Lula e as eleições de 2018 – Parte 5 – os Partidos Políticos, por Josênio Parente

O Nordeste tem dois candidatos a presidente da República, Collor de Mello e Ciro Gomes, que merecem destaques por não terem fidelidade a partidos políticos, mas se inseriram neles com a força de seus carismas e apoios nacionais significativos, e tiveram sucessos relevantes.

Collor de Mello tem uma trajetória com significativas semelhanças à que vem fazendo Jair Bolsonaro, não apenas quanto à ausência de um partido político representativo, mas também às suas respectivas oportunidades de se apresentar com forte apoio da elite e de meios de comunicação tradicionais que não aceitam a vitória de Lula tanto lá, na década de 1980, quanto cá, em 2018, que não aceitam o projeto político que ele representa.

Claro que também muitas diferenças estão presentes nestas candidaturas. Na época de Collor, por exemplo, a direita estava até certo ponto “encabulada”. Pesquisa realizada, na época, mostrava que os parlamentares eleitos, na sua maioria, não se identificavam como de “direita”. Hoje há uma direita engajada e assumida. Isso mostra uma nova cidadania, pois a sociedade é contraditória e é pelos partidos que devem não apenas se representar, mas também aspirar ao poder. O clima de ódio vem mostrando uma cidadania que está aprendendo que política é a saída para orientar as políticas públicas do Estado e que o desafio é a civilidade, o republicanismo.

No final da década de 1980, a primeira eleição direta para Presidente da República, o candidato das elites era Mário Covas, do PSDB, que não deslanchou nas pesquisas eleitorais, mas tinha na sua plataforma um projeto de “choque de capitalismo”. O trunfo de Collor, como um dos candidatos, era o carisma: jovem, com oratória de coragem contra os privilégios, contra os marajás. Ele recebeu o apoio das elites e dos meios de comunicação e assumiu o programa de “choque de capitalismo”, mas mais radical que o de Covas, chegando a introduzir a competitividade na economia, acabando com a proteção do empresariado nacional, o pacto nacional desenvolvimentista. Na Presidência, contudo, ao perder o apoio das elites que o apoiaram, sem ter um partido relevante no parlamento e sem base nos movimentos sociais, foi fácil o impeachment. Pediu o apoio do PSDB, nos últimos momentos, não conseguindo formar a base parlamentar necessária para a governabilidade. Mas a passagem de Collor pela presidência da República fez de Alagoas ser mais um Estado do Nordeste a participar do projeto nacional e falava-se até em “República de Alagoas”, dado o nosso sistema presidencialista.

Esse roteiro pode estar sendo testado novamente para Bolsonaro. O discurso inicial de intervenção militar é minimizado por um outro mais liberal e conservador, tentando cooptar as duas principais correntes políticas que têm assumido seu projeto político, além do centro direita. Na crise de candidatos apoiados pelos partidos tradicionais, PSDB e PT, recebe o apoio do empresariado mais conservador, como o sistema financeiro. Como Collor, o discurso de Bolsonaro contra o desarmamento, onde só a pessoa de bem é atingida, tem efeito semelhante ao dos marajás? Embora não acredite, ele tem ficado nas pesquisas em segundo lugar. Mesmo indicando que pode morrer na praia. Sua caminhada poderá surpreender.

Já Ciro Gomes, como candidato a presidente pelo PDT, partido herdeiro da militância política de Leonel Brizola, difere, embora Ciro inicia polemizando com Bolsonaro. A escolha desse partido é um indicativo de que Ciro busca o apoio da centro-esquerda, o setor que tem dado a orientação das políticas públicas nessa fase de redemocratização, e não a direita. Ciro Gomes foi militante do PSDB, muito ligado a Tasso Jereissati, no Ceará, uma liderança nacional do partido. Ele desempenhou posições relevantes na administração pública e tem uma trajetória de sucesso em eleições majoritárias. Foi Prefeito e Governador do Ceará. Seu destino final, contudo, seria o PT ou coligado a ele como o partido de centro esquerda mais estruturado e que tem base na sociedade civil.

Nas eleições para presidente, quando Serra batia em Lula, quem subia nas pesquisas era o Ciro Gomes. Foi quando Serra mudou a estratégia e passou a focar em Ciro. Nessa eleição, do “Lulinha paz e amor”,  a vitória de Lula foi facilitada pela campanha de Ciro Gomes. Se ele tem todas as qualidades para o sucesso na política, inclusive uma imagem televisível de gosto dos publicitários, uma argumentação ágil e coragem no debate, seu carisma o prejudica na convivência partidária. Sua ascenção, no Ceará, teve a força do governo Lula. Mas com suas discordâncias com a prefeita Luiziane Lins, presidente do Diretório do PT em Fortaleza, o maior deles, ela barrou sua entrada no partido, embora, no Ceará, exista um PT cirista, como o atual governador do Ceará.

Enfim, na mobilização de candidatos à presidência da República, este ano, após expectativa de que Lula pode não ser candidato, apresentam-se diversas forças estruturadas revelando a natureza dos partidos políticos brasileiros. Encontramos não apenas os partidos políticos tradicionais, representativos ou não, mas também a força do carisma de candidatos e também partidos que representam a força de Estados. São Paulo, como a locomotiva do desenvolvimento nacional, participa com a força do PSDB e do PT, com suas respectivas alianças, onde se inclui parte do MDB, e a contribuição do Nordeste, com destaque a Pernambuco, com o DEM, na época do FHC,  e com o PSB, na época de Lula, além do Ceará, com a força do PSDB, na época de FHC.

Existe, pois, uma estrutura partidária representativa da realidade brasileira, uma sociedade civil vigorosa, não apenas o MST e setores de esquerda, mas evangélicos se mobilizam em partidos, o agronegócio e outros grupos que percebem o vigor da sociedade civil organizada para o embate na arena política, a correlação de forças da sociedade civil, a luta de classe. Para isso, a reforma mais importante vai ficando na clareza dos pesos e contra-pesos dos poderes da República, a fim de que a democracia prossiga sem que a minoria domine a maioria e vice-versa. Essa é a essência da divisão dos poderes.

Josenio Parente

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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