ILUSÃO DE SER BOM, por Rui Martinho

A ilusão de ser bom e o desejo de aparentar bondade, seguindo recomendação de Maquiavel (1469 – 1527), podem ser sentimentos e atitudes perigosas. Incorrer em erro querendo ser bom é um grande perigo. Poupar um paciente de um tratamento doloroso necessário é um exemplo disso. Vivemos sob hiperinflação muito tempo por acreditarmos em tratamento sem dor para a desvalorização da moeda. Pior é tendência da presunção de virtude para convolar núpcias com a intolerância. Presunçosos assim se acham justamente pela intolerância para com o que lhes parece erro, legitimando a atitude reprovável pela suposta defesa do bem. Denunciar e exprobar o alegado mal está em voga. Ser “do bem” é a tendência dominante, com perigosos resultados, como o estímulo à agressividade. Historicamente a defesa de algum grande bem pode vir associada a um grande mal supostamente legitimado por ela. A “Santa Inquisição” é o exemplo clássico.

Vejo pessoas “do bem”, altamente qualificadas, defendo a tese segundo a qual políticas públicas dispensam o uso da força para conter o domínio de territórios por organizações criminosas. Parece que assistentes sociais trazendo flores podem converter perigosos bandidos em cidadãos ordeiros. Políticas sociais são indispensáveis na contenção da criminalidade. Não precisamos de inovações geniais. Temos, entre outros, os exemplos de Medellín e Cali, na Colômbia. Medidas necessárias, como políticas públicas, não podem ser aprioristicamente consideradas suficientes, mormente quando se trate de problemas complexos, de natureza multifatorial. Muitas medidas devem ser articuladas e praticadas. Uma delas é o enfrentamento indispensável para a recuperação de territórios ocupados; para evitar o despejo de famílias de suas casas; para desarmar um verdadeiro exército de ocupação de áreas urbanas cada vez maiores. Não estamos tratando de tarefas policiais, mas de operações de guerra. Na Colômbia as políticas sociais foram importantíssimas, mas o confronto não foi negligenciado.

Reconhecer uma situação de guerra civil não é criar esta situação porque ela já existe. Não se fazem guerras sem o uso da força, sem dor e até sem perdas colaterais, embora estas coisas devam ser evitadas o quanto possível. A vitimização de bandidos que praticam toda sorte de abuso contra as populações pobres dos subúrbios é um erro grosseiro e uma ingenuidade imperdoável.

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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