AS LÁGRIMAS DE MARÇO, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Sonhar mais um sonho impossível, lutar quando é fácil ceder. Estamos em meados do mês de março, embora não concluso, produzindo uma enxurrada de águas a minar dos olhos, corações e mentes de mulheres e homens brasileiros por mais um assassinato brutal e covarde de uma filha desta nação. Misérias brasileiras herdadas da casa-grande!

É pau, é pedra. Marielle Francisco da Silva. Mulher, mãe, negra, socióloga, moradora do Complexo da Maré, feminista, vereadora pelo PSOL. Pedra angular da defesa dos direitos de mulheres e homens, a serem garantidos pelo Estado e pela Sociedade brasileiros.

O Estado moderno nasceu para garantir o bem de todos, a vida de cada um. Entende-se por bem público aquele bem coletivamente produzido que não pode ser usufruído por um indivíduo sem beneficiar a muitos ou mesmo a todos. É público aquele bem que não sabemos ex ante a quem beneficiará. Tais bens são considerados bens porque correspondem às necessidades e preferências das pessoas em geral.

Não espere de mim nada mais que a paixão. Marielle Franco era uma apaixonada pelo direito de todos os humanos terem uma vida digna de forma respeitosa. É na vida comum que se pode exercer o respeito ao outro, a qualquer outro. A garantia do respeito ao outro deve ocupar o lugar central em uma sociedade dita democrática e republicana. E isso não é atribuição apenas do Estado, mas da Sociedade como um todo. Vivemos numa sociedade doente, principalmente depois do golpe de 2016.

Não existem grandes povos sem a garantia dos direitos humanos. Não há grandes mulheres nem homens sem respeito aos direitos humanos. Pode-se dizer que não há sociedade, afinal o que é uma reunião de seres racionais e inteligentes cujos únicos vínculos são o egoísmo e a competição? O egoísmo é incompatível com a democracia por ser um vício tão antigo que nasce de um instinto cego como paixão exagerada de si mesmo, eliminando qualquer virtude e levando um indivíduo a se preferir de forma exclusiva em relação a tudo o mais. O direito, ao contrário, implica partilha, solidariedade e respeito pelo outro, qualquer outro.

O sangue de Marielle espalhado pelo chão é semente de revolução. A classe dominante brasileira com seu golpe institucional, apoiada por grupelhos de ocasião como MBL, Vem pra Rua e outros menos avisados, está criando um cenário de esgarçamento do tecido social levando-o para além da anomia. O sangue de Marielle, assassinada neste 14 de março de 2018, regará silenciosamente as veias abertas e os corações comprometidos com a mudança. Amanhã vai ser outro dia!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *