Ian Gomes – uma parte de mim pondera: outra parte delira, se espanta

Leitora e escritora de cartas, aos 12 anos, Ian ajudava a tia, mãe de dezoito filhos, com as correspondências para São Paulo durante as férias escolares. Era certo ir de Senador Pompeu passar as férias, a cada seis meses, com os dois irmãos caçulas, em São Bernardo, na época, ainda distrito de Solonópole,  onde nasceu e morou até os cinco anos de idade. A tia e as primas não sabiam ler e nem escrever, e as cartas que chegavam de São Paulo ficavam nas gavetas esperando até o dia das próximas férias de Ian.

 

 “Eu amava ler os artigos da Adísia Sá,  achava bonito e importante quando eu lia “professora e filósofa Adísia Sá”,  eu lia e pensava, quero ser jornalista e filósofa”

 

Quando a família  se mudou para Senador Pompeu,  os pais abriram um restaurante  que funciona até os dias atuais. Mas antes de se tornar a apresentadora que ficou conhecida nas telas das TVs cearenses e nos programas de rádio do Estado, Ian Gomes utilizou como rota de fuga  a igreja,  através dos grupos de jovens,  pois o seu pai era muito desconfiado, não deixava as filhas saírem de casa. E o caminho casa – igreja – escola era a única saída.  As festas na escola inventadas por ela e as colegas eram um dos poucos meios de diversão.  Aluna de escola pública,  estudou na garra, pois o pai nunca quis gastar nada com educação.  E ali mesmo, em Senador Pompeu, Ian Gomes terminou o magistério, 2º grau. Mas antes disso, aos 15 anos,  foi selecionada para apresentar um programa de rádio na recém-inaugurada Rádio Sertão Central.  Ian já cantava na igreja, sua voz chamava a atenção,  foi a própria igreja que a indicou para fazer um teste na rádio, e ela foi. Tinha muitas meninas. E duas jovens foram as escolhidas, Ian Gomes e uma garota da cidade de Pedra Branca.

 

“Então fomos ser as locutoras de rádio. O programa era Sucessos do Povo, a tarde inteira. Eu anunciava músicas e recados da vizinhança que me usava como meio de informação. – Seu Raimundo avisa para dona Joana no sítio São Joaquim que só vai chegar à noite porque perdeu a rural, ele aproveita e pede a música do Roberto Carlos, Lady Laura, e oferece a todos os primos aí no sítio São Joaquim. Eram centenas de recados e avisos, eu já sabia ali que seria jornalista. Eu tinha uma outra tia que era representante do jornal O POVO no interior, eu ficava rezando para sobrar jornal, porque ela me dava depois que distribuía para os assinantes. Eu amava ler os artigos da Adísia Sá,  achava bonito e importante quando eu lia “professora e filosofa Adísia Sá”,  eu lia e pensava, quero ser jornalista e filosofa. E descobri que precisava estudar mais.”

As lembranças de Solonópole não podiam escapar de sua memória. Por exemplo, a casa em que nasceu, o açude em frente, e a contradição de até hoje não saber nadar. “Eu  tinha nojo da lama”, disse ela ao lembrar que entrava de tênis na água, onde só ia quando dava até os joelhos.

Nesse tempo,  a pequena Ian já dava sinais do que queria mesmo, pois seus primos mandavam cartas para a tia, e como era comum no interior, muitos não sabiam ler.  Ian Gomes levava livros para fazer leituras para as primas. Então, nas férias, a sua tarefa, depois que brincava de piquenique, fazia comida nas panelinhas de barro na cabana debaixo das árvores, ia ler e escrever as cartas respostas.  A tia pedia para ela escrever coisas como “meus filhos, aqui está tudo bem, mando a benção e abraços de sua mãe”, e Ian,  por sua vez, respondia que a folha do caderno era muito grande para conter apenas uma frase…

“Ali eu criava as histórias. Eu, menina com 12 anos, escritora de cartas, contava para meus primos distantes as notícias da casa do sertão :

“Celma, minha filha querida, o sertão continua sem chover mas deu pra tirar as sacas de algodão suficientes para as nossas necessidades, sabe aquela galinha pedrês, ela teve muitos pintinhos… todos os dias lembro de vocês, mas continuo feliz, apesar da saudade.  A sua prima Ian está aqui passando  férias com os irmãos, eles são muito danados…” Eu amava criar aquelas estórias.”

 

  1. Em que outra época gostaria de ter vivido? Talvez na época do Paleolítico, também conhecido como Idade da Pedra Lascada, 2 milhões a.C. (época aproximada em que o homem fabricou o primeiro utensílio). Optei por esse período devido à simplicidade e coletividade em que se vivia. Não havia ganância, deduzo. A missão era descobrir. Isso me fascina.
  2. A palavra que eu mais  gosto é  Alegria, Gratidão, Esperança. Essa trilogia é a base para a construção de alicerces seguros na caminhada diária. A que  menos gosto – Arrogância. Traição. Desonestidade.
  3. Um filme para ver de novo – O escafandro e a borboleta,  autobiografia escrita por Jean Dominique-Bauby. Jornalista bem-sucedido, ele viu sua vida mudar por completo, aos 43 anos de idade após sofrer um derrame e ficar totalmente paralisado e dependente.  É a história real de alguém que teve o mundo aos seus pés e de repente se viu preso dentro do próprio corpo.  Gosto desse filme por mostrar a efemeridade da vida.  O quanto somos frágeis, como bolhas de sabão.


  4. Politicamente,  ando meio apática.  O mundo vive uma transição, por isso não perco a esperança no ser humano.
  5. Quem você ressuscitaria – Sidarta Gautama – Buda.  Os ensinamentos deixados por ele, como desapego, gratidão e ética seriam convenientes para o momento atual.

  6. O livro que já li várias vezes – todos do escritor, psicanalista e teólogo Rubem Alves, e o Poder do Agora, do escritor alemão Eckhart Tolle.  O livro tem conceitos de várias tradições espirituais, o autor conseguiu mostrar o caminho para uma verdadeira descoberta do nosso potencial interior,  ensinando-nos a tomar consciência dos pensamentos e emoções que nos cercam.

  7. Eu me acalmo  quando   saio pelas ruas de bicicleta, degusto tapioca com coco e café com leite,  ouço música, cozinho, vejo o mar, e quando alguém que eu admiro me faz sorrir.
  8. Eu me irrito  com pessoas que querem sempre tirar vantagem em tudo.  Os inconvenientes e falsos também, às vezes, me desconstroem.
  9. A emoção que me domina é quando  estou com crianças…. Elas têm um olhar encantador, elas possuem a capacidade de se encantar com o banal,  isso é pura emoção.
  10. Um dia ainda vou  aprender a tocar violão ou flauta e a nadar.  E viajar mundo afora, de preferência com uma companhia em plena sintonia.  De corpo e alma.
  11. Existem heróis? Qual o seu?  Alguém que esquece sua própria individualidade para salvar outro é um herói. Existem muitos anônimos.
  12. Religião para mim é não desejar ou fazer mal a qualquer pessoa, ser útil,  acreditar na força do pensamento e do universo.
  13. Dinheiro é necessário para pagar contas.  Não compra as coisas que mais me fazem feliz:  andar pelas ruas sem pressa, admirar o pôr do sol, mergulhar em mares calmos, beijar, abraçar, sentir o cheiro do pão quentinho, dormir….


  14. A vida é um presente para ser retribuído com gratidão, compaixão e atitude, todas voltadas para o bem.
  15. Se você tivesse o PODER, o que você mudaria – Não é poder que nos permite mudar algo.  A mudança independe de funções, cargos. Tem que partir do desejo de cada um. Qualquer mudança é única.  Esperar ter poder para mudar algo é cair nas armadilhas impostas por uma minoria que não pensa na coletividade.
  16. Eu gostaria de ser um Ipê roxo ou amarelo. Amo a natureza.


  17. Não perco uma oportunidade de tomar um café com tapioca com um amigo ou amiga.  É terapia certa.
  18. A solidão e o silêncio … Solidão e silêncio estão em plena comunhão. Convivo de forma tranquila com os dois. Ambos me permitem criar e perceber que nada perturba a verdade da minha alma. É no silêncio que escuto minhas inquietações.  É na solidão que sinto a ausência do outro, mas não de mim.
  19. O Brasil é um pais cheio de encantos que merece respeito pela sua natureza e pelas pessoas do bem, que são muitas.
  20. O ser humano vai um dia compreender que tudo é transitório e, com base nesse princípio, ter consciência de que não faz sentido querer ser melhor que o outro.  Estamos todos no mesmo nível.


 

  1. Eu sou como a letra da música “Traduzir-se”, do Fagner — define um pouco do meu momento: “uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira, se espanta”….

Estamos sempre em permanente transição. Sou curiosa. Eterna aprendiz. E, enquanto eu puder enxergar beleza nas coisas mais simples e, para muitos, banais, seguirei em busca dos meus sonhos. Estes sim, são permanentes.

Morando na capital cearense desde os 17 anos, quando veio para ficar e estudar, contra a vontade de seu pai, Ian Gomes fez de Fortaleza a sua cidade, do jornalismo, sua paixão. Sobre o amor, ela fala com discrição.  Em todo o percurso, a persistência e audácia são quase seus sobrenomes. Sem se render a nenhum estereótipo, a moça dos grandes olhos castanho-esmeralda, jornalista e filósofa, na sua simplicidade e sem exageros e com humildade luminosa,  um dia ela pediu: “vida, me surpreenda!”, a vida surpreendeu Ian e Ian surpreendeu a vida.

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, pesquisadora, Pós- graduanda em Escrita Literária educomunicadora e colunista do Segunda Opinião.

Mais do autor - Twitter - Facebook - LinkedIn

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *