Lula e as eleições – Parte 4 – Os partidos políticos, por Josênio Parente

A mobilização dos potenciais candidatos para disputar a presidência da República em 2018, contando com a possibilidade de Lula não poder concorrer, é bastante significativa para entendermos o estágio em que a cidadania brasileira se encontra via organização partidária. Até Michel Temer, como dissemos, já aventou a esperança de que poderá ser candidato à reeleição, ou apoiar seu Ministro da Economia, Henrique Meireles. Isto caso suas medidas comecem a se apresentar relevantes.

Esses dados revelam não apenas o impacto de Lula, ao se revelar um líder popular, mas também, contraditoriamente, dão esperança de que a fragmentação partidária possa se direcionar um pouco mais rápido, na direção de fortalecer a representação política. A fragmentação partidária é denunciada como uma das falhas do nosso sistema partidário, pois reforça exatamente o personalismo, a delegação. Quando os partidos são apenas  de donos e não de representação da sociedade civil ou de representação de Estados da Federação, dominam aí traços culturais de uma sociedade tradicional. Algumas exceções, já comentadas em textos anteriores, são os partidos com representação estaduais, e até regionais.

Essas considerações são importantes para situar a anunciada candidatura, ainda não oficial, de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, para Presidente da República. É um desses casos relevantes, pois seu partido, o Democratas (DEM), tem essa característica de ser federativo, com forte potencial no Nordeste. Embora atuando no Rio de Janeiro, a família Maia é de tradicional família da política no Rio Grande do Norte.

Chamamos a atenção de que a essência dos partidos políticos e a singularidade no caso brasileiro estão exatamente no modelo híbrido herdado do federalista americano, modelo representativo dos Estados Unidos e do modelo europeu, representativo da sociedade civil, que tradicionalmente foi se formando na política brasileira. Para lembrar, São Paulo, como a locomotiva econômica, tem liderado o modelo político brasileiro e apoiado outros Estados, com destaque para o Nordeste. Nessa Região, o Ceará é o que mais se diferencia, pois segue a orientação paulista. Quando Fernando Henrique Cardoso foi presidente, e com reeleição, foi a região Nordeste quem garantiu a governabilidade. No seu primeiro governo, O Ceará era o segundo Estado com maior número de parlamentares eleitos pelo PSDB. Era São Paulo e Ceará, com a liderança de um empresário moderno, Tasso Jereissati, que foi governador do Ceará, na época.

O partido da governabilidade, no Nordeste, não era propriamente o PMDB, mas o PFL, hoje DEM. O Vice-Presidente de FHC, Marcos Maciel, era do DEM de Pernambuco. Ele não apenas liderou o partido dando-lhe uma orientação liberal, mas se preparava para ser o candidato a Presidente pelo partido nas eleições para substituir FHC, mas foi atropelado pela conjuntura adversa.

Nesta eleição de 2018, o PSB (Partido Socialista Brasileiro) tem semelhanças significativas com o caso anterior, em sua dinâmica, pois ele foi o partido da governabilidade de Lula no Nordeste. O PSB substitui o DEM nesta tarefa, e era também de Pernambuco uma liderança significativa do Partido. No final do segundo governo Lula, Eduardo Campos, do PSB, governador do Estado, foi candidato a Presidente da República, rompendo com a aliança anterior. Como um candidato bastante competitivo, também como Marcos Maciel, não chegou a completar seu projeto. Sua morte trágica, em campanha, barrou o processo. O que é significativo para entender essa característica regional, tem algo a ver com o atual dilema com que o PSB se depara nessa eleição, um dilema de cunho federativo.

Três tendências estão divergindo dentro do partido sobre o caminho a seguir nesta eleição. Júlio Delgado, o líder do partido na Câmara dos Deputados e Carlos Siqueira, o presidente, defendem a candidatura do ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Outras duas tendências, contudo, defendem posição de independência e não lançar candidatos para aproveitar esta característica das especificidades estaduais, das alianças regionais para pensar no crescimento do partido. A mais significativa tem orientação de interesses específicos, de São Paulo, com aliança com o PSDB, e de Pernambuco, com aliança com o PT. Em São Paulo,o vice-Governador, Márcio França e o Governador Geraldo Alckmin pactuaram que o PSB disputaria o governo de São Paulo em troca do apoio do partido à candidatura de Alckmin.  Em Pernambuco, o partido beneficiaria Lula e, possivelmente, um candidato ao Senado pelo PT, mas o PSB se beneficiaria da força de Lula de puxar votos.

Essa análise revelou também a contribuição do Nordeste como instrumento da governabilidade de um projeto de Nação com a liderança de Partidos políticos que tiveram origem no Sudeste, o PSDB e o PT. Nesse quadro existem dois exemplos, também da região, que merecem uma reflexão rápida, mas específicas. O caso de Alagoas, com Collor de Mello, e do Ceará, com Ciro Gomes. Collor sofreu um impeachment e Ciro tem várias vezes se apresentado como candidato a Presidente com muita competitividade. São casos claros que mostram que partido político como empresa e como representação política são decisivos, Será nossa próxima reflexão.

Josenio Parente

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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