“Long Live Rock n’ Roll!”: o estilo que moldou a sociedade moderna

A música precisa de definição? Rótulos? Classificação? Formalidades?

Se a estética e a crítica musical estão aí pra refutar os estilos musicais com todo um academicismo classificatório por vezes tão chato, sinceramente: problema é delas. Só sei (e sinto uma coisa): essa arte precisa de atitude e paixão. E estes dois elementos, o nosso aniversariante do dia tem de sobra.

 

Hoje, 13 de julho, é celebrado o Dia Mundial do Rock. E como bom roqueiro, não poderia deixar de fazer meu breve comentário sobre este estilo que inspirou e ainda inspira grandes revoluções na música, na sociedade e na cultura em geral. Mas se for pra falar de estética e defender o por quê do rock mexer (literalmente) tanto com a cabeça e o corpo da gente, vou recorrer sim a um acadêmico muito importante nesta defesa. Em um célebre artigo de 1993, o filósofo Prof. Bruce Baugh pontuou alguns aspectos importantes que o rock trouxe à arte musical. Mais precisamente, ele se refere a dois elementos ligados à performance – um grande diferencial do estilo se comparado à música clássica, por exemplo. Primeiramente, ele atesta que não é apenas a escala, a afinação ou o tipo de harmonia reproduzidos numa nota ou melodia, mas o jeito de se tocar é que faz a diferença numa performance de rock:

 

“Fazer um tom soar de uma determinada forma representa uma grande parte da arte da performance do rock, algo que o rock herda de tradições orientadas para a performance da quais ele descende, em especial o blues. […] A materialidade do tom, ou mais precisamente, da performance dos tons, é apenas um dos elementos materiais importantes no rock. Os dois outros são altura e ritmo. Mas, quando se trata de rock, os dois são mais sentidos pelo corpo do que julgados pela mente, e o uso adequado de ambos é crucial para o sucesso de uma performance de rock, um sucesso que é julgado pelas sensações que a música produz no corpo do ouvinte.”

 

Senão, observe o modo como cantores do naipe de Robert Plant (Led Zeppelin), Mick Jagger (Rolling Stones), o próprio “rei” Elvis Presley e os caras da banda Kiss se comportam no palco. Há uma espécie de catarse própria, uma assinatura corporal e sonora que cada um desses artistas (dentre tantos outros, só para citar exemplos) imprime em sua apresentação que representam a força do rock. Seja com as perninhas de Elvis, os agudos e o contorcionismo meio andrógino de Plant, os cacoetes de Jagger ou mesmo o sangue cenográfico saindo da boca de Gene Simmons (baixista do Kiss), tudo isso age como impulso para que a música interpretada soe de forma mais poderosa, marcante e única na psique de quem ouve, vê e internaliza aquela expressão.

Elvis, o rei.

O segundo elemento que Baugh cita como crucial à performance enérgica dentro de uma estética do rock é o volume. Este, já traz uma implicação também física: é a sensação que a altura e a intensidade do som causam em quem ouve. Rock também é pra se dançar (mesmo que desajeitadamente), fazendo aquela vontade de mexer o corpo compulsivamente num ritmo que nem sempre é o da própria canção, mas que soa em compasso com a atitude e expressividade do estilo.

 

“Parte da intensidade da performance do rock tem a ver com um aspecto que é frequentemente usado contra ele: o forte volume ou altura da música. A altura, na boa música de rock, é também um veículo de expressão. Evidentemente, música muito alta provoca um efeito sobre o corpo, e não apenas sobre o ouvido: você pode senti-la vibrando na cavidade do peito.”

 

Sem contar na imensa contribuição que o estilo, tão tachado de rebelde, deu para a sociedade: o rock chegou ainda na década de 1950 também de forma marginalizada, mas logo foi ganhando espaço nas camadas populares. As transformações no modo de pensar sobre tantos valores (como sexualidade, escolha política, dogmas religiosos e formas de viver e encarar o trabalho) moldaram o século passado e continuam a esculpir o século atual.

Rolling Stones

No campo estético e cultural, vimos aquela formação clássica de banda que começou com uma guitarra, uma bateria, voz e um contrabaixo se transformar em grandes bandas que incorporaram o teclado sintetizador, a percussão, duas (ou mais) guitarras, um kit de bateria cada vez maior, efeitos e texturas sonoras que criaram novas vertentes do rock. Estilos como o rock progressivo, hard rock, punk rock, glam, indie, industrial, heavy metal, trash e tantos outros hoje são um prato cheio para quem quer escolher derivações do estilo que começou lá atrás, com uma simples variação da escala pentatônica do blues, dentro de um “paganismo” melódico que tantos artistas refutavam à época – o rock, em comparação com a música clássica, era tido como harmônica e melodicamente pobre.

Led Zeppelin

Dava pra passar o dia todo falando sobre tantas bandas, artistas, acontecimentos e discos fundamentais para a história do estilo. Mas pra finalizar, é necessário fazer uma declaração (evidentemente apaixonada de um roqueiro inveterado como este que vos escreve): pra quem ama, vive e sente o rock, não há dúvidas de que seu valor e beleza não são somente um capricho estético. Ele é tudo, e nada. É a nota simples tocada de forma distorcida e muito alta. É a escala furiosa e em alta velocidade palhetada por um guitarrista cabeludo. É a virada de bateria ensurdecedora. É o teclado cheio de efeitos psicodélicos. É o contrabaixo pulsante e pesado. É o agudo rasgado de um vocalista enlouquecido. É o fã na plateia vestindo camiseta preta e bradando suas músicas favoritas fazendo o velho sinal de chifrinhos com a mão estendida.

Guns N’ Roses

Em tempo: e se alguns céticos insistem em dizer que “o rock morreu”, eu vejo, vivo e sinto (nos palcos que já toquei e nos shows em que sou plateia) toda essa energia humana em movimento como a pura representação da arte e da vida em total consonância. A bandeira do estilo mais enérgico e revolucionário da música vai permanecer hasteada, enquanto houver essa vontade de transcender e levar canções inesquecíveis – desde uma balada de hard rock a uma ópera rock – aos ouvidos e coração de muita gente.

 

Vida longa ao Rock n’ Roll! \,,/

 

Referências:

BAUGH, Bruce, 1993. Prolegômenos a uma estética do rock – tradução: Duda Machado. Novos Estudos CEBRAP n. 38, março de 1994 pp. 15-23 – São Paulo, SP.

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento, apaixonado incurável por música, literatura, grandes cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: sergiodmcosta@gmail.com

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