A imprensa livre do dinheiro do poder público e das estatais: seria melhor ou pior? – Parte 5 – por Osvaldo Euclides

Nessa troca de ideias sobre a comunicação pública e sobre a indústria da informação, a partir de uma provocação de um jornalista de zerar a verba de propaganda do poder público e das estatais, com o objetivo de melhorar a qualidade do jornalismo brasileiro, cabe fazer pelo menos o registro de alguns tipos de empreendimentos de imprensa fora do modelo mais comum, fora do padrão tradicional.

Um dos mais antigos, e que data do primeiro quarto do século passado (desde 1922), é a BBC, a rede de rádio e televisão da Inglaterra, com sede em Londres e que de fato atua praticamente em todo o mundo, levando o mundo para os ingleses e os ingleses para o mundo. A BBC é uma instituição pública, que recebe dinheiro estatal. É mantida pelo Estado e atende a objetivos políticos e sociais coletivos, gerida com critérios e padrões que lhe permitem se colocar mais como instituição pública do que como empresa estatal. Os ingleses pagam uma taxa anual para usufruir da TV aberta de um modo geral, basta ter televisão em casa. Essa taxa compõe o financiamento da operação da BBC, complementada por receitas próprias. É um modelo de jornalismo consistente e respeitado em todo o mundo, tem qualidade e goza de independência suficiente para fazer boa imprensa. Pouca coisa é tão positivamente inglesa quanto a BBC.

Na França, em plena Segunda Guerra Mundial, o país há pouco desocupado pelos nazistas da Alemanha, os franceses acharam necessário criar um jornal para informar a população e orientar a análise e a opinião pública. Um intelectual criou o jornal a pedido do General Charles De Gaule. Nascia em dezembro de 1944 o Le Monde. Nasceu com uma página apenas. Finda a guerra, livre a França, o jornal foi mantido, organizado como uma cooperativa de profissionais jornalistas (a partir de 1951) e recebendo apoio de dinheiro público. Esse modelo foi bem sucedido e prevaleceu por décadas com resultados satisfatórios, para dizer o menos. Chegou a vender mais de quarenta mil exemplares fora da França (ver Le Monde Diplomatique). Até que vieram as crises de crescimento e de expansão, o Estado afastou-se e (sob ameaça de falência) ele passou a ser controlado por três investidores privados a partir de 2010, com a promessa de manter a liberdade da redação.

No Brasil, houve há poucos anos, num governo trabalhista, a transformação de uma televisão estatal em uma instituição pública. O processo de construção ainda engatinhava rumo à consolidação quando um vice-presidente assume depois da derrubada da presidente da República eleita. Imediatamente, o novo ocupante do Palácio do Planalto desmonta a ideia da gestão coletiva e coloca alguém “de sua confiança” e esvazia o processo de evolução. E a TV volta a ser do Estado. Pior, volta a ser uma peça, apenas, da engrenagem da propaganda do chefe de plantão. O orçamento foi reduzido.

Parece economia de dinheiro público? Não, não foi. As empresas privadas de comunicação tiveram reforço altamente expressivo de verbas de publicidade, mas apenas as grandes e tradicionais. O novo governante cortou completamente as verbas para os veículos eletrônicos que fazem jornalismo de opinião (os sites que se dizem independentes, mas efetivamente são de centro ou de esquerda, e que a mídia tradicional, que se diz independente, mas é de centro ou de direita, chama de “blogs sujos”). Noutro patamar, uma revista como a Carta Capital, que tem qualidade de conteúdo e números razoáveis de circulação, também foi para a “lista” do bloqueio da verba pública e de estatais, porque sabe-se que ela não aderirá ao novo governante.

Contou o senador Roberto Requião, que governou o Paraná, que sugeriu ao então presidente Lula, no início do seu primeiro mandato que, ao invés de “dar verbas bilionárias à grande imprensa”, investisse, como ele fez, numa rede pública de informação. Lula ouviu e disse “fala com O Zé Dirceu”. Requião foi lá e repetiu a sugestão. E recebeu de Dirceu a seguinte resposta: “Requião, nós já temos a nossa televisão. É a Globo”.

O que se observa, pelas informações acima, é que o dinheiro do poder público e das estatais destinado a propaganda na mídia, aqui no Brasil e em outros países até bem mais ricos e desenvolvidos, é clara e evidentemente usado com fins políticos e sociais. O problema é que nem sempre esses fins são elevados e nobres o suficiente para merecer dinheiro público. E outros modelos podem e devem ser experimentados, com transparência, com equilíbrio.

Faz, portanto, todo sentido discutir essa relação.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *