Jason Becker: música entre a vida e a vida

O mundo da ciência e da medicina foi agitado ao final do ano passado com uma notícia surpreendente e cheia de esperança. Cientistas da Universidade da Carolina do Norte (EUA) anunciaram ter descoberto a causa da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa que, aos poucos, paralisa os principais músculos do corpo humano, deixando o paciente com alguns poucos anos (no máximo) de uma sobrevida onde o próprio corpo é sua prisão*.

A ELA é mais conhecida por ser a doença do renomado físico Stephen Hawking, deixando-o desde a tenra juventude totalmente paralisado e preso a uma cadeira de rodas de alta tecnologia – com um sistema que possibilita a comunicação através de um moderno sintetizador de voz, permitindo que ele ainda escreva seus artigos e livros. Porém, há outra figura atingida por esta terrível doença que pertence ao mundo da arte, e cuja história de superação inspira músicos e pessoas diversas ao longo de quase 30 inexplicáveis anos: o guitarrista Jason Becker.

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Jason quando criança – contato prematuro com a música

Nascido em 22 de julho de 1969 na cidade de Richmond (Califórnia), Jason Eli Becker teve seu primeiro contato com a linguagem musical através de seu pai, Gary, que possui formação em violão erudito. Após algumas aulas em casa, o pequeno Jason já demonstrava uma aptidão fora do comum para o instrumento. Teve contato ainda muito cedo com a obra de músicos do blues, jazz e desenvolveu também uma paixão pela música clássica – Paganini, Debussy e tantos outros gênios do período entraram cedo no seu menu de degustação sonora. Aos poucos, foi se apaixonando também pela guitarra. Quando adolescente, já se apresentava em festivais na escola, demonstrando invejável talento.

Já aos 19 anos de idade, Jason se via no meio de uma ascensão meteórica rumo ao sucesso. Surgiu no meio musical como um dos prediletos de sua geração, sendo um fenômeno, um verdadeiro guitar hero entre seus contemporâneos. Executava peças musicais complexas (chegando a interpretar Bach e Paganini com uma precisão fora de série). No braço de sua inseparável guitarra Carvin, construía melodias e harmonias intrincadas, mas que soavam extremamente fluidas, sentimentais, simples e até mesmo engraçadas – o que se comprovava no sorriso sempre estampado no rosto enquanto ele tocava. Sua facilidade com o instrumento era tanta que muitas vezes se exibia tocando a guitarra só com a mão esquerda enquanto brincava de ioiô com a outra.

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Aos 19 anos, no auge da carreira, foi a promessa de sua geração

Neste período, foi chamado a integrar o projeto Cacophony, uma banda de speed metal com fortes influências do neoclássico e do Hard Rock, muito em alta na época. Essa mistura de estilos foi bastante difundida por dois outros guitar heroes da época: Yngwie Malmsteen e Ritchie Blackmore (ex-Deep Purple). Assim, Jason saiu em turnê com o Cacophony fazendo dupla com o guitarrista Marty Friedman (ex-Megadeth) que viria a ser seu melhor amigo até hoje. Fizeram muito sucesso no Japão, onde Jason também ministrou workshops, gravou vídeo-aulas e foi capa de inúmeras revistas do segmento. Ainda firmou contratos e patrocínios que o garantiriam fama e um bom sustento por um longo tempo. Logo, surgiu também o convite para fazer parte do álbum solo de Dave Lee Roth, então ex-vocalista da lendária banda Van Halen. A partir daí, sua vida mudaria radicalmente.

Jason não só carregava o peso de ser o novo guitarrista de um ícone do Hard Rock mundial. Também assumia a responsabilidade em substituir Steve Vai, outro guitar hero mundialmente respeitado. As expectativas cresciam em cima do jovem músico enquanto as gravações de “A Little Ain’t Enough” começavam. Durante as sessões de gravação, Jason começou a sentir uma fraqueza em sua perna esquerda, como se perdesse a sustentação. Pouco tempo depois, já estava mancando e perdendo a força e habilidade em suas preciosas mãos. Veio, então, o temível diagnóstico: era realmente portador da rara ELA.

 

“Ficou mais difícil tocar por alguns meses […] Depois de me esforçar naquilo e me sentir como um idiota, fui ao banheiro e olhei entre meu dedo indicador e o polegar e o músculo estava côncavo. Eu chorei. […] Foi assustador, mas eu tinha trabalho a fazer, então pluguei e toquei. Deixei para ficar deprimido depois.”

 

Com muito esforço, Jason continuou a gravação do álbum de Dave Lee Roth até onde foi possível. Imagino que não seja preciso dizer o quanto seu mundo desabou. Pensemos: uma jovem promessa da música, no auge de sua saúde e estrelato, sendo derrubado por algo tão bombástico quanto portar uma doença rara e degenerativa. O prognóstico dado pelos médicos foi de três a cinco meses de vida. Enquanto Jason tentava entender tudo isso, seu corpo parava lentamente de obedecê-lo, até chegar ao ponto de sentenciá-lo a uma cadeira de rodas, uma sonda enteral e um traqueóstomo.

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Com 46 de idade, Jason sobrevive graças aos cuidados de seus parentes e de uma mente sempre ativa – e persistente

Você pode muito bem pensar que “OK, agora é o fim da linha”. Mas tão surpreendente quanto a música que criou, foi também a determinação de nosso jovem guitarrista. Jason perdeu seus movimentos, mas mandou embora junto com eles qualquer sentimento de pessimismo. Prometeu a si mesmo que ia lutar. E conseguiu. Superou inclusive o ceticismo dos médicos: sobreviveu. No premiadíssimo documentário “Jason Becker: Not Dead Yet” acompanhamos sua história e também sua rotina até os dias de hoje. Quando a doença atingiu seu auge e Jason ficou sem voz – passando a usar o traqueóstomo para poder inclusive respirar – seu pai, Gary, logo criou um sistema de comunicação muito original: através de uma tabela com letras especialmente distribuídas, Jason pode montar palavras apontando seu olhar na direção das vogais e consoantes. Logo em seguida, o pai também ajudou a desenvolver um dispositivo eletrônico para que ele pudesse voltar a compor música. E os resultados foram fascinantes, pois a música jamais deixou de estar viva em sua consciência. Foi assim que ele pôde gravar mais alguns álbuns, fortalecendo seu exemplo e legado artístico.

“Eu ainda podia fazer música. Descobri que guitarra não era o principal. Era a música.”

No mesmo documentário, uma passagem muito interessante mostra o quanto sua história ajudou a fazer a diferença inclusive para outros pacientes, quebrando paradigmas da medicina. Ao falar sobre sua alimentação, uma das enfermeiras que cuidava de Jason diz que, à época do início da doença, os médicos disseram que ele só poderia ser alimentado via sonda e por um tipo de mistura grosseira de óleo, açúcar e algum outro ingrediente detestável. Seus pais e a enfermeira prontamente se recusaram, e foram atrás de pesquisar outros tipos de alimentos que permitiriam uma alimentação digna e saudável. Assim, desenvolveram purês e misturas líquidas com frutas, grãos e outros alimentos processados, às quais Jason se adaptou muito bem. Os especialistas que o examinaram em seguida – após o início da dieta com esses novos alimentos – ficaram surpresos, afirmando que nenhum outro paciente com ELA tinha uma pele e uma aparência tão boas!

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Sistema de comunicação desenvolvido por seu pai: com o movimento dos olhos, Jason aponta cada letra para formar palavras

Eu mesmo tive uma oportunidade de saber um pouco mais sobre Jason pessoalmente. Em 2014, Marty Friedman esteve aqui em Fortaleza para ministrar um workshop. Na hora das perguntas da plateia, claro que o assunto não podia ficar de fora: todos falavam muito sobre Jason e era bonito ver o sorriso estampado do Marty quando dizia “O Jason é meu melhor amigo no mundo!”. Quando peguei o microfone para minha pergunta, pedi que ele tocasse Images, composta por seu amigo. Ele ficou meio sem jeito – pois não se lembrava bem de como tocar – mas executou a introdução da música de forma muito bonita. Não preciso dizer o quanto isso me arrepiou!

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A icônica foto “beijo na guitarra”, imortalizada pelo fotógrafo Ross Pelton

 

Por falar em música, vamos à ela: claro que não poderia deixar de indicar grandes obras compostas por Jason (seja em carreira solo ou com o Cacophony). Se você quer se encantar pelo seu estilo, ouça todo seu talento como compositor na erudição medievalesca de Air; você também pode descobrir sua faceta roqueira com o frenesi distorcido de Mabel’s Fatal Fable. Deixe-se encantar pela belíssima atmosfera de Altitudes e ainda com a introspectiva e bela Rain. Sem falar no já citado dueto instrumental Images com seu grande amigo Marty Friedman, nos tempos da banda Cacophony. Não deixe de conferir seus álbuns mais importantes: “Perspective” e “Perpetual Burn”, disponíveis no Spotify.

 

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Seu primeiro álbum solo, “Perspective”, é um marco na história da guitarra moderna

Jason Becker é uma lição de vida a todos – músicos ou não. Do cativeiro de seu corpo estático, ele encontrou a libertação para sua alma. Transcendeu as limitações físicas da doença e superou a si mesmo mantendo sua mente sempre ativa. Talvez sua história também tenha se cruzado com outro caso impressionante de como a música ajuda na recuperação de pacientes com as mais diversas doenças, como o caso de Rosemary Johnson**, uma ex-violinista do Reino Unido que, após sofrer um grave acidente de carro e entrar em coma por meses, ficou tetraplégica. Hoje, com a ajuda de um leitor de ondas cerebrais – fruto de mais de 10 anos em desenvolvimento -, ela compõe músicas apenas com sua mente.

Quanto a Jason, em entrevista, ele mesmo assume que nem sempre os dias são tão bons, e claro que ele já quis morrer ou desistir de sua luta no começo. Mas ele soube lidar com a situação e escolheu viver. Mesmo com a doença, Jason já teve duas namoradas, faz meditação e ora todos os dias para manter seu equilíbrio mental. Ele confessa que ficava até mesmo um pouco chateado com a admiração das pessoas, pois o que ele queria mesmo não era ser ídolo, exemplo – ou até mesmo mártir: ele apenas queria fazer musica e voltar a tocar algum dia.

 

“Eu nunca ficava totalmente satisfeito. Eu não me deixava levar por elogios e aplausos. Tudo era uma questão de me tornar um músico melhor. Não percebi isso na época, mas estava tentando que a música e eu fôssemos uma coisa só. Acho que houve momentos em que consegui me unir à música e eu sou muito grato por isso.”

 

Talvez ainda haja solução para seu caso. Talvez não – apesar de que a notícia sobre a descoberta da causa da ELA fornece um sopro de esperança. Mas é essa mesma esperança que toma conta de mim sempre quando acho que não vou conseguir tocar uma música que quero, ou quando minhas habilidades na guitarra ou no violão não estão boas. Ou mesmo quando estou num dia ruim – musical ou pessoalmente falando -, penso no que Jason alcançou. E tenho certeza de que milhares de músicos ao redor do mundo também tiram sua determinação quando lembram do, em suas próprias palavras, “homem mais sexy do mundo”.

 

Agora, com licença. Vou aqui trocar as cordas da minha guitarra e tentar jamais desistir, assim como ele faz até hoje.

 

Fontes:

Revista Guitar Player – Edição n. 196 (agosto de 2012) – trechos e citações da matéria

Documentário “Jason Becker: Not Dead Yet”. 2012. Direção: Jesse Vile – saiba mais em: www.jasonbeckermovie.com

*Leia a notícia completa em http://super.abril.com.br/ciencia/cura-a-vista-cientistas-descobrem-a-causa-da-esclerose-lateral-amiotrofica

**Conheça o caso de Rosemary em http://super.abril.com.br/ciencia/violinista-tetraplegica-usa-ondas-cerebrais-para-compor

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento, apaixonado incurável por música, literatura, grandes cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: sergiodmcosta@gmail.com

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