Inquieto, polêmico e independente, Marcelo Lavor e a liberdade de falar o que pensa

Tudo o que eu sou, tudo que consegui e tudo o que não consegui, devo à Comunicação. A minha vida inteira tem a ver com Comunicação. É impossível isso não transparecer, é o prato do dia há mais de 35 anos.

É com essas palavras, ditas com energia e entusiasmo que o impulsivo publicitário Marcelo Lavor inicia a entrevista.

“Desde a infância eu sempre fui muito falante, tenho duas marcas registradas: Marcelo, “aquele que fala pelos cotovelos”, e Marcelo, “aquele cabeludo”. Aos quase 60 anos, o publicitário Marcelo Lavor expressa sua liberdade sobre tudo que pensa e da forma como pensa. Aos inocentes, ele avisa: “não estou aqui para dizer o que você gostaria de ouvir, ou para dizer coisas para agradar, estou aqui para dizer o que eu acredito que deve ser dito, as coisas em que eu acredito, e não abro mão”.

Politicamente correto é um termo que definitivamente não existe no seu vocabulário; “eu nunca fui e não sou politicamente correto, é uma coisa chata e nova que inventaram,… quase tudo que se fala é porque estamos “agredindo” o outro”.  isso não existe, vivemos numa democracia, temos direito de concordar, discordar, opinar, é uma questão de respeito com nós mesmos e com o outro”.

Viciado em programas de TV e rádio, ele assiste de tudo —  “pode parecer clichê, mas não sou da geração digital, e faz parte da minha paixão pela Comunicação”. Fanático assumido, confessa que para ter uma visão crítica do conhecimento, assiste de tudo, até as pregações de pastores como  Edir Macedo –  uma pessoa que domina multidões e que leva uma vida de rei às custas das ilusões que passa para seus seguidores, deve ter um mínimo de verve. E para ser mais polêmico, eu vou além, não leio Paulo Coelho, um dia li dois livros e logo descobri que não faz parte da minha literatura, mas onde ele chega, tapetes vermelhos são estendidos, então quem sou eu para atirar pedras?”

Na contramão das exposições das redes sociais, o publicitário usa unicamente o WhatsApp.  Para ele, mais de 50% do que chega pelas redes sociais é lixo. “Eu já lido com muita informação para querer aderir a tantos aplicativos que muitas vezes nada acrescentam. Procuro ser um homem livre, tento ser.”

“Alguns dirão que sou de esquerda e outros irão discordar, afirmando que sou de direita, mas acho isso um atraso de vida, uma discussão desnecessária. Eu sou simplesmente um libertário. A preocupação de homens e mulheres conscientes deveria ser o destino que nós, homo sapiens, estamos dando ao planeta que está à beira do seu esgotamento… Eu não consigo entender como as pessoas ainda duvidam do aquecimento global, “isso é uma falácia!”, afirmou o presidente eleito dos EUA”, o que falta acontecer para cair a ficha? Um terremoto na Casa Blanca?”

Inquieto e independente, Marcelo é um crítico da classe política — “quando eu penso nos homens e nas mulheres nos quais já votei, sinto vergonha do que eles fizeram e deixaram de fazer, eu sinto vergonha da minha escolha de voto. Com uma visão incisiva sobre os rumos da política, Lavor não acredita que somente as ações dos marqueteiros tenham a capacidade de mudar corações e mentes. Para ele, quem resolve eleição é o eleitor. Contudo, a eleição virou uma troca, a sua descrença é que se de um lado não se apresentam projetos de construção para uma nova sociedade, por outro lado,  o eleitor está pessimamente acostumado com esmolas…As bandeiras de hoje são tão somente eleitorais para eleger a, b,c ou d, entretanto, o votar só se aprende praticando.

“Aos quase 60 anos, me dou a liberdade de falar o que penso…” Então fala, Marcelo, fala pra gente agora.



Em que outra época gostaria de ter vivido?

Essa é fácil, desde que com múltipla resposta: eu sou um apaixonado pelas coisas do passado, fotografia, literatura, história, e por conta disso fascinado por Fortaleza dos anos 1920.  Significa o alvorecer dessa cidade com todo seu movimento poético e efervescência cultural, fico imaginando a Belle Époque, devia ser um mimo, fiz muitas pesquisas sobre essa época; e nessa viagem do túnel do tempo, agora eu pulo 30 anos e vamos para os anos de 1950 até o começo da década de 1960 no Rio de Janeiro.  Acredito que foi talvez o período mais interessante de se viver no Rio, como falava Nelson Rodrigues … o Brasil estava deixando sua mania de vira-lata, a primeira eleição de Juscelino Kubitschek, a construção de Brasília, que na verdade começou no Rio de Janeiro, teve a chegada da televisão, os Cassinos, que antes de fecharem em  1954, eram riquíssimos em produção cultural, a Copa do Mundo de 58 … muito significativos; e finalmente, roqueiro como sou, não poderia abrir mão dos anos 1960 no mundo, em algum lugar entre Woodstock (EUA) e Londres, tudo de bom em música que eu gosto no mundo, mais especificamente o rock, surgiu por esses anos. Se tivesse o túnel do tempo, eu daria tudo para viver nessas três épocas, mas isso não quer dizer que eu seja saudosista e que não seja feliz vivendo no meu tempo.


A palavra que eu mais (menos) gosto:

Difícil resposta. Adoro as palavras “SAUDADE” e “GRATIDÃO”. Mas se for para escolher apenas uma, fico com “ESPERANÇA”. Poética, com ritmo e dá sentido à vida.  As que eu não gosto, não vou dizer, pois não vou dar mídia para quem não merece.


Um filme para ver de novo:

Vejo cinema como pura diversão, eu odeio filmes búlgaros e iranianos, assisto filmes sem pretensões doutrinárias, filosóficas ou sociológicas. Portanto, a franquia Star Wars está sempre em cartaz. Já se for um filme mais “cabeça”, a Era do Rádio, de Woody Allen, é uma declaração de amor ao rádio (outra antiga paixão). Quem ainda não viu, veja!

Politicamente, eu.

Anarquista, graças a Deus! Hay gobierno? Soy contra! Há tempos não acredito em partidos ou correntes políticas. Sou a favor da liberdade e contra todo e qualquer patrulhamento ideológico ou comportamental. Há muito tempo, pelo menos há uns trinta anos, eu deixei de acreditar em partido político, eu não acredito em correntes ideológicas, eu não acredito em políticas doutrinárias de ordem nenhuma, nem de direita, nem de esquerda, nem de centro…Acho que a participação dos radicais  é fundamental na vida do homem, essa coragem de se expor, de “cutucar” o  sistema… E esse sistema que está posto, ele precisa ser eternamente cutucado, incomodado, questionado para que se procure as respostas que buscamos hoje. Portanto, esse radicalismo, como, por exemplo, o grupo Crítica Radical, é fundamental para que a vida siga seu curso. Ser radical é uma missão para poucos corajosos hoje em dia.


Quem você ressuscitaria?

Outra fácil: John Lennon.

O livro que já li várias vezes?

Um atual: SAPIENS, de Yuval Noah Harari, que trata da história da humanidade, para saber de onde viemos e onde vamos, se é que vamos chegar a algum lugar. Pelo prazer li e releio sempre os titãs do Realismo Fantástico latino-americano, que vai de Eduardo Galeano, passa pela Colômbia de Gabriel Garcia Marquez, aporta no Peru com Mario Vargas Llosa – de todos o meu preferido, e ainda contempla o cidadão do mundo Julio Cortázar. Ainda quero fazer um destaque: Padre Cícero, do historiador cearense Lira Neto, uma história tão surrealista que me fez virar devoto do Padim. Todo cearense deveria ler. A poesia me enternece, sou apaixonado e já escrevi algumas coisas por aí.



Eu me acalmo:

Quando ouço Atom Heart Mother, o disco da Vaca do Pink Floyd.  A música é uma parte indissolúvel da minha vida, dentro da música, o rock, dentro do rock progressivo, o Pink Floyd.  Seria capaz de contar toda minha vida sem dizer uma só palavra num filme cuja trilha sonora fosse os discos dessa banda que me acompanharam o tempo todo.  Talvez por me conhecer tão bem ou eu me reconhecer tão bem através desse disco, ele tenha o poder de me acalmar.

Eu me irrito:

Com a Axé Music e suas baianidades… Até por ser roqueiro, eu sempre questionei que a música brasileira fosse o samba, como sempre colocou a “intelectualia” brasileira, eu acredito que o samba é a música do Rio de Janeiro, assim como o forró é a música do Ceará e parte do Nordeste, o carimbó é a música do Pará, assim como a música caipira é parte do interior de São Paulo e Minas Gerais… O nosso país é multifacetado culturalmente, uma riqueza artística fascinante e isso se traduz também na música,  e de uns tempos para cá, a Bahia, com sua axé music, vem dominando de tal maneira os meios de comunicação, que você vê os baianos fazendo bailes de carnaval do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Então, se você se pergunta o que a música do Amazonas tem a ver com axé, o que a música de Pernambuco tem a ver com axé, o que a música cearense ou música gaúcha tem a ver com axé… na minha concepção não tem nada, axé domina todos os programas de TV e rádio desse país, eu não tenho nada contra, mas na minha casa não toca axé music, se quiser vão ouvir no bar da esquina. Já o funk com seus atuais representantes, eu acho abaixo da crítica, o Rio de Janeiro e o país merecem mais do que isso.


A emoção que me domina:

A poesia das palavras bem escritas.


Um dia ainda vou:

Viver de poesia e de cozinhar para quem eu gosto.

Existem heróis? Qual o seu?

Tex Willer, cowboy americano, mas criado e editado por uma editora italiana nos anos 40, republicano, justiceiro, que atira primeiro e pergunta depois…, mas é apenas um herói dos quadrinhos, pois os heróis só existem nas HQs. Já os vilões nos espreitam a cada esquina, na vida real, seja dobrando à DIREITA ou à ESQUERDA. Cuidado com eles! É claro que essa analogia pode ser levada para a política, mas sei reconhecer que existem pessoas de bem em todos os lados, assim como os vilões.

Religião para mim é:

Tem gente que precisa, outros não! Amém!


Dinheiro é:

O que ainda vai me permite viver do jeito que eu quero.

A vida é:

Um texto em prosa no qual se escondem pequenos poemas que dão sentido ao que fazemos, ou não, por aqui.


Se você tivesse o poder, o que mudaria?

Promulgava de uma vez por todas as 10 medidas contra a corrupção e no rodapé liberaria a maconha, basta de hipocrisia e de misturar uma coisa com outra! Nos EUA, que são uma sociedade careta, em nove estados o consumo está liberado, no Uruguai, da mesma forma.

Eu gostaria de ser… o que sou e não ser incomodado por isso!

Não perco uma oportunidade de…

  1. a) ser feliz!
  2. b) de dizer um desaforo para quem merece!


A solidão e o silêncio:

Formas de aprendizado interior fundamentais para que cada um aprenda e tente se bastar em si mesmo pois autoconhecimento não é arrogância.


O Brasil é:

O melhor lugar do mundo e não merece a classe política que tem, a começar pelos eleitores!

O ser humano vai:

Depois de exterminar os Neandertais e os Erectus, entre outros “irmãos”, o “Sapiens” vai destruir o próprio “Sapiens” e levar tudo com ele, consumindo e esgotando o Planeta Terra. Triste, mas inevitável.



Eu sou… minha mensagem é…

Já que o meio é a mensagem, minha mensagem Sou Eu Mesmo, com todas as contradições, as dúvidas, os exageros, os erros e acertos, as alegrias e tristezas que me trouxeram até aqui. Sempre me vi mais como um ponto de interrogação do que um ponto de exclamação. E se você me disser que sou contraditório, eu vou te responder: e quem disse que eu não era? Quem é que me obriga a caminhar sempre pelo mesmo lado da calçada?

 

 

Ainda menino, na Fortaleza dos anos 60, enquanto se deleitava com a sua coleção de HQs (foi assim que ele aprendeu a ler) dividia o tempo entre jogos de futebol e corridas de bicicleta, “lembro-me também de sempre falar palavrões, e por isso minha mãe me repreendia, menino, tu queres apanhar?” Isso com o tempo piorou, os palavrões me acompanham até hoje.

Marcelo Lavor é apaixonado por rock – “evidentemente eu passaria horas falando de todas as bandas de que gosto e sobre a história do rock, mas isso seria uma outra entrevista —  teria um enorme prazer em falar”.

Com um perfil diametralmente singular, mestre na arte da Comunicação, crítico e polêmico, do tipo que não olha de soslaio, mas fuzila com o olhar em suas afirmações, expert da publicidade e do Marketing, conduz com diligência professoral cada projeto a que se propõe.  O menino inquieto, o profissional, um homem que não se enquadra – conforme disse, durante a entrevista, “quando alguém diz cada qual no seu quadrado, eu, sinceramente, não sei qual o meu quadrado”.

Eu nunca disse e nem nunca quis ser exemplo para ninguém. E por outro lado sou um eterno esperançoso e acredito que ao final tudo sempre dará certo.

Se fosse Marcelo um poema, eu o batizaria; Balada dos Enforcados, se fosse o poeta, François Villon, e eu não vou dizer o porquê, mas, contraditório como és, se quisesse ser apenas música, teria permissão para ser a BANDA INTEIRA, teríamos então, um problema, só para não esquecer, ele é o tipo que não se enquadra, e por causa disso, talvez quisesse ser literatura. Sendo assim, não o nomearia com títulos de Cortázar, mas sim, como a biografia de um “fora da lei”.

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino, jornalista, aprendiz de blogueira, fotógrafa e colunista do Segunda Opinião.

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11 comentários

  1. Jamille Ipiranga de Lima

    Marcelo de Lavor foi meu professor no 1o semestre da faculdade de Jornalismo na Fanor. Um excelente professor, desses que a aula terminava e você não se dava conta.
    Valoriza cada aluno, aprende rápido nossos nomes, faz-nos sentir importantes, motivados.
    Cada pergunta é ouvida com respeito e sempre há uma resposta adequada. Apesar da liberdade entre professor e aluno, a disciplina na aula é uma marca. Celular na sala, jamais, mas isso só reforça seu compromisso com o nosso desempenho.
    Lavor é uma unanimidade entre nós, um professor inspirador, profissional competente e ser humano valoroso!

  2. Carlos Augusto Amorim Cardoso

    Muito boa a entrevista. Sobretudo quando o entrevistado é desses cabeludos que vieram andando de Woodstock…
    Brincadeiras à parte, parabéns pela iniciativa do hq perfil em mostrar como se pode fazer comunicação com princípios, ética e criatividade.
    Marcelo é tudo isso que diz e muito mais.
    Pude desfrutar da amizade cruzada (é amigo do meu irmão) e conviver com ele alguns anos de minha infância e juventude; só posso referendar o que ele diz e o que dizem em elogios ….
    diz e o que dizem (os elogios)

    • Heliana Querino

      Heliana Querino

      |Autor

      Carlos Augusto Amorim Cardoso, obrigada pela gentileza da leitura! Sim, o Marcelo, sem dúvidas é tudo isso que diz e muito mais.

  3. Pâmela

    Nunca esperei tanto por uma entrevista (exceto pela da Ana). E superou minhas expectativas.
    Meus dois amores, meus dois ídolos, de um lado a entrevistadora, do outro o entrevistado. Vivi para ver esse dia chegar!
    Parabéns, amiga! Você só se supera! Imagino o frio na barriga por entrevistar um dos nossos grandes exemplos!

  4. Cristianne

    Saudade desse mestre, faço publicidade hoje e posso dizer que sou cria de Marcelo Lavor, as aulas incriveis e hipnotizantes me fizeram criar um amor pela comunicação.

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