Leitura: velhas e novas veredas, por Cleyton Monte

Acompanho com frequência as redes sociais. As pessoas se sentem impelidas a deixar sua opinião, fazer críticas e demarcar seu posicionamento. Essa esfera tende a reproduzir preconceitos e vícios da existência offline. Na era da pós-verdade tudo é compartilhado e não se perde tempo checando a fonte do material publicado. Apesar da abundância de informações disponíveis, o internauta geralmente não busca leituras para embasar seus argumentos ou mesmo que o faça mudar de ideia. Quando alguém quer escrever algo mais extenso já vai logo avisando: “lá vem textão”. Uma advertência para um público habituado ao turbilhão de mensagens e vídeos curtos. Por isso o meu artigo de hoje é, na verdade, um convite à leitura.

Para começo de conversa deixo claro que o meu prazer pela leitura não foi alcançado na família, muito menos na escola. Ao ingressar na faculdade, passei a admirar mestres que tinham na leitura sua fonte maior de conhecimento. Fora do mundo acadêmico, um amigo em especial me emprestava seus livros, deixando-me fascinado com seu conhecimento sobre os clássicos. Aos poucos fui percebendo a importância de um bom livro. Contudo, o processo não deixou de ser árduo. No começo, tudo parecia cansativo. Depois de alguns anos, não conseguia ficar sem um livro de cabeceira. Assim como Jorge Luis Borges, vivia encantado com as bibliotecas. O diálogo com o mundo dos livros tornou-se permanente. A transformação foi radical.

Não vou citar publicações especificamente, mas autores brasileiros que considero inesquecíveis para compreender a vida política. Do clássico Lima Barreto ao contemporâneo Ignácio de Loyola Brandão. Escritores que iluminam a compreensão da nossa realidade. Se preferir leituras mais densas, aventure-se em Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, Oliveira Vianna, Celso Furtado e Caio Prado Júnior. Produções que não perderam a capacidade de nos interpelar, convidando-nos ao pensamento reflexivo. Caso não tenha o hábito da leitura, acompanhando a grande maioria dos brasileiros, busque textos que lhe interessem de alguma forma. Percorra as linhas de Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Lygia Fagundes Teles. Provavelmente será o pontapé inicial de uma viagem sem fim.

Na sala de aula insisto que a leitura é o passaporte para o nosso desenvolvimento intelectual, crítico e humano. Um aprendizado indispensável na luta pela cidadania e compreensão do que acontece ao nosso redor. É verdade que a cultura da leitura é pouco desenvolvida entre nós, os governos investem o mínimo nessa área, o preço dos livros é exorbitante e os afazeres do cotidiano absorvem nosso tempo e energia. Mesmo considerando todas as pedras no meio do caminho, deixo o desafio. Não vamos nos contentar somente com sites, blogs e outros artefatos virtuais. A vida é mais complexa, os tempos são sombrios e confusos, precisamos de uma visão ampliada. Busquemos outros caminhos. Desbravemos velhas e novas veredas.

Cleyton Monte

Cleyton Monte

Doutor em Sociologia, professor da Faculdade Cearense, analista político e pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (LEPEM-UFC)

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