Lula, o linguista e a linguagem

“Estive com Lula. Ele me recebeu em seu instituto para uma conversa rápida. Rápida, mas de imenso significado e entrelinhas importantes. A tranquilidade dele com relação à sua conduta como cidadão é admirável. É alguém definitivamente leve, de posse de todo o seu significado humano e político.

Ele sabe que, a despeito do julgamento em si, a sua vitória no plano do debate público já é bastante expressiva. Constatar isso não é ser confiante, é lidar com a realidade factual. De uma certa maneira, Lula, com seu bom humor contagiante, conduz toda a percepção sobre o futuro do país, entre os seus mais próximos, na sociedade inteira e até entre seus adversários políticos – que ele respeita.

É por isso que não é fácil compreender a dimensão da força política deste homem. Talvez, só um linguista como Noam Chomsky para perceber o tamanho da verdade histórica que se acumulou por aqui – nesse hemisfério sul tão surrado – com densidade suficiente para vários ‘big bangs’ eleitorais e sociais. A intuição linguística de Lula não se limita à gramática: é uma intuição política que se materializa em palavras e olhares o tempo todo.

Há poucas pessoas no mundo que têm o domíno da língua humana como ele. Ele tem um arsenal de registros, uma paleta infinita de tons, um ethos mobilizador, a percepção precisa de encaixar assuntos, frases de efeito e palavras agudas, que se apoderam do debate público.

Dizer que João Santana e Duda Mendonça são gênios da comunicação é uma blasfêmia para o mundo técnico dos estudos da linguagem. Eles fizeram o serviço braçal de organizar a massa enunciativa que brotava espontaneamente de Lula. Perto de Lula, eles são só marqueteiros.

Saindo da digressão: é hora do relato humano, de recobrar os sentimentos perdidos pela campanha de ódio que foi patrocinada pela Rede Globo. E, neste quesito, a minha contribuição é a firmeza do texto e o testemunho do amor que emana de Lula.

A tese é: uma instituição ainda não ruiu e nem pode ruir. Aí, ele me olha um pouquinho de lado, ressabiado e observador – sorrindo com os olhos, sempre. Prossigo: “Você sabe que eu sou linguista, não é?”. Consigo um olhar de “sim”, pela primeira vez, “apressado”, do tipo “fala logo”.

Sem mais delongas até para meu glorioso leitor: digo que a língua é uma instituição. A língua humana. Esta que ele domina tão bem. Digo mais: a língua é a instituição mais importante de todas. Mais que o judiciário, mais que o executivo, mais que o legislativo, mais que a religião, mais que a economia.

Emendo, dizendo que é em função de a língua estar em pleno funcionamento que o jogo da Lava Jato virou de maneira tão drástica e em tão pouco tempo. Em suma: quem quer corromper a língua com falácias, mais cedo ou mais tarde, acaba sendo desmascarado.

A lei da linguagem não pode ser imposta por força. Ela é a lei genuinamente mais democrática de todas, porque nasce espontaneamente das interações sociais.

Quem sabe lidar com uma lei dessas e respeitá-la está em um patamar muito diferente daqueles que lidam – apenas e de maneira precária – com a normatização social.

Trechos de Texto de Gustavo Conde é músico, linguista e professor. Lida com teorias do humor e com os processos de produção do sentido político. É autor do Blog do Conde, espaço de discussão de temas políticos, acadêmicos e literários

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