A imprensa livre do dinheiro do poder público e das estatais: seria melhor ou pior? – Parte 4 – por Osvaldo Euclides

A imprensa é livre para fazer escolhas. E a primeira escolha de todo dia é a definição da pauta, depois da análise da concorrência. A pauta é a lista de assuntos que serão abordados, analisados, aprofundados ou que terão sequência nas páginas dos jornais, nas telas da TV e nos microfones das rádios, com maior ou menor destaque, com maior ou menor ênfase. Os fatos podem se sobrepor à pauta? Sim, e não. Sim, imediatamente. Depois, quase imediatamente em seguida, eles caem na pauta. E passam a ser, digamos, administrados. O fato também pode sair da pauta e, eventualmente, ser esquecido – fica numa espécie de gaveta, a “sexta seção”, ou cesta, candidato ao esquecimento. Ou ganha fôlego e cresce. O jornalista Roberto Marinho dizia, século passado, que a força da Globo estava muito mais no que ela não divulgava.

Apurados, analisados, os fatos e a pauta vão para a edição, à medida que o dia avança. Os editores definem que prioridade terão. Como? Estabelecendo se vão para a primeira página ou não, se terão destaque nas editorias ou programas específicos, ou não, que aspecto da notícia será valorizado, que aspectos da notícia serão desconsiderados, que opiniões serão aproveitadas (a pauta já definiu quem deveria ser convidado a opinar), enfim, que espaço (ou tempo) a matéria terá. O leitor, ouvinte ou telespectador receberá o resultado final desse trabalho profissional diário, contínuo, permanente, minucioso. Nada deve escapar ao escrutínio final dos editores de cada área e do editor geral, profissionais da confiança dos empresários de comunicação, intérpretes fiéis do pensamento dos donos e executores da linha editorial de cada veículo. Cada etapa do processo (da pauta à edição final) é também um tipo de controle, ferramenta de gestão da informação.

Esse estágio final (edição) é decisivo. Os veículos têm um cuidado especial com a coerência política e ideológica do que noticiam e como noticiam com a sua linha, com sua tradição. A tradição é uma palavra-chave na identidade e na imagem da imprensa. As empresas de comunicação passam de pai para filho, por gerações. Há uma inércia nas posições políticas e de mercado, o ranking muda menos que em outros setores.

A audiência de rádio e TV e os leitores de jornal escolhem que veículo consumir, ou seja, cada leitor, ouvinte ou telespectador escolhe rádio, TV e jornal de sua simpatia, de sua confiança. Essa confiança se baseia na identidade política e ideológica, em última análise, entre o consumidor de informação e o dono do veículo. Essa afinidade eletiva é, às vezes, refletida e consciente. Às vezes, nem tanto. Não raro, o consumidor de informação tem pouca opção e a escolha, estável, pode se perpetuar. A indústria da informação é mesmo muito concentrada. O Brasil inteiro não deve ter sequer meia dúzia de agências de notícias realmente capazes. E as que são capazes são ligadas a veículos líderes. A concorrência é tão pouca, que produz pouca mudança, mesmo a longo prazo. Pense na grade de programação da Rede Globo (há quantas décadas não há mudança relevante?) ou na linha editorial dos jornais e revistas de economia, observe o principal jornal de sua região. Jornais, por exemplo, fazem reforma gráfica a cada meia dúzia de anos. Nunca fazem reforma editorial. O mundo pode rodar e mudar, mas eles continuam os mesmos, na mesma posição. Tradição e coerência, como se diz. De pai para filhos, e destes para netos.

É uma tendência conservadora de muita força. Agora mude o foco da imprensa para o poder público e você verá as inúmeras semelhanças e afinidades.

Para começo de conversa, quase por definição, os governos são conservadores. Até diz-se que nada é mais conservador que um liberal no poder, que os de esquerda se endireitam. Se a imprensa está espontaneamente presa à tradição e à coerência, o poder público está de forma impositiva amarrado a uma inércia que tende à paralisia – é que os gestores públicos só podem agir no trilho da lei (o particular pode fazer tudo que a lei não proíbe, o público só pode agir dentro do que a lei prevê).

Se na imprensa, o processo de captação jornalística tem uma base larga, a etapa final de edição é a ponta de um funil, onde prevalece a orientação geral e específica do dono. Na máquina pública, a ponta que presta serviços à população é base larga (professores, profissionais de saúde, policiais), mas o poder decisório e a definição de prioridade também se afunila e o estilo do governador, do prefeito ou do presidente é que prevalece.

E há uma concentração evidente também na administração pública. Salvo em situações atípicas, o Poder Executivo prevalece em força e tamanho em relação aos outros dois poderes (Judiciário e Legislativo). Essa desproporção começa no Orçamento: noventa e cinco por cento dos recursos estão no Poder Executivo. Considerando-se as esferas, o poder do presidente é muito maior que o do governador, e o do governador é muito maior que o do prefeito. De novo, o funil, ou a pirâmide.

Não deve causar polêmica a afirmação de que os jornais são a fonte do poder da imprensa. Os jornais tendem a influenciar e até condicionar rádios e televisões. Isso vale quando os veículos compõem um grupo, principalmente. Mas vale também quando não é o caso. Certamente no jornal está a informação, a análise, a pauta e a opinião que seguem rádios e tevês no país, de um modo geral, mas também em níveis regionais. Como são gratuitos e costumam ter linguagem e programação mais leves, estes dois veículos eletrônicos alcançam quase toda a população, potencialmente acima de 95 por cento das pessoas. Entretanto, a circulação líquida paga de jornais não chega a 2 por cento da população, e tem caído. De fato fica mais próxima de 1 do que de 2 por cento, regra geral. Entretanto, o jornalismo até parece feito para esses dois por cento.

Os meios de comunicação de massa tradicionais falam a mesma linguagem dos governos, uma sintonia quase natural, por menos natural que possa ser. São raros os momentos em que essa afinidade política e ideológica não se configura de fato. Quando isso acontece, e aconteceu em alguns momentos da história nacional e regional, a crise se instala.

Mas o que é mais compartilhado entre governos e imprensa, o que lhes confere afinidade, é o discurso de que ambos têm compromisso com o povo. Quando, na verdade, e na prática, governam e formam a opinião pública com a atenção e os cuidados voltados para uma parcela menor da sociedade. Governos e imprensa compartilham a mesma clientela vip, aquela que, de formas diretas e indiretas, os financiam e influenciam de fato. Em resumo, discursam para a massa, atuam para um nicho.

Como diz a regra da Administração, a definição do cliente também define a organização.

Governos e imprensa precisam sempre se entender. Repetindo, há sempre muito a ganhar e muito a a perder. A verba de propaganda do poder público e das estatais termina por ser usada como instrumento desse entendimento com a imprensa. Para o bem e para o mal.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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