tem outro nome: a guerra às drogas. O vigarista político corrompido que se deixa vender pelo encanto do poder.

Todas as vezes que isso ocorre, morremos um pouco mais, pois toda morte mata um pouquinho de nós. Somos levados a cumprir um rito que não previmos, isso por vezes nos leva a um sentimento de dor e medo. Entretanto, é preciso compreender que se há um sentimento maior que o medo, este é traduzido pela esperança, que por sua vez nos conduz à dimensão da fé. Último rebento do humano, onde nos apegamos a algo que julgamos maior.

Isso é Comunhão! A ligação que é própria da indignação daquele(a) que se sente aviltado em ver uma vida eliminada sem qualquer chance de defesa. Somos nós herdeiros da senzala que morremos um pouquinho mais. São os nossos ancestrais que voltam a padecer no troco da história quando um jovem é assassinado, a mulher violentada, o negro aprisionado. Nossa raça começou a morrer quando o primeiro navio negreiro partiu da costa africana. Já no século XX, agora em formato de camburão, aquele navio é novamente palco da mais covarde atrocidade continuada pela força da arma de fogo – que teima em calar a todos aqueles que se opõem e não aceitam as ordens vindas da Casa Grande.

Como bem disse Gonzaguinha, “são cruzes, sem nomes, sem corpos, sem datas. Memórias de um tempo onde lutar por seus direitos é um defeito que mata…” Foi isso que Marielle, Paulo Sérgio e tantos outros ousaram ao materializar a lutar por uma sociedade mais digna, entregando seus próprios corpos para defender aquilo  em que acreditavam, indo às últimas consequências de suas escolhas.

Assim como devem fazer todos que ousam comungar. Vamos nós engrossar suas vozes? Dar continuidade a suas tarefas? Ou esperemos a nossa vez? Bem ao estilo da omissão denunciada por Brecht “…eles vieram e levaram os operários, mas eu não era operário e não me importei. Depois, levaram esse, e aquele, depois aquele outro… enfim, depois vieram me buscar, mas como não me importei com ninguém, não havia mais ninguém que pudesse se importar por mim” É essa omissão que nos contaminará?

Enterrar Marielle Franco precisa ser antes de tudo um ato de resistência. Eles precisam entender que o corpo de alguém que comunga jamais morre! Por isso, o corpo de Marielle, que sempre foi emprestado para a afirmação do feminino, para as lutas sociais e políticas e contra toda sorte de violência é agora transformado em semente que novamente irá brotar em algum lugar, de alguma forma. São histórias que a história qualquer dia contará. “São vidas que alimentam nosso fogo da esperança, no grito da batalha, quem espera, nunca alcança”. Vamos à Luta!

Por Rafael dos Santos da Silva

Universidade Federal do Ceará

Professor

Rafael Silva

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

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